A Escada - Bloco 14
E viu a familia de preto, reunida no ancoradouro. A
"Marina' aproximava-se num arfar de motor.
Junto ao mastro vinham tres pessoas de
pe. Jorge distinguiu numa emocao a figura
elegante de Claro.
OSWALD DE ANDRADE
Os dois homens que vinham com ele acenaram. Eram Carlos Bairao e um desconhecido. A lancha fez uma curva para atracar.
O exilado tirou da cinta o revolver e salvcu
com seis tiros a imprevista chegada.
Foi um aperto confuso de maos. Apre
sentaram-lhe Marcos Gurgel.
Como que instintivamente, o artista se
afastou com ele para a ponta rochosa sobre
o mar. Os outros dois deixaram-nos.
A noite subia sem rebucos, sem misterios. Uma paz vermellha recortava os montes. Jorge entao perguntou ao homem cavalheiresco se conhecia Nora. O outro comoveu-se num rapido enleio. Passaram a porta
franca das confissoes. Marcos Gurgel amava
outra mulher, mas roido de tragedia buscara
em Nora o conforto talvez dum identico mar
tirio.
A noite recortava sobre a rocha a figura
concentrada e nervosa do visitante. As suas
palavras tinham sido simples, emocionais.
Jorge olhou as ondas e o horizonte noturno,
A ESCADA VERMELHA
onde duas luzes distantes tremiam. O homem
falava ainda, falava sempre. Era o protetor
devotado de Nora.
Um grande repouso iniciara-se no coracao de Jorge, onde o amor latejava. No coracao da terra um grande repouso iniciarase tambem.
A lua alcou-se, minusculo aro sobre a
costa fronteira. E uma procissao de luzes vinha pelo mar. Era um navio. Dois cirios
iguais e tremulos caminhavam lentamente,
solenemente. Jorge escutava, vendo. O homem disse a historia do seu amor inquieto,
falou ainda de Nora, da apaixonada confissao que ela lhe fizera do absurdo idilio com
Jorge, o homem que nao amava.
Os cirios cresciam no mar, parecia segui-los um fremito longo e mudo de estandartes retezados ao vento. No centro, uma
luz verde brilhava, serena. Era a procissao
da esperanca pela noite fechada. A lua derramava no mar um tapete claro. Sobre a ca-
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beca do homem que declamava, havia mi
lhoes brancos de estrelas. E a procissao lenta, solene, passou ao vento, devagar nos mastros iguais, nas luzes iguais, nos cordames,
nas ancoras, nas bandeiras pavezadas.
Tinham recolhido ao chale negro para
jantar uma peixada trazida por Quim Joao
na lancha. Os cinco homens sentaram-se rodeando a tosca mesa quadrada, sob a luz fumarenta do lampeao.
Jorge estava em frente a Marcos Gurgel.
Claro centralizava.
Tia Amelia e as meninas vieram trazer
as sopeiras fumegantes, numa misturada
conversa, onde a malicia de Quim Joao epigramava risadas animais, de olhos meudos.
Jorge pressentia em Marcos Gurgel a
mesma tristeza sua.
Claro Dutra contava aventuras de mar
Maupassant. Comentaram-se os
como em
tintureiros ferozes da barra. Referiram-se
proezas simples, naturais da gente litoranea.
A EsCADA VERMELHA
E o jantar escoou-se numa alegria rude de
acampamento,numa concordia rodeada pelo
mar.
Na partida noturna, a lancha que levava
Claro e Marcos arfou entre saudacoes. Jorge
e Carlos que ficavam salvaram longamente.
Os dois amigos foram sentar-se no rochedo. A lua nova caia. As estrelas brilhavam
foscamente. E vendo Carlos Bairao estirado
sobre a pedra, na blusa de marujo que lhe
cingia o pescoco, Jorge sentiu o peso todo de
sua prescricao.
Nora ia ter de novo,a seu lado, Marcos
Gurgel, mais devotado que antes.
Jorge sentiu silenciosamente que agora
a amava. O seu coracao era vivo demais para
estagnar.
Carlos Bairao partiu.
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mar estrondava na rocha, solapando
as rochas seculares.
Bentevis amarelos, estufados de pena,
vinham catar as baratinhas ligeiras do porto.