A Escada - Bloco 30 A Trilogia do Exílio · Capítulo 85 de 87
Obra Menu

A Escada - Bloco 30

Que fora afinal

a sua vida senao o reflexo erotico e religioso

de uma classe media de cidade industrial, nas

flutuacoes do post-guerra? O exilio anarcoide

e a psicose deista depois da carnificina mundial do ano 14. Acuado no plano estetico, éle

fora apenas um pequeno-burgues liberado e

dramatizante nas malhas apgustas do pais

feudal.

Declamara, fizera tolices tragicas. E acabaria em Deus ou num hospital se nao se tivesse superado.

Jorge D'Alvelos criticava-se. Fora precisc uma mulher para faze-lo mudar, descobrir

exatos caminhos revolucionarios. Fizera-se

nele o processo morbido de uma geracao, desviada no cenario longinquo e colonial do Brasil, bestificada pelo recalque sexual que o feu-

OSWALD DE ANDRADE

dalismo e a igreja mantinham, ignara e romantica, doentia, tarda e timida.

Estava preparado decerto, por toda a sua

vida de revoltado, a receber a semente. Mas

se a Mongol nao viesse, talvez sua existencia

nao conhecesse nunca o sentido heroico de

seu tempo. Conheceria por outros caminhos?

A sua adesao ao comnnismo nao dissimulava esse lado apaixonado que ele punha em

todos os seus devotamentos. Ele era assim,

formara-se assim. So assim se podia ter sinceraramente agregado ao socialismo anti-romantico, calculado e construtor. Romanticamente.

A realidade da luta se encarregaria de

transforma-lo.

Pretendia melhorar, procurava agora, numa descoberta emotiva e sensacional, os ambientes que desprezara na sua cretina aristocracia de artista. Lentamente se lhe revelou,face a face, o mundo dividido em duas classes

a dos exploradores que ele tantas vezes

servira e a dos explorados que aqueles se en-

A ESCADA VERMELHA

grenavam numa luta de todas as horas, mantida pela incerteza, pela miseria e pela revlota.

Afinal tudo lhe aparecia bem nitido.

A religiao e a arte eram toxicos para as

massas proletarias, para as massas pequenoburguesas. Ele mesmo se envenenara dando

a tragedia capitalista de Alma uma repercussao falsa e torturante, que o levara a tentar o

suicidio no Palacio das Industrias. Que tinha

sido Mary Beatriz senao a pequena-burguesa

tipica, literaria e viajada?

Desfazia assim, despregava das paredes

emboloradas do espirito, os velhos retratos

queridos.

OSWALD DE ANDRADE

E experimentava um descanso enorme

em compreender.

Sentia-se um homem como os outros. Pela primeira vez vira partir uma mulher que

amava, sem montar teatralmente um mito cerebral. Descia de Sant'Ana todas as tardes.

Atraves do antigo formador do Palacio das

Industrias, conseguira penetrar nos sindicatos operarios. Auscultava assim pela primeira

ululante e confusa, agitada e

vez a massa

desperta pelos golpes revolucionarios que se

sucediam no pais.

Sentia-se ainda mistico. Ia aos comicios

como antigamente ia a missa. Mas o materialismo caminhava na salvacao do seu ser humano. Suas pretenqoes eram minimas.

1/1
Menu

Fazer anotação