Os Condemnados - Bloco 04
Parara na cozinha —— negra das
antigas existencias calmas da casa de aluguel. Uma
fita de dez cores passou pela telha-vay, bandou-lhe
os olhos.
Estatelou-se voluntariamente nos tijolos frios,
ficou ali.. Sentia uma dor sem raiva, no epitanto.
Teve angias de vomitar: um soluco segco escancarou-lhe a bogca de repente. Se ele viesse vet-a!
O pensamento timido levantava-se-lhe em praQue coragem! Eu morrendo aqui! Nao
ses :
tem um pingo de caridade...
Contorceu-se de novo, num outro vomito sem
resultado. Ficou tossindo, descabellada, partidas as
cordas todas do ser solucante.
Baixou a ruiva cabelleira até o chao sujo e quebrado e a aureola de luz multicor irisou-a.
Havia de constipar-se, entysicar... Os tijolos asperos horrorisavam-na. Pensou em ir para a cama..
Nao... Sim, devia ir... Podia fazer-lhe mal aquilko.
Adoeceria de verdade, ali,
a casa abando,naquella
nada.
Fez do braco um travesseiro humilde... Que
adeantava adoecer?
Um barulho levantara-se. Mauro andava la
dentro. Um arrepio comecou-lhe no ventre, subin.
Foi perdendo a energia inteira. Ate a forca dos
olhos glaucos caliu... Estava sem saliva... e doia-lhe
o coracao de vinte anos.
Ele
continuava a andar, a mexer nos moveis
alugados... nao iria deZerto... Bom! Lindo! Em meio
dlas lagrimas, um irreprimivel sorriso confessou-se...
Cao! Mesmo assim, queria-o tanto!
Ia sahir, ia sim, deixala... Andava no tom decidido dos sapatos americanos... ia... Uma calma de
novo na casa sonora... um arrastar de cadeira... ia..
um arrepio...
Nao ia... estava se demorando... que fosse!
Nao... se tivesse escuitado!
Calma de novo... Ia... presentiu que ia mesmo...
Esticou-se toda de-brucos, querendo alongar-se como
ma cobra até a rua.. Tapou os ouvidos depressa
e escutou perfeitamente, implacavelmente, o barulho estalado da porta fechando-se.
La fora, sempre o tilintar de chocalhos regulares. Cacarejos. A tarde cahira. Haviam passado,
de ha muito, as angias de vomito. O leito acolhia-a
carinhoso, na penumbra nua do quarto.
E, calma, grande, desceul como uuma sombra de
nuvem num occaso lilag, a saudade delle, a saudade...
Vamos ao café, deixemos de falar do eterno
feminino.
A mulher é ainda e sempre a garantia da
vida, sussuyou um magro, grisalho, de olhos verdes,
O velho baixo, de bigodes de chin, concordou
num som roufenho:
—- E' o unico amparo! o tinico!
Menos para o artista, menos para nos os
artistas! gritou de dentro de sua encardida magfa
O gordo Frederico Carlos Lobao.
Incomprehendido e gesticulante, introduzira-se
para tomar o café das tres até junto da banqueta
serena de Joao do Carmo.
CONDEMNADOS
E na sala do telegrapfro, o toc-toc-toc de cem
vozes anonymas e dispersas falou, eimquanto o servente negro enchia as chicaras da bandeja.
Lobao contara-lhe, fazendo psicologia errada,
que Mauro Glade a tinha deflorado. Descobrira.
E o telegraphista prete&tara um servico extraordinario para ficar dizendo na noite, sozinho,
o nome sonoro do seu humilhado amor.
Depois, subitamente pensou que podia ser mentira, que devia ser mentira. Quis procurar de novo
o confidente imprevisto e teve pavor de saber mais.
Invadiu-o um definitivo estado de desastre.
Dizia cheio de logica: coracao de mulher, coracao
de rameira!
E rememorou longamente a unica vez em que
conseguira vet depois da carta. Fora ainda no
portao. Era verdade que ela lhe falara ainda do
outro, dissera que o amava. E ele tinha partido num
impeto de jogar fcenas de dramalhao moderno como
vira por tlfeatros. Fora para o quarto com catadupas sonoras nos ouvidos e nao dormira.
ATRILOGIA DO EXIIIU
Agora, Lobao vinha dizer-lhe aquilyo, brutal e
guloso de desastres, sem contemplacao, sem piedade.
Tinha sido deflorada num rendez-vous.
Se fosse mentira, esborrachar-lhe-ia a
cara
empapucada e cynica. Andava numa suffocacao indizivel. A suspeita enlouquecedora tomara-lhe conta
do espirito inteiro, do corpo inteiro.
Caminhara horas e horas, desde a salfida do
enprego. Foi para a cidade & meia-noite. Entroul
no centro numa psicologia de prestito.
Gente salia aos magotes dos theatros. Parecia-lhe que todos o ollhavam como se olha una solepne passeata de desgracas, com cruz na frente
e processionaes tocheiros.
O centro esvagiou-se, com os ultinos bondes
assaltados pelos uiltimos retardatarios.
Ia sem diredcao, andando, os olhos presos in.
conscientemente nas luzes iguaes das ruas.
Uma sola da botina envelhecida despregou-se,
fez-lhe o acompanhamento tropego da marcha.
Sentia os olhos pregados nais pestanas duras, a
bogca num repuxamento grave de muisculos. Tinha
sido deflorada, ela.. o seu fulvo sonho de amor.
Desceu por uma triste alameda, arrastando a
sola ironica. Um som de piano fel-o estacar. Havia
uma grande casa illuminada, entre arvores que rama-
lhavam. Na rua, junto a ele, varredores varrian
folhas mortas, como destinos.
guiu, profundamente attingindo
no seul profundo
ser. Passou ao bairro longinquo. Teve um gesto na
diredcao do bedco, onde o seu anor talvez dormisse
SSIA
sem honra e sem sogego.
E ao subir as escadas, tagteante na sombra,
para o quarto desbotado onde vivia, molhou de lagrimas os olhos, que tinha exaggeradamente abertos.
Porque nao agira? Porque nao soubera enfrentar tudo, arrancata do outro e do avo? Porque?
Vieram os dias da desgracada pesquisa do seu
insoluvel inferno : Uma emocao barbara tomou-o.
As tardes foram horriveis, as noites horrendas, as
madrugadas lugubres.
Ate o dia em que soube, pela viginhanca alarmada e risonha, que Alma voltara para a companhia do velho. E que passara a salir 'todos os
dias, bem trajada, com um sujeito recurvo e galhardo, que a esperava na esquina.
O dr. Carlos Ribeiro nao quigera envolver-se.
no caso: havia abandonado a politica municipal. O
capitao Marcellino nao recebera o velho, na sula
grande chacara quieta. O Mascarenhas tinha morrido.
Ele passou uma semana inteira sem banho. O
moleque pulava o portao, desapparecia longas horas.
A cozinheira servia-lhe o almogo e o jantar, insistindo para que ele
comesse.
Vestia-se para sabir, para providenciar.
ele aos latidos
caozinho conversava comr
longos, expressivos, num abanar de cauda que lhe
indicava corajosos caminhos.
E nessa manha de Maio, Alma apparecera no
bairro, com o rosto borrado de um s
sodco.