A Estrella de Absyntho - Bloco 22
Campainhas retiniam no quadro de chasuspenso a parede;
creadas lepidas
mada,s
chegavam, liam o numero affixado, faziamno recolher com um soeco e voavam pelos corredores. O homem ohservava sem dizer nada,
esperando que o interpelassem. Uma freira
esguia passou, trazia uma toalha na mao. O
respeitosamente.
visitaniecumprimentou-a
Ela
nao o viu e desappareceu por outra
porta.
Vozes resoavam pelos corredores, eram
medicos altos e rapados, em longos aventaes.
Vinham conversando.
O homem hesitou, quig seguil-os. deu passos a-toa. Um moco vinha sahindo de um quarto entreaberto e fixava-o. Ele cumprimentou-o e disse:
Eu desejava ter noticias de um doente,
meu sobrinho, Jorge d'Alvellos, esculptor.
Nao conheco... Estou em visita tambem...
A freira voltava, trazendo um irrigador
metallico.
—Irma, disse o rapaz. Este senhor quer
ver um doente.
A freira levou o tio de Jorge a uma sala
que dava diredtamente para a entrada. A uma
mega aita, de pe, sobre um livro dc assentamentos, um homem de cavanhaque ralo*e
olhos attentos, escrevia. Entenderam-se.
-Jorge d'Alvellos... quando entrou?
-Nao sei... Li nos jornaes e recebi este
cartao.
A irmay desapparecera subtilmente.O
homem tirava do bolso interno do casaco um
maco de papeis dobrados. Collocou-os respeitosamente sobre a mesa e comecou a procurar.
Nao sei se encontro. Trouxe tanta encommenda, tanto negocio!
Encontrara entre folhas soltas um envelope armoriado, com restos de lacre, abriu-o
e eniregou ao outro um cartao em que Carlos
Byron lhe dava delicadamente o endereco da
Casa de Saude para onde transportara o amigo.
——Jorge d'Alvellos...
dizia o homenzinho, enfiando um lapis na barba a se lembrar. Ah sei, o do tiro!
-Sim, fez o parente subitamente incommodado, movendo-se sobre as pernas grossas
e procurando logo sahir pelo corredor. Um
caso extranho na nossa familia, so houve no
passado, um caso identico.
Iam andando. O empregado escutava-o
com a mesma affabilidade indifferente do comeco.
-So um. Foi num naufragio. Era tio-avo
delle. Chamava-se Jorge tambem, o mesmo
nome. Mas esse era comandante de navio.
Naufragou. Salvou a populacao e nao quiz
sobreviver. Mas foi num naufragio.
O einpregado desembaracava-se, ia saber
Omedico se podia conduzil-o. O tio do
esculptor esperou. Nos seus gestos precavidos,
nos seus modos lentos e'cautelosos, notavase uma longa ausencia de cidade grande. Des-
habituado ao ladrilho, as salas enceradas, ele olhava tudo contemplativamente
O outro voltava, ligeiro, com o lapis na
mao.
O medico esta vendo uma doente. O senhor faz o favor de esperar.
Meu sobrinho esta muito mal?
-O ferimento é grave... mas..
O empregado aboletou-se, tomou apontamentos a lapis. E um silencio de minutos engrandeceu o tic-tac lento do relogio negro da
parede.
-Quasldez horas... Diga-me uma coisa,
o senhor conhece bem Sao Paulo. Eu nao venho ca ha mais de oito aynos, esta tudo mudado, onde é a Casa Ahema?
--Na rua Direita.
O bonde que se toma é o' da Avenida
mesmo?
-E'. Faz linha circular.
Vendo o homem olha-lo, com a mao
perdida na barbicha do queixo, Anthero d'Alvellos expandiu-se:
--Trouxe uma porcao de encommendas.
Imagine que nao quis dizer nada a minha muEscondi na burra os
lher nem a ninguem.
jornaes que' traziam a noticia da desgraca. E
preteatei
viagem de negocios. Quen
uma
sabe se posso leval-p para la?
-Oh! Ele nao pode sahir. Foi operado ha
quatro dias, nao?
-Tiraram a bala?
Sim. O Dr. Braulio é uma celebridade.
-Como esta tudo em progresso. Sao Paulo que eu conheci era bem outro. Hoje so se
encontram bicycletas mecanicas, etrangeiros e adaimes.
Ouviram-se passadas ligeiras no corredor.
A figura esperta do medico
appareceu no
avental branco. O empregado
apresentouos. Falaram de Jorge.
-E' seu sobrinho? Vamos ver se o salvamos. Pode vir ao quarto comigo.
E no corredor claro, o medico caminhou
ao lado do homem gordo que ia fixando mais
os grandes olhos por tudo. Felb passar.
A abertura da porta jogara um pouco de
luz para dentro. Depois,
restabeleceu-se a
sombra.
Anthero d'Alvellos, nervoso, interessado,
queria inutilmente distinguir alguma coisa
no leito.
E viu afinal, entre alvuras de lencoes,
uma face pallida, pallida e asthenica e duas
maos lividas, inertes.
Conhecera Jorginho pequeno, de cabel
los cacheados. O doutor esperava. Como eile
se demorasse muito, tocou-lhe o braco, fezlhe comprehender que era preciso sahir.
O caldeireiro chamara num brado o seu
bando de assalto. Jorge quig atirar-se do leito.
com os olhos concavos, horriveis. E a colher
inflexivel verteu-lhe zinco ardente pelas entranhias do peito. A lava derretida ia engrossando, formando uma bola azul que lhe soldava os veios do tronco e dos bracos.
E um urro humano, egual, regular, obsecado, dentre o amontoado dos enfermeiros
agcorridos, levantou-se pelo hospilal, po& latidos na acustica dos corredores, fez os visitantes taparem os ouvidos, os enfermos pedirem que fechassem as portas...
Uma crqada rolica, de touca, passava correndo. O velho alto e herculeo chamou-a. El
la tinha lagrimas nos olhos.
-Que é isso?
-E' o doente do 11 que esta morrendo.
Jorge d'Alvellos nao estava morrendo:
estava subindo do fundo limoso e febrento
de um precipicio. onde o haviam jogado ce-
go, perfurado de fogo liquido no coracao, as
cabecadas, tonto, perdido, lamentavel.
As veias internas do peito engorgitavamse da lava humida e viva. E o hospital inteiro hurrava.
Passaram-se sete dias e sete noites.
Enrolado em pensos, o operado tinha os
olhos vagos, a face imovel e branca e os labios mecanicos falando.
-Agua, formador!
E a obsessao partia-se numa clareira de
ouro, que vinha, que vinha, que andava. A
sua pobre cabeca queria aprehender aquillo
e trabalhava, trabalhava. Ficava com os bracos treimulos do esforco. Tinha comprelendido: era uma musica - que musica linda!
A musica cascateava. E dos penhascos da
serra de Santos, rolava numa corda imensa
e branca, a agua a agcender-lhe fogos azues
na garganta.
-Olha a agua batendo na pedra, forinaDesfalecia numa velha modorra. E a musica adcordava-o de novo. Na face imovel e
alva, os labios dissociados contavam: eram
cem violinos e os cinco mil sinos de Roma.
Os sinos paravam e rolavam e dos violinos, no ouro de um oecaso de Africa, subiam
formas longas, monstros espirituaes, estatuas
lividas..
-Que bello! Que bello!
De novo, batia nas pedras da serra de
Santos, a fita torturante de agua fresca.
Pelas aberturas douradas dos olhos, entravam-lhe em nuvens de persuasao e de silencio,
ondas de ouro, onde pinoteavam lentamente
animacs extranhos como montanhas aridas.
Ficava a ver.
Nunia sala imensa, ao fundo, concertatavam num piano, impeecaveis, dois velhos
amigos seus.
Que bonito!
Era um arabesco so, um arabesco envolvente, que crescia em espamos. E a agua passava nas escalas, rolava em cascatas pelo
piano, inundava tudo num jorro de crystal liquido e sonoro.
Tinha a garganta ferida, segca, torrada;
e abria os olhos para defender-se.
Cafia de novo com ouro nas frestas das
orbitas candadas.