A Estrella de Absyntho - Bloco 21 A Trilogia do Exílio · Capítulo 48 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 21

E dentro, num negror de sédas, o suicida

tinha a cabeca cahida para trat, os olhos semi-abertos, a boeca muda.

Haviam-lhe arrancado violentamente um

punho de rendas. A phantasia estava rasgada ao peito, a camisa tambem: e,sobre a carne

nua e alva, devassavam-se-lhe pellos fortes e

escuros.

Carlos imobilizara-se, aterrado, chorando baixo, Bruno de Alfenas, lento, respeitoso,

approximou-se. Retirou

no doinino negro,

uma pasta de algodao do lado esquerdo: estava ligeiramente ensanguentada; curvou-se,

limpou o lugar ferido e descobriu no mamillo o ponto avermelhado e molle da penetracao

da bala. Recollocara o algodao e agora espalmava a mao sobre o peito.

-Esta morno...

E num subito horror contente, gritou:

—O coracao nao foi tocado! Bate! Ainda esta vivo, vejam!

Dois soldados approximaram-sc espiando.

Carlos perguntou ao outro se nao era uma il

lusao. A grande figura de Bruno de Alfenas

perscrutava, affirmava de novo, perscrutava

ainda.

-Vamos ver se o salvamos! disse Carlos.

Pediram aos guardas que tivessem cuidado com o ferido. Iriam la em cima, falar ao

delegado. A autoridade, surpresa, rao oppoz

duvida ao desejo que eles manifestaram de

transportal-o para uma' Casa de Saude. Deu

ordens rapidas.

Um quarto de hora depois, uma grande

ambulancia deixava o necroterio. O sangue

comecara a verter de novo. Dois enfermeiros

mantinham na maca o corpo sempre morno.

E um outro automovel, galhardo, possante, com lacos de serpentinas nas rodas, confetis nos bancos, restos gritantes da festa que celebrara, seguiu atraz, levando as duas phantasias.

Passaram a cidade, subiram a Avenida

Luiz Antonio. A sereiada ambulancia chorava como se fosse a propria mae de Jorge. E

ao fundo do assento fofo, Carlos Byrorr penque abafaria de flores o tunulo do

sava

amigo.

Baicao

Na alvorada hospitalar, os dois cirurgioes mascararam-se de gaze, ficando apenas

com os olhos descobertos. E moveram-se nos

grandes camisoes. Ele fora desnudado como

para uma lidcao de anatomia. Havia em torno

irmas de branco e enfermeiros prestimosos.

As vozes dos medicos sahiam soturnas

atravez das mascaras. Dobravam-se

sobre

ele, suggeriam, discutiam.

E o zumzum das vozes continuou, lento

as vezes, as vezes rapido, com silencios profundos. Os ferros brilhantes, que eles recolocavam sobre a mesa esterilizada de vidro,

continham manchas de sangue.

Tinham descoberto a bala. Costuravam

agora.

A irman que sustinha a pobre cabeca

branca de cabellos ondeados, chorava.

Os medicos foram lavar-se. Depois voltaram a vel-6 em silencio, um silencio que nao

dizia nada.

Encostado ao patamar da escada interna,

o velho falava na manha de hospital.

Era um brasileiro de imensa estatura,

enrugado nos recortes do rosto, grisalho nos

cabellos em franja desegual e nos bigodes em

ponta; herculeo e quixotesco.

Chupava um cigarro de palha, numa rouBaina

pa surrada e antiga.

E Carlos Byron notava os seus olhos agudos, alerta, as suas posicoes instingtivas de

guarda.

creancas, o priino

-Uma vez eramos

Joao de Deus e eu, dormiamos no

mesmo

quarto, na fazenda e um escravo quiz nos

matar. Nos dois

avancamos para o negro.

Ele era valente, nos deu trinta e duas facadas. Pegou uma numa mulata que quiz agarrar o primo pelas costas. Seguramos o bicho.

Eu ne cortei aqui na mao..

Irmans passavam, levando remedios, chicaras, seringas de injcdcao; enfermeiras corriam, medicos entravam e sahiam dos quartos.

Carlos Byron desde a' vespera, quando

viera saber o resultado da extracao da bala,

notara aquele typo so, andando pausado e

eregto pelos corredores. Tinha-o visto sahir

de um quarto de dois leitos, onde um rostinho de doente o interessara. E agora disposto a esperar a vinda do medico, pudera-se a

conversar com ele.

A doente

quarto

que sorria

um sorriso de vinte apnos da sua cama alva e larga, tinha a acompanhalta uma senhora baixa, de roupas de inverno europeu. E

o velho rodava, entrando, sahindo. Era quas

uma sobrinha sua, a filha unica do primo

Joao de Deus, que morrera do peito.

-Que foi isso na mao? perguntou o rapaz desencostando-se.

—Foi ar. Des'que apanhei isso, nao pgude

mais dar dos meus tapas de mao fechada.

E num esforco longo tentou mover os dedos parados.

-Mesmo assim ainda brigo e nao tenho

medo de assombracao. E' so agua benta e

boa faca; e vou onde quizerem..

Carlos Byron via passar nos seus olhos

firmes, na sua

tranquillidade provada em

meio seculo de dias ineditos e bruscos, a tragedia vidtoriosa de seu povo.

Os peoes bronzeados continuavam la longe, sob o ceu em folha, a avancada perigosa

das bandeiras, agatanhando e subindo os limites fugidios da terra descoberta, que se ia

entregando farta, compensadora, fiel a vinda propnetica das caravellas.

Raca, mais que raca, expedicac secular

martyrologio, calendario, santos, cicom

dades e cathedraes no solo vencido: moncao

transcontinental sem roteiro, transladacao

imperceptivel e lenta de sonhadores de todos os climas, de malditos e heroes, de transfugas c rehabilitados, de missionarios e criminosos -- caminhada lyrica de quairocentos

anos.

Aos primeiros movimentos que nos portos da Peninsula retesara pannos e cordagens, trazendo, pelo mar, argonautas, degredados e padres, havia sudcedido outro, mais

possante e mais largo no surto das frotas

comerciaes do ultimo seculo.

Nova gente havia deixado as costas aridas da Albania, os portos bulicosos da Italia,

as ruelas imundas de Salonica e de Marselha, as manhas escaldantes da Sicilia ou as

enregeladas tardes nogturnas da Suecia... E

tinha vindo no·mesmo espirito de cruzada

egoistica, sem gritos expansivos de guerra ou

bandeiras erguidas, apenas ao batuque invisivel e teimoso da propria vontade de vigtoria.

Ao fundo, no largo corredor de Casa de

Saude, assomou a figura magra e ligeira do

Dr. Braulio Costa. A senhora de roupas europeas que deixara com o velho a filha risonha

dirigiu-se ate ele. E perguntou-lhe:

-Doutor, é o senhor que trata do doente

do quarto 11?

Sou, minha senhora.

-Ele morre?

Nao se pode dizer nada ainda.

Ela despediu-se, forcando um agradecimento, entre lagrimas subitas, irreprimiveis,

pequeninas.

Carlos Byron sahira depois de conversar

com o medico, na volta do quarto. Nao quigera ver o operado: impressionava-se demais.

Jorge continuava com a respiracao comatosa, ascendente e descendente. O Dr. Braulio

nao garantia nada...

No portao do jardim exterior do Instituto, o moqo cruzou com um automovel de praca, onde vinha um senhor gordo, de grandes

olhos e barba grisalha. Saiu para a Avenida.

Doia-lhe perder o amigo: doia-lhe na alma

que o artista maravilhoso, indiscutivel que era

Jorge d'Alvellos, fosse sacrificado assim a

uma horrorosa tragedia, ignorado pela cidade

para cuja gloria se tinha feito nos anos laboriosos da Europa.

O senhor gordo, de olhos grandes e barba

grisalha pagou lentamenta o taxi, empurrou

receio a porta de vidro fosco e ficou

com

olhando, descoberto e timido, para o interior

do hospital.

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