A Estrella de Absyntho - Bloco 21
E dentro, num negror de sédas, o suicida
tinha a cabeca cahida para trat, os olhos semi-abertos, a boeca muda.
Haviam-lhe arrancado violentamente um
punho de rendas. A phantasia estava rasgada ao peito, a camisa tambem: e,sobre a carne
nua e alva, devassavam-se-lhe pellos fortes e
escuros.
Carlos imobilizara-se, aterrado, chorando baixo, Bruno de Alfenas, lento, respeitoso,
approximou-se. Retirou
no doinino negro,
uma pasta de algodao do lado esquerdo: estava ligeiramente ensanguentada; curvou-se,
limpou o lugar ferido e descobriu no mamillo o ponto avermelhado e molle da penetracao
da bala. Recollocara o algodao e agora espalmava a mao sobre o peito.
-Esta morno...
E num subito horror contente, gritou:
—O coracao nao foi tocado! Bate! Ainda esta vivo, vejam!
Dois soldados approximaram-sc espiando.
Carlos perguntou ao outro se nao era uma il
lusao. A grande figura de Bruno de Alfenas
perscrutava, affirmava de novo, perscrutava
ainda.
-Vamos ver se o salvamos! disse Carlos.
Pediram aos guardas que tivessem cuidado com o ferido. Iriam la em cima, falar ao
delegado. A autoridade, surpresa, rao oppoz
duvida ao desejo que eles manifestaram de
transportal-o para uma' Casa de Saude. Deu
ordens rapidas.
Um quarto de hora depois, uma grande
ambulancia deixava o necroterio. O sangue
comecara a verter de novo. Dois enfermeiros
mantinham na maca o corpo sempre morno.
E um outro automovel, galhardo, possante, com lacos de serpentinas nas rodas, confetis nos bancos, restos gritantes da festa que celebrara, seguiu atraz, levando as duas phantasias.
Passaram a cidade, subiram a Avenida
Luiz Antonio. A sereiada ambulancia chorava como se fosse a propria mae de Jorge. E
ao fundo do assento fofo, Carlos Byrorr penque abafaria de flores o tunulo do
sava
amigo.
Baicao
Na alvorada hospitalar, os dois cirurgioes mascararam-se de gaze, ficando apenas
com os olhos descobertos. E moveram-se nos
grandes camisoes. Ele fora desnudado como
para uma lidcao de anatomia. Havia em torno
irmas de branco e enfermeiros prestimosos.
As vozes dos medicos sahiam soturnas
atravez das mascaras. Dobravam-se
sobre
ele, suggeriam, discutiam.
E o zumzum das vozes continuou, lento
as vezes, as vezes rapido, com silencios profundos. Os ferros brilhantes, que eles recolocavam sobre a mesa esterilizada de vidro,
continham manchas de sangue.
Tinham descoberto a bala. Costuravam
agora.
A irman que sustinha a pobre cabeca
branca de cabellos ondeados, chorava.
Os medicos foram lavar-se. Depois voltaram a vel-6 em silencio, um silencio que nao
dizia nada.
Encostado ao patamar da escada interna,
o velho falava na manha de hospital.
Era um brasileiro de imensa estatura,
enrugado nos recortes do rosto, grisalho nos
cabellos em franja desegual e nos bigodes em
ponta; herculeo e quixotesco.
Chupava um cigarro de palha, numa rouBaina
pa surrada e antiga.
E Carlos Byron notava os seus olhos agudos, alerta, as suas posicoes instingtivas de
guarda.
creancas, o priino
-Uma vez eramos
Joao de Deus e eu, dormiamos no
mesmo
quarto, na fazenda e um escravo quiz nos
matar. Nos dois
avancamos para o negro.
Ele era valente, nos deu trinta e duas facadas. Pegou uma numa mulata que quiz agarrar o primo pelas costas. Seguramos o bicho.
Eu ne cortei aqui na mao..
Irmans passavam, levando remedios, chicaras, seringas de injcdcao; enfermeiras corriam, medicos entravam e sahiam dos quartos.
Carlos Byron desde a' vespera, quando
viera saber o resultado da extracao da bala,
notara aquele typo so, andando pausado e
eregto pelos corredores. Tinha-o visto sahir
de um quarto de dois leitos, onde um rostinho de doente o interessara. E agora disposto a esperar a vinda do medico, pudera-se a
conversar com ele.
A doente
quarto
que sorria
um sorriso de vinte apnos da sua cama alva e larga, tinha a acompanhalta uma senhora baixa, de roupas de inverno europeu. E
o velho rodava, entrando, sahindo. Era quas
uma sobrinha sua, a filha unica do primo
Joao de Deus, que morrera do peito.
-Que foi isso na mao? perguntou o rapaz desencostando-se.
—Foi ar. Des'que apanhei isso, nao pgude
mais dar dos meus tapas de mao fechada.
E num esforco longo tentou mover os dedos parados.
-Mesmo assim ainda brigo e nao tenho
medo de assombracao. E' so agua benta e
boa faca; e vou onde quizerem..
Carlos Byron via passar nos seus olhos
firmes, na sua
tranquillidade provada em
meio seculo de dias ineditos e bruscos, a tragedia vidtoriosa de seu povo.
Os peoes bronzeados continuavam la longe, sob o ceu em folha, a avancada perigosa
das bandeiras, agatanhando e subindo os limites fugidios da terra descoberta, que se ia
entregando farta, compensadora, fiel a vinda propnetica das caravellas.
Raca, mais que raca, expedicac secular
martyrologio, calendario, santos, cicom
dades e cathedraes no solo vencido: moncao
transcontinental sem roteiro, transladacao
imperceptivel e lenta de sonhadores de todos os climas, de malditos e heroes, de transfugas c rehabilitados, de missionarios e criminosos -- caminhada lyrica de quairocentos
anos.
Aos primeiros movimentos que nos portos da Peninsula retesara pannos e cordagens, trazendo, pelo mar, argonautas, degredados e padres, havia sudcedido outro, mais
possante e mais largo no surto das frotas
comerciaes do ultimo seculo.
Nova gente havia deixado as costas aridas da Albania, os portos bulicosos da Italia,
as ruelas imundas de Salonica e de Marselha, as manhas escaldantes da Sicilia ou as
enregeladas tardes nogturnas da Suecia... E
tinha vindo no·mesmo espirito de cruzada
egoistica, sem gritos expansivos de guerra ou
bandeiras erguidas, apenas ao batuque invisivel e teimoso da propria vontade de vigtoria.
Ao fundo, no largo corredor de Casa de
Saude, assomou a figura magra e ligeira do
Dr. Braulio Costa. A senhora de roupas europeas que deixara com o velho a filha risonha
dirigiu-se ate ele. E perguntou-lhe:
-Doutor, é o senhor que trata do doente
do quarto 11?
Sou, minha senhora.
-Ele morre?
Nao se pode dizer nada ainda.
Ela despediu-se, forcando um agradecimento, entre lagrimas subitas, irreprimiveis,
pequeninas.
Carlos Byron sahira depois de conversar
com o medico, na volta do quarto. Nao quigera ver o operado: impressionava-se demais.
Jorge continuava com a respiracao comatosa, ascendente e descendente. O Dr. Braulio
nao garantia nada...
No portao do jardim exterior do Instituto, o moqo cruzou com um automovel de praca, onde vinha um senhor gordo, de grandes
olhos e barba grisalha. Saiu para a Avenida.
Doia-lhe perder o amigo: doia-lhe na alma
que o artista maravilhoso, indiscutivel que era
Jorge d'Alvellos, fosse sacrificado assim a
uma horrorosa tragedia, ignorado pela cidade
para cuja gloria se tinha feito nos anos laboriosos da Europa.
O senhor gordo, de olhos grandes e barba
grisalha pagou lentamenta o taxi, empurrou
receio a porta de vidro fosco e ficou
com
olhando, descoberto e timido, para o interior
do hospital.