A Escada - Bloco 05 A Trilogia do Exílio · Capítulo 60 de 87
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A Escada - Bloco 05

Carlos Bairao obtivera para ele um contrato·de ciralhas e decoracoes. Terminou

tudo depressa.

Na manha desocupada penetrou numa

igreja. Era a mesma, onde na soleira a velha

mendiga vomitava dias atras.

Jorge nada mais tinha que fazer de urgente. Sentia os bracos inertes, o coracao

angustiado. Nao se achava mais capaz de empolgamentos nem de decisoes.

Na nave imensa, ajoelhavam-se devotas.

Um sacerdote paramentado, seguido de um

coroinha, dava-lhes a eucaristia numa pressa massada. Fechou o santuario, foi-se.

Ante um inexpressivo altar, um outro

padre rezava em altas vozes inexpressivas.

OSWALD DE ANDRADE

Nao era sincera aquela prece. Aquele homem nao era sincero.

Jorge sentia numa desolacao, todo o quadro de gracas feito para os pequenos consumidores.

La fora, na aridez das ruas, dos quartos

humanos, das pracas tristes, os homens buscavam a-toa os direitos caminhos de Deus.

Deus era como esses bichos de sotaina, covarde e libidinoso, vesgo de julgamento, sedento

de vinganca. Os seus acolitos, que acolitavam

as classes ricas, cinicos, de olhos torvos, festejavam a vida em satiriases ocultas, desmoralizavam inocencias numa repetida e cautelosa

hipocrisia.

Apenas uma conciencia formal e duvido

sa enrijava os tempos modernos da Igreja.

Jorge D'Alvelos acendeu o atelier. Deitou-se ao diva acariciando a pequenina es-

A ESCADA VERMELHA

finge de doze mamas que o vira suicidar-se.

Era a vida inapreensivel e fugidia. Era o insaciado misterio.

Ele sugara-lhe os peitos turgidos e imurchaveis, bebera-lhe o leite amargo e o leite maravilhoso e nao conseguira tomar-lhe ainda

o definitivo sentido.

Os seus olhos recurvos e concavos continham os olhos de Alma sacrificada e os

olhos salvadores de Mary Beatriz e os olhos

do incubo que lhe falara por noites isoladas

e os olhos do mago que vira de pe, Cristo na

fumarada do rendez-yous americano.

Em cada rosto calvo de homem, em cada figura flamejante de mulher, Jorge perscrutava sempre a solucao.

Embarafustara numa ansia de naufragado que se salva pela afirmativa das possantes

tcogonias, com catedrais, sinos e composicoes

de conciencia no escuro espegtral dos confessionarios. E,num palido assombro, vira, sobre

a cabeca dos incensadores macerados, na

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pompa calculada do cuito, pela porta dos sacrarios aparecer a cabeca librica do deus Capital.

O artista queria acreditar. Acolhera-se ao

signo moral e poetico de Kant e de Ibsen. Mas

identificava-o de repente nas colheitas do tostao miseravel das massas em que os exercitos

de salvacao propagavam, com bombos e canticos, a opressao voraz dos imperialismos.

Chafurdava entao no pior romantismo,

o que permanece contente e fideista nos corredores infernais do mundo. E cria ainda

nas Madalenas preparadas dos bordeis como

tambem na positivacao terrificante de todas

as preces, de todos os gestos para o alto, de

todos os apocalipses sonhados ou escritos.

Percebeu, de repente, que estava no Lavapes, ruidoso e animado naquela noite de

sabado.

A EsCADA VERMELHA

pezios cerebrais.

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