A Escada - Bloco 07 A Trilogia do Exílio · Capítulo 62 de 87
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A Escada - Bloco 07

-Foi uma familia que me deu, explicava o baixotinho, com olhos concentrados nos

botoes metalicos do guarda. O escultor indagou o que faziam aquelas horas.

Vamos dormir no albergue, disse o

alto.

—E' brasileiro?

Nao. Sou turco, meu senhor!

Jorge percebeu a Asia toda dos grandes

clhos habituados aos contagios religiosos no

tipo escultoreo e moreno, de bigodes caidos

sobre dentes brancos. Trazia um chapeu de

mulher e um bastao de viandante. Era paralitico da perna que arrastava.

—Evoce?

O pequenino largou na calcada o embrulho que sobracara de novo, tranquilo.

-Sou um inutilizado tambem.

Tirou do escuro das roupas uma maozinha retorcida e dura e exibiu-a como um pas-

A EsCADA VERMELHA

saporte vitorioso para todas as tranquilidades

da vida.

O escultor distribuiu-lhes parcas moedas

a eles e ao guarda.

E foi pensando, so de novo, na escalada

dos aleijoes as segurancas divinas.

Ele, o aparente homem integral, nao podia exibir aos guardas vigilantes da terra o

coracao aberto em chagas, a alma retorcida de

paralisias, o cerebro cansado de doencas.

Pensou em renovar os fastos da existencia. Reagiria. Se se casasse? Com quem?

Sentiu que aquela banal felicidade nao

podia nunca mais ser atingida pelo seu desejo. A sua tristeza segui-lo-ia nas calmas assembleas da vida. Um espetaculo de tribunal estacaria sempre diante dele, sentinela silenciosa de sua desgraca.

OSWALD DE ANDRADE

Nunca mais poderia ser alegre, nunca

mais.

Uma inquietacao qualquer haveria de

roe-lo por dentro.

Interrogava uma a uma as larvas das

aflicoes. Elas respondiam apenas com sua pasmada presenca.

Por que o desleixavam assim? Porque o

nao entendiam.

Andava sozinho pelas ruas, sem compensacao para as velhas energias nao gastas.

Subito parou. Estava no canto deserto

do Lavapes.

Outra vez um instinto obscuro e lumino-

A ESCADA VERMELHA

so o levava pelo braco ate la. Subiria ate la.

Subiria agora.

Nao se decidia, hesitava.

Mas romperam de chofre aos seus ouvidos pasmados, cem cornetas tocando. Era a

fanfarra do antigo quartel.

-- Oito horas.

Olhou o cenario noturno. Havia uma

grande lua brincando com esfarrapamentos

de nuvens.

- Esta noite permanecera na nossa vida. Escuta como se recortam bem essas

notas!,

A fanfarra cantava, perto, sonora, a chamada solene das recordacoes.

Jorge subiu resolutamente, de chapeu

na mao, numa conviccao muda de peregrino.

Sabia que a casa fora deixada pela mulher

que o encontrara da outra vez. Lera, numa

cronica de teatro, a sua mudanca para o Rio.

Procurou apreender a fanfarra, destaca-la dos barulhos multiplos da noite. A cor-

OSWALD DE ANDRADE

neta cessara. Os tambores quase nao se ouviam. E foi reconstruindo a via do antigo

calvario. Parecia haver mais gente na rua do

que outrora. Tinham feito casas novas numa

esquina.

A corneta vibrante recomecou. A lua

muito alta aureola-se duma

ruiva,

coma

onde as nuvens tenues brincavam. Onde estaria Alma? No ceu imovel dos catolicos? No

aro fulvo da lua? Ou ali, ainda, na casa muda como um tumulo?

Jorge parou para examinar o sobrado

velho. Tinham posto cortinas nas janelas. La

dentro, havia luz como antigamente. Uma

vida angustiosa parecia sufocar-se por detras das paredes.

E a corneta tocava, tocava, na noite de

luar.

Ele recompo os moveis, a disposicao

do leito, do reposteiro cor de sangue negro,

do tamborete antigo.

Perdera-se tudo? Nao. Nem ela se per-

A ESCADA VERMELHA

dera.

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