Os Condemnados - Bloco 04 A Trilogia do Exílio · Capítulo 4 de 87
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Os Condemnados - Bloco 04

Parara na cozinha —— negra das

antigas existencias calmas da casa de aluguel. Uma

fita de dez cores passou pela telha-vay, bandou-lhe

os olhos.

Estatelou-se voluntariamente nos tijolos frios,

ficou ali.. Sentia uma dor sem raiva, no epitanto.

Teve angias de vomitar: um soluco segco escancarou-lhe a bogca de repente. Se ele viesse vet-a!

O pensamento timido levantava-se-lhe em praQue coragem! Eu morrendo aqui! Nao

ses :

tem um pingo de caridade...

Contorceu-se de novo, num outro vomito sem

resultado. Ficou tossindo, descabellada, partidas as

cordas todas do ser solucante.

Baixou a ruiva cabelleira até o chao sujo e quebrado e a aureola de luz multicor irisou-a.

Havia de constipar-se, entysicar... Os tijolos asperos horrorisavam-na. Pensou em ir para a cama..

Nao... Sim, devia ir... Podia fazer-lhe mal aquilko.

Adoeceria de verdade, ali,

a casa abando,naquella

nada.

Fez do braco um travesseiro humilde... Que

adeantava adoecer?

Um barulho levantara-se. Mauro andava la

dentro. Um arrepio comecou-lhe no ventre, subin.

Foi perdendo a energia inteira. Ate a forca dos

olhos glaucos caliu... Estava sem saliva... e doia-lhe

o coracao de vinte anos.

Ele

continuava a andar, a mexer nos moveis

alugados... nao iria deZerto... Bom! Lindo! Em meio

dlas lagrimas, um irreprimivel sorriso confessou-se...

Cao! Mesmo assim, queria-o tanto!

Ia sahir, ia sim, deixala... Andava no tom decidido dos sapatos americanos... ia... Uma calma de

novo na casa sonora... um arrastar de cadeira... ia..

um arrepio...

Nao ia... estava se demorando... que fosse!

Nao... se tivesse escuitado!

Calma de novo... Ia... presentiu que ia mesmo...

Esticou-se toda de-brucos, querendo alongar-se como

ma cobra até a rua.. Tapou os ouvidos depressa

e escutou perfeitamente, implacavelmente, o barulho estalado da porta fechando-se.

La fora, sempre o tilintar de chocalhos regulares. Cacarejos. A tarde cahira. Haviam passado,

de ha muito, as angias de vomito. O leito acolhia-a

carinhoso, na penumbra nua do quarto.

E, calma, grande, desceul como uuma sombra de

nuvem num occaso lilag, a saudade delle, a saudade...

Vamos ao café, deixemos de falar do eterno

feminino.

A mulher é ainda e sempre a garantia da

vida, sussuyou um magro, grisalho, de olhos verdes,

O velho baixo, de bigodes de chin, concordou

num som roufenho:

—- E' o unico amparo! o tinico!

Menos para o artista, menos para nos os

artistas! gritou de dentro de sua encardida magfa

O gordo Frederico Carlos Lobao.

Incomprehendido e gesticulante, introduzira-se

para tomar o café das tres até junto da banqueta

serena de Joao do Carmo.

CONDEMNADOS

E na sala do telegrapfro, o toc-toc-toc de cem

vozes anonymas e dispersas falou, eimquanto o servente negro enchia as chicaras da bandeja.

Lobao contara-lhe, fazendo psicologia errada,

que Mauro Glade a tinha deflorado. Descobrira.

E o telegraphista prete&tara um servico extraordinario para ficar dizendo na noite, sozinho,

o nome sonoro do seu humilhado amor.

Depois, subitamente pensou que podia ser mentira, que devia ser mentira. Quis procurar de novo

o confidente imprevisto e teve pavor de saber mais.

Invadiu-o um definitivo estado de desastre.

Dizia cheio de logica: coracao de mulher, coracao

de rameira!

E rememorou longamente a unica vez em que

conseguira vet depois da carta. Fora ainda no

portao. Era verdade que ela lhe falara ainda do

outro, dissera que o amava. E ele tinha partido num

impeto de jogar fcenas de dramalhao moderno como

vira por tlfeatros. Fora para o quarto com catadupas sonoras nos ouvidos e nao dormira.

ATRILOGIA DO EXIIIU

Agora, Lobao vinha dizer-lhe aquilyo, brutal e

guloso de desastres, sem contemplacao, sem piedade.

Tinha sido deflorada num rendez-vous.

Se fosse mentira, esborrachar-lhe-ia a

cara

empapucada e cynica. Andava numa suffocacao indizivel. A suspeita enlouquecedora tomara-lhe conta

do espirito inteiro, do corpo inteiro.

Caminhara horas e horas, desde a salfida do

enprego. Foi para a cidade & meia-noite. Entroul

no centro numa psicologia de prestito.

Gente salia aos magotes dos theatros. Parecia-lhe que todos o ollhavam como se olha una solepne passeata de desgracas, com cruz na frente

e processionaes tocheiros.

O centro esvagiou-se, com os ultinos bondes

assaltados pelos uiltimos retardatarios.

Ia sem diredcao, andando, os olhos presos in.

conscientemente nas luzes iguaes das ruas.

Uma sola da botina envelhecida despregou-se,

fez-lhe o acompanhamento tropego da marcha.

Sentia os olhos pregados nais pestanas duras, a

bogca num repuxamento grave de muisculos. Tinha

sido deflorada, ela.. o seu fulvo sonho de amor.

Desceu por uma triste alameda, arrastando a

sola ironica. Um som de piano fel-o estacar. Havia

uma grande casa illuminada, entre arvores que rama-

lhavam. Na rua, junto a ele, varredores varrian

folhas mortas, como destinos.

guiu, profundamente attingindo

no seul profundo

ser. Passou ao bairro longinquo. Teve um gesto na

diredcao do bedco, onde o seu anor talvez dormisse

SSIA

sem honra e sem sogego.

E ao subir as escadas, tagteante na sombra,

para o quarto desbotado onde vivia, molhou de lagrimas os olhos, que tinha exaggeradamente abertos.

Porque nao agira? Porque nao soubera enfrentar tudo, arrancata do outro e do avo? Porque?

Vieram os dias da desgracada pesquisa do seu

insoluvel inferno : Uma emocao barbara tomou-o.

As tardes foram horriveis, as noites horrendas, as

madrugadas lugubres.

Ate o dia em que soube, pela viginhanca alarmada e risonha, que Alma voltara para a companhia do velho. E que passara a salir 'todos os

dias, bem trajada, com um sujeito recurvo e galhardo, que a esperava na esquina.

O dr. Carlos Ribeiro nao quigera envolver-se.

no caso: havia abandonado a politica municipal. O

capitao Marcellino nao recebera o velho, na sula

grande chacara quieta. O Mascarenhas tinha morrido.

Ele passou uma semana inteira sem banho. O

moleque pulava o portao, desapparecia longas horas.

A cozinheira servia-lhe o almogo e o jantar, insistindo para que ele

comesse.

Vestia-se para sabir, para providenciar.

ele aos latidos

caozinho conversava comr

longos, expressivos, num abanar de cauda que lhe

indicava corajosos caminhos.

E nessa manha de Maio, Alma apparecera no

bairro, com o rosto borrado de um s

sodco.

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