A Estrella de Absyntho - Bloco 24
Amava o seu amor, amava o seu amor
Num envolvente perdao, bemdizia a existen
cia toda dellé, dia a dia, os seus soffrimentos
as suas loucuras, as suas orgulhosas revoltas
E doia-lhy deliciadamente o coracao physico.
Ia encontralo, e partir com ele num grande
carro, por estradas e caminhos, com a felicidade por guia. Era uma exasperacao, morbida, que lhe alargava as grandes pupilyas serias e fazia-a arranhar muito tempo, com as
unhas bem tratadas, os lencoes do leito.
Mas o abalo physico de Jorge d'Alvellos
parecia ter sido mortal.
O resuscitado permanecia de tronco colossal e duro na grande cadeira, junto a janella, agora aberta para o ceu e para as arvores de um parque. Vivia numa indifferenca
humilhada de animal que escorcharam. Vinhan fazer-lhe o penso demorado e doloroso,
uma vez ao dia. E como fosse exigido o maximo repouso, deixavam que dormisse alli
mesmio.
Ceria manha, trouxeram-lhe uma visita,
o velho capellao da Santa Casa, que Carlos
Byron tivera o expediente de ir buscar.
E o enfermo ao vel-o entrar, pensou em
beijar-lhe as maos. Tinha um sorriso inedito
no rosto. Murmurava palavras de confusa gra-
tidao; quiz mover-se da cadeira, mas nao poude firmar o corpo imprestavel. Um instante,
a boeca torturou-se, entristecendo a mascara
inieira recoberta de barba.
Mas sorria de novo, preso ao sacerdote
que abrira com os bracos erguidos as portas
do ceu para Alma. A mystica apparicao crescia aos olhos do doente.Deus mandara tambem a ele o desobstruidor de paraigos.
Na sua cadeira, com o peito enfaixado
depois do curativo, ele viu a irma de caridade arrumar roupas e objegtos. Chamou-a
com a voz humilde.
Irman... eu nao morro mais?
Nao. Deus o salvou.
Que livro é esse?
O livro das enfermeiras..
Empresta-ime?
A irman veig sorrindo trazel-o. Era um
volume de oracoes e conselhos praeticos.
Ficou lendo, a freira sahira. Cahiu-lhe ao
collo, de dentro das paginas, uma imagem.
Tomou-a nas, maos: era Maria de Magdala,
em lithographia, com frizos de ouro. Havia
qualquer coisa escripto no verso. Jorge voltou
O santinho e leu, numa letra calligraphica:
"Sob o peso da desgraca, a alma que nao chama por Deus é muda."
Entao, nao era so ele a soffrer? Pelo
mundo, anonymas, caladas, existiam outras
almas sob o peso de outras tragedias. Almas
emmudecidas como a sua e outras almas que
haviam gritado o nome do Senhor e recebido
delle a ordem de formar na cavallaria dos devotamenios quielos, das consolacoes sem recompensa..
Numa confusa fixacao esculptural, Jorge
viu a procissao final do mundo desenhar-se
num Josaphat de cem leguas: de um lado, os
idolatras, os taciturnos, os blaspfiemos; do outro, num desabafo de victoria, todos os crucificados da terra.
La fora, no parque de folhagem entre muros, a nevoa de Sao Paulo vestia as arvores de
branco, na manha de fins de Marco.
Raparam-lhe a barba. Iam leval-o para
ver Mary Beatriz que o esperava, cada vez
mais alugiosa nos grandes olhos, abertos e f:
xos para a porta. Ele foi pelos corredores,
rastando-se e sorrindo, num cortejo comi
vido de amigos.
Haviam atufado de flores o quarto brar
co da enferma.
Ao deixarem-lhe perceber que Mary Beatriz estava alli, ao seu lado, no mesmo hospital, Jorge d'Alvellos tivera uma surpresa nervosa e feliz.I
Depois, vieram as demoradas
conversas com a mae da artista doente. A boa
senhora reconduziu-o facilmente ao passado
onde a sua mocidade lyrica cantava. As recordacces avivadas, os detalhes lembrados, as
noticias de amigos e de episodios, exposicoes
de arte, a volta triumphal das tropas negras
que se haviam batido em Vittorio Veneto tudo o levara de novo, numa persuasao inquieta e excellente, ao fio partido de existencia. Alem disso, a mae tinha qualquer coisa
da filha, nos olhos, no gesto -— qualquer coisa.
Aquela noite, ele percebeu, numa confissao embaracante, que amava. Pediu perdao
a morta. Tinha o corpo enroladc em pensos,
as pernas desobedientes, a cabeca fragil.
E Mary voltava por entre os travesseiros
alvos do encosto; sorria, esperava. . .
Peia manha, foram achar Jorge d'Alvellos fora da cadeira de rodas. Levantara-se sozinho afinal.
Porque nao fiquei?
Tens saudade?
Il rimpianto..
Chorar ainda?
Sobre o passado perdido.
Houve um silencio de hospital. La fora,
ia gente conversando. E ele falou:
-- Pobre passado! Lembras-te? Fazia um
ayno e um dia que nos haviamos conhecido.
Tiveramos um arrufo na vespera...
Sim... E tu partiras para voltar melhor.
E voltei, na manha inacreditavel, batida de sinos, na manha de luar. Dormias no
divan da sala. Agcordei-te num grande susto
de crqanca. Como suspiravas profundo!
transfusao de
Coniemplaram-se numa
existencias, pelos olhos molhados. E ela cer-
numa subita fadiga, recostada
rou os cil
aos grandes travesseiros.
Ficaram perdidos, mao na mac. Longinqua, nos campanarios novos das torres de Sao
Bento, uma festa de sinos comecou. Ele pra
seguiu:
Tinhas nervos a flor da pelle de seda.
A's vezes, chegavas a Via Flamminia, com os
primeiros raios esquivos do sol. Lembras-te...
Foi um outomno sobrenatural. O Tibre transbordava
a aguas negras das uiltimas chuvas.
Como corria repcusada a vida no nosso jardim de inverno! As manhas do meu pijama
de flores amarellas, com a tua entrada ligeira... E as tosses convulsivas do porleiro..
lembras-te! E o poeta que te amava e empoava os cahellos...E o compositor... o nosso
mundo..
Tartarella.:
Ele assistiu ao nosso
embarque em Piazza Termini.
Mary Beatriz cerrara os olhos. A febre subia. Jorge levantou-se difficultosamente das
almofadas que juntara ao chao. Ia fechar a
janella. Mas ea exclamou:
Nao! Este azul lembra-me as manhas
daguelle tempo.
A tarde baixava em ouro la fora.
As ave-marias dos monges, na abbadia
de pedra da cidade americana, resoavam espacadamente.
Ouves?
Parecem os sinos de Roma!
Haviam-nos deixado sos o dia todo. A
doente diir-se-ia dormir. Tinha as faces incendiadas. Jorge esperou, devorando-a com os
olhos pensativos. Depois, tomou-llc cautelosamente o pulso, contou as pancadas rapidas
da arteria.
Ela parecia reanimar-se lentamente.