Os Condemnados - Bloco 18 A Trilogia do Exílio · Capítulo 18 de 87
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Os Condemnados - Bloco 18

E numa inesperada reconciliacao, o amor perdido voltou, casto ainda, mas

forte, ululante.

Quast noite, ele a conduziu pelas escadas lon-gas, ate a porta. Voltou.

Sentou-se e observou fixamente dois grampos

retorcidos de ferro, que havia erguido do chao.

E recordou, numa impressao pfysica que lhe

repuxava ainda os labios grossos de creanca, o beijo

que ela lhe deixara ao sakir, toda lilag e oiro, num

vestido curto. Recusara-se

ainda, em prolongada

queixa infantil, a ser a amante prevista, fatalizada,

conquistada. E dissera que se havia de casar, pois

estava mostrando que nao era tao ruim como pensavam.

Viu, Joao? Passei pela Rua dos Clerigos.

Aqueha mulher que falava muito de mim, no comeco, voce se lembra? esta desesperada. A filha fugiu de casa com um chauffeur. E eu hei de mostrar

a essa gente que ainda encontro marido.

E depois de casada?

Serei seria.

Amas-me?

Amo-te.

Queres que te arranje um maridinho?

viera, aconchegando-se mum subito frio,

Ela

deitara-se toda em seu colo, confiante, calada.

Mas, fitando o velludo negro do antigo relogio

de pulso, saltara afim de pentear-se deante do espelho e collocar o turbante gracioso que comprara.

Tinham ficado olhando-se.

ele, fingindo-se

Até quando? interrogara

ainda maguado pela expulsao.

Iras ver-me... a noite?

Irei.

Bom que és!

E, depois, quebrando um longo silencio de

supplica:

Quero um beijo, Joao.

Nao. Nao seria honesto. Vaes-te casar...

Tomara-lhe as maos finas e longas; enternecido, cobrira-as de beijos.

No fim das escadas, deixara-a ir so pelo corredor, ficara espiando-lhe os passos elegantes e solidos. A porta, ela tinha estacado, sorrindo, a espera.

Ele fora beijala na bodca e velfa partir, toda lilas

e'oiro, no vestido cuirto.

E, pela avenida extensa, passavam vendedores

de jornaes, annunciando tragedias, bondes chiavam

nos fios elegtricos, recolhendo massas macambuzias

de gente.

Do alto, a noite cahia numa pallidez precoce

de inverno.

No longo recolhimento a que se votara para o

filho, ia perdendo o antigo gosto amargo e divino

da vida. Sentia-se deselegante, sentia-se timida. F

precisava amar...

Mauro voltou-lhe como um estilete pelo coracao a dentro. Se o pudesse rever! Se o pudesse res

um instante, na rua nogturna, no sell

suscitar ahli,

antigo faiscar de cigarro, os passos americanos, a

figura recurva...

Ao transpor a porta da casa velha, numa angustia, procurou inutilmente na creanca, que palrava

de bracos extendidos, uma ruga, um detalhe evocativo, uma graca masculina qule o lembrasse.

Luquinhas tinha a cabeca grande, parecendo

conter pensamentos dlesencontrados, desejos em garra, desesperos e phantasias.

labio inferior, em coracao, punha-lhe uma

graca feminina no rosto fechado. Era trepidante,

violento e manhoso.

Teve uma tragica indigestao. A febre queimava-lhe a barriguinha e as costas. Alma, num desvairo,

brigou com D. Genoveva, aytribuindo a molestia ao

seu pouco cuidado.

No dia seguinte, melhorando a crpanca, recon.

ciliaram-se.

Alma retesava-se de raiva e de lagrimas, ante

as aftitudes descansadas do telegraphista, que lhe

nao mostrava horizontes nem lhe decidia a vida

parada. Pensou em mudar-se. Mas resolveu ficar

ani mesmo, esperando que alguem viesse, que alguem surgisse.

Encontrou Camilla Maia, ao sahir do Jardim

Publico com Luquinhas. Estava esfugjante e alta,

num vestido rico, com punhos largos de pele, um

chapeu de setim apanhando-lhe toda a cabelleira

negra.

Tinha um rapaz do comercio, que a adorava e

lm ricaco que a vestia.

Alma sozinha, fazendo o filho dormir no quarto

abafado, curvou a cabeca ruiva sobre a grandeza

inexplicavel da sua desdita.

Deixou Luquinhas, o telegraphista, a casa e.

refazendo as maneiras antigas e a antiga beleza,

reappareceu, num halo de gloria, no meio catita e

dansarino onde Camilla se fazia.

Na volta longa de automovel por Santo Amaro,

o rapaz alto e solicito, de bigodes negros e curtos,

que vinha ao seu lado, em frente ao outro par distralfido e amoroso, chupou-lhe os labios sugculentos.

Chamava-se Arthur e disse-lhe que tinha uma garna Rua da Boa Morte, agora que nao

conniere

viajava.

Joao do Carmo nao podia comprehender aquela

rapida transfiguracao. Presentia o estouro da sua

incompleta fortuna. Ela mesmo recusava-se nervosamente a beijato na despedida das visitas noturnas, regulares e quietas.

A idea do casamento, francamente

exposta,

crescera-lhe na intima passividade sentimental, apeAar-dos protestos da sua desfallecida covardia.

Vivia envenenado pelo fel contagioso de Dagoberto Lessa.

Na sua capa Hespanhola, um ar ekpectante dle

rafeiro, o escrevente fizera-lhe entrever, sentado e

calimo em sua frente, no quarto, que sabia o que se

passava. Conhecia Camilla, pessima

companhia...

Alias era opiniao da cidade que Joao estava se enterrando.

Una revolta estuou no peito do namorado, um

heroismo de sentimentos invadiu-o.

Enterrando, como? A divida que fiz ja

paguei. Concorro com o quarto apenas, uma quantia pequena...

Dagoberto torcia o bico $ceptico.

- Até o Lobao ja me disse que voce é um ingenuo em crer nessa mulher...

Inveja de vencido.

Disse coisas horriveis.

Repita....

Que ela é amante para dois meges. Mulher

conhecida pelo paig inteiro.

Cao!

Haviam-se calado.

Um sentimento daquella venenosa injuria meEle sentia mais

xia no peito de Joao do Carmo.

que nunca que a amava. Era seu dever defendet-a,

amparal-a, salval-a, dar-lhe, numa prodigiosa solidariedade, a pobre honra do seu nome.

escrevente vendo-lhe a attitude sombria e

maglada, mudara.

- O diabo é o meio em que ela viveu, um

meio corrupto... O tal Mauro...

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