A Estrella de Absyntho - Bloco 22 A Trilogia do Exílio · Capítulo 49 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 22

Campainhas retiniam no quadro de chasuspenso a parede;

creadas lepidas

mada,s

chegavam, liam o numero affixado, faziamno recolher com um soeco e voavam pelos corredores. O homem ohservava sem dizer nada,

esperando que o interpelassem. Uma freira

esguia passou, trazia uma toalha na mao. O

respeitosamente.

visitaniecumprimentou-a

Ela

nao o viu e desappareceu por outra

porta.

Vozes resoavam pelos corredores, eram

medicos altos e rapados, em longos aventaes.

Vinham conversando.

O homem hesitou, quig seguil-os. deu passos a-toa. Um moco vinha sahindo de um quarto entreaberto e fixava-o. Ele cumprimentou-o e disse:

Eu desejava ter noticias de um doente,

meu sobrinho, Jorge d'Alvellos, esculptor.

Nao conheco... Estou em visita tambem...

A freira voltava, trazendo um irrigador

metallico.

—Irma, disse o rapaz. Este senhor quer

ver um doente.

A freira levou o tio de Jorge a uma sala

que dava diredtamente para a entrada. A uma

mega aita, de pe, sobre um livro dc assentamentos, um homem de cavanhaque ralo*e

olhos attentos, escrevia. Entenderam-se.

-Jorge d'Alvellos... quando entrou?

-Nao sei... Li nos jornaes e recebi este

cartao.

A irmay desapparecera subtilmente.O

homem tirava do bolso interno do casaco um

maco de papeis dobrados. Collocou-os respeitosamente sobre a mesa e comecou a procurar.

Nao sei se encontro. Trouxe tanta encommenda, tanto negocio!

Encontrara entre folhas soltas um envelope armoriado, com restos de lacre, abriu-o

e eniregou ao outro um cartao em que Carlos

Byron lhe dava delicadamente o endereco da

Casa de Saude para onde transportara o amigo.

——Jorge d'Alvellos...

dizia o homenzinho, enfiando um lapis na barba a se lembrar. Ah sei, o do tiro!

-Sim, fez o parente subitamente incommodado, movendo-se sobre as pernas grossas

e procurando logo sahir pelo corredor. Um

caso extranho na nossa familia, so houve no

passado, um caso identico.

Iam andando. O empregado escutava-o

com a mesma affabilidade indifferente do comeco.

-So um. Foi num naufragio. Era tio-avo

delle. Chamava-se Jorge tambem, o mesmo

nome. Mas esse era comandante de navio.

Naufragou. Salvou a populacao e nao quiz

sobreviver. Mas foi num naufragio.

O einpregado desembaracava-se, ia saber

Omedico se podia conduzil-o. O tio do

esculptor esperou. Nos seus gestos precavidos,

nos seus modos lentos e'cautelosos, notavase uma longa ausencia de cidade grande. Des-

habituado ao ladrilho, as salas enceradas, ele olhava tudo contemplativamente

O outro voltava, ligeiro, com o lapis na

mao.

O medico esta vendo uma doente. O senhor faz o favor de esperar.

Meu sobrinho esta muito mal?

-O ferimento é grave... mas..

O empregado aboletou-se, tomou apontamentos a lapis. E um silencio de minutos engrandeceu o tic-tac lento do relogio negro da

parede.

-Quasldez horas... Diga-me uma coisa,

o senhor conhece bem Sao Paulo. Eu nao venho ca ha mais de oito aynos, esta tudo mudado, onde é a Casa Ahema?

--Na rua Direita.

O bonde que se toma é o' da Avenida

mesmo?

-E'. Faz linha circular.

Vendo o homem olha-lo, com a mao

perdida na barbicha do queixo, Anthero d'Alvellos expandiu-se:

--Trouxe uma porcao de encommendas.

Imagine que nao quis dizer nada a minha muEscondi na burra os

lher nem a ninguem.

jornaes que' traziam a noticia da desgraca. E

preteatei

viagem de negocios. Quen

uma

sabe se posso leval-p para la?

-Oh! Ele nao pode sahir. Foi operado ha

quatro dias, nao?

-Tiraram a bala?

Sim. O Dr. Braulio é uma celebridade.

-Como esta tudo em progresso. Sao Paulo que eu conheci era bem outro. Hoje so se

encontram bicycletas mecanicas, etrangeiros e adaimes.

Ouviram-se passadas ligeiras no corredor.

A figura esperta do medico

appareceu no

avental branco. O empregado

apresentouos. Falaram de Jorge.

-E' seu sobrinho? Vamos ver se o salvamos. Pode vir ao quarto comigo.

E no corredor claro, o medico caminhou

ao lado do homem gordo que ia fixando mais

os grandes olhos por tudo. Felb passar.

A abertura da porta jogara um pouco de

luz para dentro. Depois,

restabeleceu-se a

sombra.

Anthero d'Alvellos, nervoso, interessado,

queria inutilmente distinguir alguma coisa

no leito.

E viu afinal, entre alvuras de lencoes,

uma face pallida, pallida e asthenica e duas

maos lividas, inertes.

Conhecera Jorginho pequeno, de cabel

los cacheados. O doutor esperava. Como eile

se demorasse muito, tocou-lhe o braco, fezlhe comprehender que era preciso sahir.

O caldeireiro chamara num brado o seu

bando de assalto. Jorge quig atirar-se do leito.

com os olhos concavos, horriveis. E a colher

inflexivel verteu-lhe zinco ardente pelas entranhias do peito. A lava derretida ia engrossando, formando uma bola azul que lhe soldava os veios do tronco e dos bracos.

E um urro humano, egual, regular, obsecado, dentre o amontoado dos enfermeiros

agcorridos, levantou-se pelo hospilal, po& latidos na acustica dos corredores, fez os visitantes taparem os ouvidos, os enfermos pedirem que fechassem as portas...

Uma crqada rolica, de touca, passava correndo. O velho alto e herculeo chamou-a. El

la tinha lagrimas nos olhos.

-Que é isso?

-E' o doente do 11 que esta morrendo.

Jorge d'Alvellos nao estava morrendo:

estava subindo do fundo limoso e febrento

de um precipicio. onde o haviam jogado ce-

go, perfurado de fogo liquido no coracao, as

cabecadas, tonto, perdido, lamentavel.

As veias internas do peito engorgitavamse da lava humida e viva. E o hospital inteiro hurrava.

Passaram-se sete dias e sete noites.

Enrolado em pensos, o operado tinha os

olhos vagos, a face imovel e branca e os labios mecanicos falando.

-Agua, formador!

E a obsessao partia-se numa clareira de

ouro, que vinha, que vinha, que andava. A

sua pobre cabeca queria aprehender aquillo

e trabalhava, trabalhava. Ficava com os bracos treimulos do esforco. Tinha comprelendido: era uma musica - que musica linda!

A musica cascateava. E dos penhascos da

serra de Santos, rolava numa corda imensa

e branca, a agua a agcender-lhe fogos azues

na garganta.

-Olha a agua batendo na pedra, forinaDesfalecia numa velha modorra. E a musica adcordava-o de novo. Na face imovel e

alva, os labios dissociados contavam: eram

cem violinos e os cinco mil sinos de Roma.

Os sinos paravam e rolavam e dos violinos, no ouro de um oecaso de Africa, subiam

formas longas, monstros espirituaes, estatuas

lividas..

-Que bello! Que bello!

De novo, batia nas pedras da serra de

Santos, a fita torturante de agua fresca.

Pelas aberturas douradas dos olhos, entravam-lhe em nuvens de persuasao e de silencio,

ondas de ouro, onde pinoteavam lentamente

animacs extranhos como montanhas aridas.

Ficava a ver.

Nunia sala imensa, ao fundo, concertatavam num piano, impeecaveis, dois velhos

amigos seus.

Que bonito!

Era um arabesco so, um arabesco envolvente, que crescia em espamos. E a agua passava nas escalas, rolava em cascatas pelo

piano, inundava tudo num jorro de crystal liquido e sonoro.

Tinha a garganta ferida, segca, torrada;

e abria os olhos para defender-se.

Cafia de novo com ouro nas frestas das

orbitas candadas.

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