A Escada - Bloco 07
-Foi uma familia que me deu, explicava o baixotinho, com olhos concentrados nos
botoes metalicos do guarda. O escultor indagou o que faziam aquelas horas.
Vamos dormir no albergue, disse o
alto.
—E' brasileiro?
Nao. Sou turco, meu senhor!
Jorge percebeu a Asia toda dos grandes
clhos habituados aos contagios religiosos no
tipo escultoreo e moreno, de bigodes caidos
sobre dentes brancos. Trazia um chapeu de
mulher e um bastao de viandante. Era paralitico da perna que arrastava.
—Evoce?
O pequenino largou na calcada o embrulho que sobracara de novo, tranquilo.
-Sou um inutilizado tambem.
Tirou do escuro das roupas uma maozinha retorcida e dura e exibiu-a como um pas-
A EsCADA VERMELHA
saporte vitorioso para todas as tranquilidades
da vida.
O escultor distribuiu-lhes parcas moedas
a eles e ao guarda.
E foi pensando, so de novo, na escalada
dos aleijoes as segurancas divinas.
Ele, o aparente homem integral, nao podia exibir aos guardas vigilantes da terra o
coracao aberto em chagas, a alma retorcida de
paralisias, o cerebro cansado de doencas.
Pensou em renovar os fastos da existencia. Reagiria. Se se casasse? Com quem?
Sentiu que aquela banal felicidade nao
podia nunca mais ser atingida pelo seu desejo. A sua tristeza segui-lo-ia nas calmas assembleas da vida. Um espetaculo de tribunal estacaria sempre diante dele, sentinela silenciosa de sua desgraca.
OSWALD DE ANDRADE
Nunca mais poderia ser alegre, nunca
mais.
Uma inquietacao qualquer haveria de
roe-lo por dentro.
Interrogava uma a uma as larvas das
aflicoes. Elas respondiam apenas com sua pasmada presenca.
Por que o desleixavam assim? Porque o
nao entendiam.
Andava sozinho pelas ruas, sem compensacao para as velhas energias nao gastas.
Subito parou. Estava no canto deserto
do Lavapes.
Outra vez um instinto obscuro e lumino-
A ESCADA VERMELHA
so o levava pelo braco ate la. Subiria ate la.
Subiria agora.
Nao se decidia, hesitava.
Mas romperam de chofre aos seus ouvidos pasmados, cem cornetas tocando. Era a
fanfarra do antigo quartel.
-- Oito horas.
Olhou o cenario noturno. Havia uma
grande lua brincando com esfarrapamentos
de nuvens.
- Esta noite permanecera na nossa vida. Escuta como se recortam bem essas
notas!,
A fanfarra cantava, perto, sonora, a chamada solene das recordacoes.
Jorge subiu resolutamente, de chapeu
na mao, numa conviccao muda de peregrino.
Sabia que a casa fora deixada pela mulher
que o encontrara da outra vez. Lera, numa
cronica de teatro, a sua mudanca para o Rio.
Procurou apreender a fanfarra, destaca-la dos barulhos multiplos da noite. A cor-
OSWALD DE ANDRADE
neta cessara. Os tambores quase nao se ouviam. E foi reconstruindo a via do antigo
calvario. Parecia haver mais gente na rua do
que outrora. Tinham feito casas novas numa
esquina.
A corneta vibrante recomecou. A lua
muito alta aureola-se duma
ruiva,
coma
onde as nuvens tenues brincavam. Onde estaria Alma? No ceu imovel dos catolicos? No
aro fulvo da lua? Ou ali, ainda, na casa muda como um tumulo?
Jorge parou para examinar o sobrado
velho. Tinham posto cortinas nas janelas. La
dentro, havia luz como antigamente. Uma
vida angustiosa parecia sufocar-se por detras das paredes.
E a corneta tocava, tocava, na noite de
luar.
Ele recompo os moveis, a disposicao
do leito, do reposteiro cor de sangue negro,
do tamborete antigo.
Perdera-se tudo? Nao. Nem ela se per-
A ESCADA VERMELHA
dera.