Os Condemnados - Bloco 18
E numa inesperada reconciliacao, o amor perdido voltou, casto ainda, mas
forte, ululante.
Quast noite, ele a conduziu pelas escadas lon-gas, ate a porta. Voltou.
Sentou-se e observou fixamente dois grampos
retorcidos de ferro, que havia erguido do chao.
E recordou, numa impressao pfysica que lhe
repuxava ainda os labios grossos de creanca, o beijo
que ela lhe deixara ao sakir, toda lilag e oiro, num
vestido curto. Recusara-se
ainda, em prolongada
queixa infantil, a ser a amante prevista, fatalizada,
conquistada. E dissera que se havia de casar, pois
estava mostrando que nao era tao ruim como pensavam.
Viu, Joao? Passei pela Rua dos Clerigos.
Aqueha mulher que falava muito de mim, no comeco, voce se lembra? esta desesperada. A filha fugiu de casa com um chauffeur. E eu hei de mostrar
a essa gente que ainda encontro marido.
E depois de casada?
Serei seria.
Amas-me?
Amo-te.
Queres que te arranje um maridinho?
viera, aconchegando-se mum subito frio,
Ela
deitara-se toda em seu colo, confiante, calada.
Mas, fitando o velludo negro do antigo relogio
de pulso, saltara afim de pentear-se deante do espelho e collocar o turbante gracioso que comprara.
Tinham ficado olhando-se.
ele, fingindo-se
Até quando? interrogara
ainda maguado pela expulsao.
Iras ver-me... a noite?
Irei.
Bom que és!
E, depois, quebrando um longo silencio de
supplica:
Quero um beijo, Joao.
Nao. Nao seria honesto. Vaes-te casar...
Tomara-lhe as maos finas e longas; enternecido, cobrira-as de beijos.
No fim das escadas, deixara-a ir so pelo corredor, ficara espiando-lhe os passos elegantes e solidos. A porta, ela tinha estacado, sorrindo, a espera.
Ele fora beijala na bodca e velfa partir, toda lilas
e'oiro, no vestido cuirto.
E, pela avenida extensa, passavam vendedores
de jornaes, annunciando tragedias, bondes chiavam
nos fios elegtricos, recolhendo massas macambuzias
de gente.
Do alto, a noite cahia numa pallidez precoce
de inverno.
No longo recolhimento a que se votara para o
filho, ia perdendo o antigo gosto amargo e divino
da vida. Sentia-se deselegante, sentia-se timida. F
precisava amar...
Mauro voltou-lhe como um estilete pelo coracao a dentro. Se o pudesse rever! Se o pudesse res
um instante, na rua nogturna, no sell
suscitar ahli,
antigo faiscar de cigarro, os passos americanos, a
figura recurva...
Ao transpor a porta da casa velha, numa angustia, procurou inutilmente na creanca, que palrava
de bracos extendidos, uma ruga, um detalhe evocativo, uma graca masculina qule o lembrasse.
Luquinhas tinha a cabeca grande, parecendo
conter pensamentos dlesencontrados, desejos em garra, desesperos e phantasias.
labio inferior, em coracao, punha-lhe uma
graca feminina no rosto fechado. Era trepidante,
violento e manhoso.
Teve uma tragica indigestao. A febre queimava-lhe a barriguinha e as costas. Alma, num desvairo,
brigou com D. Genoveva, aytribuindo a molestia ao
seu pouco cuidado.
No dia seguinte, melhorando a crpanca, recon.
ciliaram-se.
Alma retesava-se de raiva e de lagrimas, ante
as aftitudes descansadas do telegraphista, que lhe
nao mostrava horizontes nem lhe decidia a vida
parada. Pensou em mudar-se. Mas resolveu ficar
ani mesmo, esperando que alguem viesse, que alguem surgisse.
Encontrou Camilla Maia, ao sahir do Jardim
Publico com Luquinhas. Estava esfugjante e alta,
num vestido rico, com punhos largos de pele, um
chapeu de setim apanhando-lhe toda a cabelleira
negra.
Tinha um rapaz do comercio, que a adorava e
lm ricaco que a vestia.
Alma sozinha, fazendo o filho dormir no quarto
abafado, curvou a cabeca ruiva sobre a grandeza
inexplicavel da sua desdita.
Deixou Luquinhas, o telegraphista, a casa e.
refazendo as maneiras antigas e a antiga beleza,
reappareceu, num halo de gloria, no meio catita e
dansarino onde Camilla se fazia.
Na volta longa de automovel por Santo Amaro,
o rapaz alto e solicito, de bigodes negros e curtos,
que vinha ao seu lado, em frente ao outro par distralfido e amoroso, chupou-lhe os labios sugculentos.
Chamava-se Arthur e disse-lhe que tinha uma garna Rua da Boa Morte, agora que nao
conniere
viajava.
Joao do Carmo nao podia comprehender aquela
rapida transfiguracao. Presentia o estouro da sua
incompleta fortuna. Ela mesmo recusava-se nervosamente a beijato na despedida das visitas noturnas, regulares e quietas.
A idea do casamento, francamente
exposta,
crescera-lhe na intima passividade sentimental, apeAar-dos protestos da sua desfallecida covardia.
Vivia envenenado pelo fel contagioso de Dagoberto Lessa.
Na sua capa Hespanhola, um ar ekpectante dle
rafeiro, o escrevente fizera-lhe entrever, sentado e
calimo em sua frente, no quarto, que sabia o que se
passava. Conhecia Camilla, pessima
companhia...
Alias era opiniao da cidade que Joao estava se enterrando.
Una revolta estuou no peito do namorado, um
heroismo de sentimentos invadiu-o.
Enterrando, como? A divida que fiz ja
paguei. Concorro com o quarto apenas, uma quantia pequena...
Dagoberto torcia o bico $ceptico.
- Até o Lobao ja me disse que voce é um ingenuo em crer nessa mulher...
Inveja de vencido.
Disse coisas horriveis.
Repita....
Que ela é amante para dois meges. Mulher
conhecida pelo paig inteiro.
Cao!
Haviam-se calado.
Um sentimento daquella venenosa injuria meEle sentia mais
xia no peito de Joao do Carmo.
que nunca que a amava. Era seu dever defendet-a,
amparal-a, salval-a, dar-lhe, numa prodigiosa solidariedade, a pobre honra do seu nome.
escrevente vendo-lhe a attitude sombria e
maglada, mudara.
- O diabo é o meio em que ela viveu, um
meio corrupto... O tal Mauro...