A Escada - Bloco 05
Carlos Bairao obtivera para ele um contrato·de ciralhas e decoracoes. Terminou
tudo depressa.
Na manha desocupada penetrou numa
igreja. Era a mesma, onde na soleira a velha
mendiga vomitava dias atras.
Jorge nada mais tinha que fazer de urgente. Sentia os bracos inertes, o coracao
angustiado. Nao se achava mais capaz de empolgamentos nem de decisoes.
Na nave imensa, ajoelhavam-se devotas.
Um sacerdote paramentado, seguido de um
coroinha, dava-lhes a eucaristia numa pressa massada. Fechou o santuario, foi-se.
Ante um inexpressivo altar, um outro
padre rezava em altas vozes inexpressivas.
OSWALD DE ANDRADE
Nao era sincera aquela prece. Aquele homem nao era sincero.
Jorge sentia numa desolacao, todo o quadro de gracas feito para os pequenos consumidores.
La fora, na aridez das ruas, dos quartos
humanos, das pracas tristes, os homens buscavam a-toa os direitos caminhos de Deus.
Deus era como esses bichos de sotaina, covarde e libidinoso, vesgo de julgamento, sedento
de vinganca. Os seus acolitos, que acolitavam
as classes ricas, cinicos, de olhos torvos, festejavam a vida em satiriases ocultas, desmoralizavam inocencias numa repetida e cautelosa
hipocrisia.
Apenas uma conciencia formal e duvido
sa enrijava os tempos modernos da Igreja.
Jorge D'Alvelos acendeu o atelier. Deitou-se ao diva acariciando a pequenina es-
A ESCADA VERMELHA
finge de doze mamas que o vira suicidar-se.
Era a vida inapreensivel e fugidia. Era o insaciado misterio.
Ele sugara-lhe os peitos turgidos e imurchaveis, bebera-lhe o leite amargo e o leite maravilhoso e nao conseguira tomar-lhe ainda
o definitivo sentido.
Os seus olhos recurvos e concavos continham os olhos de Alma sacrificada e os
olhos salvadores de Mary Beatriz e os olhos
do incubo que lhe falara por noites isoladas
e os olhos do mago que vira de pe, Cristo na
fumarada do rendez-yous americano.
Em cada rosto calvo de homem, em cada figura flamejante de mulher, Jorge perscrutava sempre a solucao.
Embarafustara numa ansia de naufragado que se salva pela afirmativa das possantes
tcogonias, com catedrais, sinos e composicoes
de conciencia no escuro espegtral dos confessionarios. E,num palido assombro, vira, sobre
a cabeca dos incensadores macerados, na
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pompa calculada do cuito, pela porta dos sacrarios aparecer a cabeca librica do deus Capital.
O artista queria acreditar. Acolhera-se ao
signo moral e poetico de Kant e de Ibsen. Mas
identificava-o de repente nas colheitas do tostao miseravel das massas em que os exercitos
de salvacao propagavam, com bombos e canticos, a opressao voraz dos imperialismos.
Chafurdava entao no pior romantismo,
o que permanece contente e fideista nos corredores infernais do mundo. E cria ainda
nas Madalenas preparadas dos bordeis como
tambem na positivacao terrificante de todas
as preces, de todos os gestos para o alto, de
todos os apocalipses sonhados ou escritos.
Percebeu, de repente, que estava no Lavapes, ruidoso e animado naquela noite de
sabado.
A EsCADA VERMELHA
pezios cerebrais.