A Escada - Bloco 14 A Trilogia do Exílio · Capítulo 69 de 87
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A Escada - Bloco 14

E viu a familia de preto, reunida no ancoradouro. A

"Marina' aproximava-se num arfar de motor.

Junto ao mastro vinham tres pessoas de

pe. Jorge distinguiu numa emocao a figura

elegante de Claro.

OSWALD DE ANDRADE

Os dois homens que vinham com ele acenaram. Eram Carlos Bairao e um desconhecido. A lancha fez uma curva para atracar.

O exilado tirou da cinta o revolver e salvcu

com seis tiros a imprevista chegada.

Foi um aperto confuso de maos. Apre

sentaram-lhe Marcos Gurgel.

Como que instintivamente, o artista se

afastou com ele para a ponta rochosa sobre

o mar. Os outros dois deixaram-nos.

A noite subia sem rebucos, sem misterios. Uma paz vermellha recortava os montes. Jorge entao perguntou ao homem cavalheiresco se conhecia Nora. O outro comoveu-se num rapido enleio. Passaram a porta

franca das confissoes. Marcos Gurgel amava

outra mulher, mas roido de tragedia buscara

em Nora o conforto talvez dum identico mar

tirio.

A noite recortava sobre a rocha a figura

concentrada e nervosa do visitante. As suas

palavras tinham sido simples, emocionais.

Jorge olhou as ondas e o horizonte noturno,

A ESCADA VERMELHA

onde duas luzes distantes tremiam. O homem

falava ainda, falava sempre. Era o protetor

devotado de Nora.

Um grande repouso iniciara-se no coracao de Jorge, onde o amor latejava. No coracao da terra um grande repouso iniciarase tambem.

A lua alcou-se, minusculo aro sobre a

costa fronteira. E uma procissao de luzes vinha pelo mar. Era um navio. Dois cirios

iguais e tremulos caminhavam lentamente,

solenemente. Jorge escutava, vendo. O homem disse a historia do seu amor inquieto,

falou ainda de Nora, da apaixonada confissao que ela lhe fizera do absurdo idilio com

Jorge, o homem que nao amava.

Os cirios cresciam no mar, parecia segui-los um fremito longo e mudo de estandartes retezados ao vento. No centro, uma

luz verde brilhava, serena. Era a procissao

da esperanca pela noite fechada. A lua derramava no mar um tapete claro. Sobre a ca-

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beca do homem que declamava, havia mi

lhoes brancos de estrelas. E a procissao lenta, solene, passou ao vento, devagar nos mastros iguais, nas luzes iguais, nos cordames,

nas ancoras, nas bandeiras pavezadas.

Tinham recolhido ao chale negro para

jantar uma peixada trazida por Quim Joao

na lancha. Os cinco homens sentaram-se rodeando a tosca mesa quadrada, sob a luz fumarenta do lampeao.

Jorge estava em frente a Marcos Gurgel.

Claro centralizava.

Tia Amelia e as meninas vieram trazer

as sopeiras fumegantes, numa misturada

conversa, onde a malicia de Quim Joao epigramava risadas animais, de olhos meudos.

Jorge pressentia em Marcos Gurgel a

mesma tristeza sua.

Claro Dutra contava aventuras de mar

Maupassant. Comentaram-se os

como em

tintureiros ferozes da barra. Referiram-se

proezas simples, naturais da gente litoranea.

A EsCADA VERMELHA

E o jantar escoou-se numa alegria rude de

acampamento,numa concordia rodeada pelo

mar.

Na partida noturna, a lancha que levava

Claro e Marcos arfou entre saudacoes. Jorge

e Carlos que ficavam salvaram longamente.

Os dois amigos foram sentar-se no rochedo. A lua nova caia. As estrelas brilhavam

foscamente. E vendo Carlos Bairao estirado

sobre a pedra, na blusa de marujo que lhe

cingia o pescoco, Jorge sentiu o peso todo de

sua prescricao.

Nora ia ter de novo,a seu lado, Marcos

Gurgel, mais devotado que antes.

Jorge sentiu silenciosamente que agora

a amava. O seu coracao era vivo demais para

estagnar.

Carlos Bairao partiu.

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mar estrondava na rocha, solapando

as rochas seculares.

Bentevis amarelos, estufados de pena,

vinham catar as baratinhas ligeiras do porto.

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