A Estrella de Absyntho - Bloco 04 A Trilogia do Exílio · Capítulo 31 de 87
Obra Menu

A Estrella de Absyntho - Bloco 04

A uma esquina, um grupo de carnavel

ia e vinha, com musica e folhagens, festejando uma duzia de homens alinhados, imEra a esmola de .um

passiveis, soberanos.

baile perante um acampamento de morpheticos. No auge da competicao dos corpos rythmicos, os dansarinos convidavam o: lazaros

com gestos. Mas eles sorriam apenas, extacticos, envolvidos de chales, com sorrisos longinquos, onde se escarrava a saudade da carne roida dos narizes, das orelhas, dos clhos.

Depois foi o revolto fim e um grito dos

mutilados lentos:

Deus lhes pague!

Alma pediu a Jorge que a levasse a bacchanal nofturna do Barracao. Penetraram na

kermesse de luz mortica, espacada, onde trovejava o ribombo do bombo. Subiram. Parecia um palacio de columnas infinitas, onde

uma luzida mascarada de negros festejasse.

Subito, deante delles, o anao de pixe

abriu circulo, dansou. Era uma mctade lepida e preta, grudada com tenazes de maos em

ancas polpudas que vibravam. Sob o chapeu

enterrado ate a bogca de dentes imensos,

as pernas trabalhavam, batiam os pes basi-

cos, enlameados e enormes em vaevens de

samba e de maxixe.

E o coral empolgante, religiosc. gritava

de toda parte, por cem peitos metallicos de

femeas e de machos, num desfallecido estreitamento de ancas e de sexos.

Na hypnose lubrica do quarto silencioso,

ele sentia-lhe o halito, os beicos carnudos.

Apertou-lhe o rosto com as duas maos. Ela

cerrou os olhos.

Amas ainda..

Amo-te!

E por isso arrastafme a uma viagem

em que devias ser delle?

Ela entao perguntou:

Queixas-te... Foste tu o ladrao..

Nasceste para mim.

E provocas ainda o homem roubado...

Matal-o-ia.

Serias capaz? sussurrou ela, dc olhos

interrogativos, a boeca descerrada.

-Matar?

Matar.

Uniram-se. Embolaram-se no leito.

Jorge d'Alyellos ficara a um canto num

tamborete.

O apartamento que havia tomado para

ela, depois da promettida renuncia, era entre silencios e barulhos longinquos de hondes,

num primeiro andar da Rua Scuverc, no

Cambucy. O quarto atravancava-se de vasos,

crayobs, flores e livros — recordacoes trazidas da Europa pelo artista.

Um enorme abat-jour de ouro descia

exaggeradamente a luz, encerrada num circulo, sobre um tapete central.

A'janella do estreito patamar aereo para

o jardim mal cuidado, uma cortina branca

enquadrava a silhueta vermelha de Alma.

E falaste-lhe..

Que remedio..

Voltara-se, crescera sorrindo.

Responderei entao a carta de Roma.

Ela te visitava?

Como tu.

la ao teu atelier?

Como tu.

Foi tua amante?

Ele baixou a cabeca. Ela disse:

Responde! Eu volto ao meu anior.

E's digna delle!

Cala-te, Jorge. Faz hoje um ano que

nos encontramos.

Jorge recordou a tarde em que a vira no

Correio, pela primeira vez, depois da longa

separacao.

Oito horas! proseguiu ela, desmanchando os cabellos. E atirou-se nun salto pesado de gata, ao leito.

De fora, de um quartel vizinho, vinham

sons de corneta na noite de resonarcia. Depois, foi un brum-brum-brum de luinbores.

E a corneta mais clara, cortou insistentenente

o silencio.

— Ouves? fez Jorge, de pe, num subito

carinho. Esta noite de recordacao permanecera na nossa vida. Escuta como se reccrtam

bem essas notas, como tocam profundamente

esses tambores... tudo para ficar gravado.

E approximando-se, convincenir:

- Como me falam os teus ollios ruins!

Rodeia-os uma inquietacao..

Houve um silencio persuasivo.

- Deixaras de ser a boneca que foste!

Ve como é triste ser uma boneca... Que foste ate agora? A boneca maltratada des que te

formaram longe de mim; depois, a bneca

delle, desse salafrario! E a tua consciencia,

que é a minha consciencia, morta, apagada,

-44—

inutil! Sera preciso que leves a minha vida

para aecordar em ti a mulher que és?

Ela murmurou:

A boneca morreu..

Quando?

Agora. Nao ouviste o funeral de tambores?

Alma! gritou Jorge, querendo beijaI-a

toda.

E ficaram escutando a corneta que tocava, cheia sonora, na noite de estrellas.

A fanfarra de quartel cessou nuin uitimo

tru-tru! tru-tru! de tambores. E no silencio

inesperado, a voz delle cresceu, alongou· se

emocional.

- Fiz-te passar pela coisa mais bella da

vida... exclamou ela.

Por que?

Pela desgraca.

Alma!

Beija-me agora e ve como é bom.

Que lindo teatro!

Riram ambos. Houve um silencio jocundo. Jorge d'Alvellos buscou seu piiaina de

listas numa cadeira, entre vestidos atirados.

E apertou o botao da luz, dizendo na escuridao ainda doirada:

Representamos bem hoje. Tc.ca para

a frente o nosso carro de ciganos!

Carlos Byron promovia uma excursao a

Santos, naquella noite enorme de lua.

Jorge d'Aivellos recusara-se a ir sen Alma. E numa effusao os amigos que tinham

acabado de jantar num gabinete comum do

Pierrot, decidiram buscal-a.

Além de Carlos e de Jorge, havia Mario

de Alfenas e seu irmao Bruno.

A Cadillac foi tomar essencia. E, conduBain

zida por Carlos Byron, deixou o centro da

cidade pelo Largo da Sé.

- Vimos roubar-te para ir a Santos, disse Jorge, entrando.

Em trem especial?

-No meu trem de setenta cavallos, annunciou Carlos que subira tambem.

Vamos sos?

Com os dois Alfenas.

E o chauffeur?

Eu mesmo.

Vae fazer-nos derrapar na serra?

Consequencias de uma aposta, fez Jorge. Como,choveu toda a semana e a estrada

esta horrivel, Bruno. de Alfenas apostou uma

ceia com champagne como Carlos nao era

capaz de descer a Curva da Morte com o pe

no agcelerador.

— E nos vamos nos prestar a experiencia. Lindo! Voces vao me esperar no auto...

Beijaram-lhe a mao e saíram para o escuro onde o carro estacava.

Ela veiu muito grande, toda em jersey,

recostou-se entre Jorge e Mario de Alfenas,

ao fundo.

Sentado ao volante, tendo ao lado Bruno, Carlos saiu.

Conversando, passaram a garganta populosa do Lavapes e tomaram a estrada do

Ypiranga. Houve a primeira parada a sahida de Sao Paulo: um homem com somno, veiv

examinar a viatura sob o arco de ferro illuminado. Penetraram no estirao fofo e duro

do Caminho do Mar. Num rasgar de bandeiras desfraldadas, Carlos Bxon gritou:

Cento e noventa a hora!

A flammula branca da Hippica Paulista

fremia sobre os holophotes. Desceram de repente. Subiram.Tinham

attingido as primeiras luzes de Sao Bernardo em dez minutos. Passaram, alcancando logo a dhmospnera fria da Serra.

Bruno de Alfenas,voltado completamente para o banco do fundo, contava um passeio sensacional que fizera com o pintor Mei-

ra, o musico quieto Torresvedras e o impagavel Barrinhos, todos bebedos.

O Meira bateu o record kilometrico do

vomito. Foi molhando o caminho todo. Na

um velho

Hupmobile,

Serra,

auto,

guiado por um motorista de praca, virou

todos dormiam, inclusive o

sleeping-car —

chauffeur. Resultado: demos de banda numa

pedra e foi preciso terminar a viagem a pe.

1/1
Menu

Fazer anotação