A Estrella de Absyntho - Bloco 14 A Trilogia do Exílio · Capítulo 41 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 14

Ficara manhas inteiras no quarto, a ler,

a rodar, a descobrir pela janella o estirao de

ladeira, com arvores nos canteiros de grahma, entre os asphaltos largos. Automoveis

passavam buginando; bondes la em baixo cruzavam-se. E desfilavam mulheres, escolares,

prostitutas, mendigos — era o seu draina de

grande espegtaculo. Havia uma sorveteria em

frente, quasi ao lado do Conservatorio: um

sujeito gordo e sujo bocejava e servia lentamente os fregueges, tirando o troco de uma

bolsa a tiracollo.

Fazia vir o almoco alli mesmo, comia sem

os antigos cuidados de limpeza. Quando salfia,

voltava logo. O ambiente de velha estima, decahia. Deixara mesmo de fazer encerar o soalho.

Aquela noite, numa obsessao, abysmava-o

a aveniura com Milagre. No instante do

grande aviltamento, em que ele a possuira

nas roupas intimas da morta, alguma coisa

gritara-lhe do fundo do ser: — Nao! Nao! E

ele consumara o adto abjeqto.

A ausencia de punicoes sociaes para o

crime de Mauro, tornara-o inquieto, desharmonico. A sua consciencia exigia tribunaes. E

tirando do peito a medalha em que Alma lhe

deixara o seu antigo riso serio, exclamava

exaltadamente:

Porque nao me matas, querida!Mata-me! Vinga-te em mim! Eu te daria o coracao em pedacos...·Mata-me!.

Se, ao menos, pudesse adoecer da chaga

moral que o invadia todo, morrer disso como

um morphetico de sua lepra. Mas nao. A Justica Divina movia-se. O seu castigo seria outro, bem pqor.

Enrodilhado numa cadeira, na noite velha, Jorge d'Alvellos pensava na possibilidade

de ter engravidado Milagre.

Reunia numa etranha composicao a figura de mulher a paisagem tragica de Areias

e sentia,numa transposicao da propria desventura, sob um vasto ceu de queimada,o

trabalho invisivel das formigas.

esse monstrengo que junUm filho com

tava todas as miserias neutras da vida.

Um filho! Ela perseguil-o-ia. Obrigaloia a adoptato, a crial-b. Seria forte, gordo,

idiota. Vaias infinitas vinham-lhe ao ouvido,

pertinazes, dilacerantes. Era a vinganca trium

phal da assassinada: como ela riria no inferno!

Jorge levantou-se. Estava lavado em suor.

Que idea! Que idea!

O plenario dos diabinhos meudos,com

sapatinhos de vidro, reunira-se para julgalb.

No ceniro, o juiz de barrete vermelho e tendo

uma mancha na toga, apontava-o.

Ele esperava, cheio de presentimentos.

Estava de pe, havia guardas em torno, atraz,

na porta. A mancha era uma caveira que

guinchava, pondo a lingua. Vinha-lhe uma

vontade cega de gritar, de dizer desaforos. E

O diabinho juiz esticava o pescoco de tripa,

perguntava-lhe:

Quer matar tambem?

Ele tinha os olhos sefcos, fixos. O diabinho prgseguia, com gestos de convite, fazendo toda uma mimica postica de discurso.

Venha, atire-se, de ponta-caheca. Venha! E' bom..

Estava no chao, estirado num doloroso

cansaco syncopal. Levantou-se. Tinha um inchaco na fronte, que batera, no tombo, contra

uma quina de movel.

No entanto, a inagem adorada de Alma

vacillara da sua primitiva fixidez.

-A vida é viva! gritara ao esculptor,

num encontro de rua, o impagavel Barrinhos,

risonho, baixo, nervoso.

E ele repetia no silencio do atelier:

A vida é viva..

Cerrou o volume religioso. E ficou ahli,

no divay, a pensar no pequeno cemiterio que

guardava na alma, sagrado, inviolavel a torrente da vida. A amante morta jazia no fundo

subterraneo do seu ser, no inacessivel fundo

imortal, perepne companheira para as

noites de solidao, para as horas amargas. Que

importava trahif-a? Era o corpo que trahia, a

miseria phxsiologica, um apodrecimento disfarcado de cellulas, a iutar contra o inexoravel caminho que as havia de desagregar em

sebos pestosos e gages e liquefafcoes e po no

escuro de um jazigo.

A scentelha eterna restava fiel ao compromisso assumido.

Jorge teve um sorriso illuminado e triste.

Voltava-lhe persuasiva, tentante, a suggestao

theologica de que o corpo, como a semente,

precisa apodrecer na terra para florir e fruCtificar.

Encontrara-se aquela noite com o musico

Torresvedras, sempre mudo, sempre lento, no

seu terno grosso e cor de hurro, soh um chapelao preto de artista. E pugera-se andar con

ele pelo Triangulo.

Carlos Byron regressara do Rio, onde tinha passado um me%. Assistira a um baile flugtuante, a bordo de um couracado e descrevera-lhe a festa num impressionismo: os reflexos da bahia haviam feito, de Guanabara,

Veneza a noite, vista com vidros de augmento, e os flirts nos canhoes, com officiaes ingenuos e fortes pedindo beijos as mocas...

E levara-o inutilmente aos cabarets na

roda alegre de Mario de Alfenas.

Era outro mundo o de Jorge: o mundo

que presentia

a em Torresvedras, guardando

flesouros imensos de sonoridade, de realisacao, correntes de forca, de magia, de amor,

no silencio vagaroso do seu passo, -- fechado

como a Peau-d'ane da fabula naquelle terno

ridiculo de casemira felpuda.

Foram andando e ioparam de repente no

Viaduelo com a figura desengoncada e viva,

bulicosa e espiritual do pintor Lino de Albuquerque, chegado de Paris. Era um menino

quast, nos seus vinte anos ageis e sonhadores.

Abracou-os expansivo, dizendo logo:

Vou morar aqui. Sao Paulo é estupendo! Hdntem, depois do baile no Automovel

Clubzera pura Londres. So cartolas e o fogg...

Sabem, chegou minha pequena do Rio, a Lolote...

Naquelle tumulto confiante, Jorge d'Al-

vellos reviu-se aos vinte anos na primeira

investida da vida, em Roma.

Lino contava o desembarque da mulher,

por engano, na estacao do Braz e depois fez,

num arremesso de gestos:

Estou contente. Sao Paulo é estupendo. Amanha, installo a Lolote. Vou fazer un

album intitulado "Nos bordeis da America".

estudar os Anjos da Terra, voces conhecem

essas senhoras que posam Murillo nas rotulas...

Partiu num aivoroco de risos. Ia a Rotisserie visitar uma familia.

Os dois sorriam andando, empolgados por

aquela effusao dyonisiaca, solidarios com O

artista creanca que tambem tinham sido. Mas

Jorge entristeceu-se dizendo:

Como a vida canta em ti! Como a vida

ha-de chorar dentro de ti!

Foram a um circo na Barra Funda, com

fanfarras, palhacos, trapezios, pantominas.

Voltaram a pe. Uma mulher alta e flexuosa

passou, seguiram-na. Depois deixaram-na. Tinhan chegado ao Viadugto central. Jorge veia

acompanhando o amigo. No parapeito da ponte, sobre o Anhangabahi, havia ajuntamentos

escuros. Para os lados da Luz, uma fogueira

elevava-se sobre as casas no ceu ardente. Carros de bombeiros tilintaram na distancia.

Jorge despediu-se e desceu para o quarto, murmurando:

A vida... um circo. uma mulher, um

incendio..

Compugera o pahnejamento ligeiro da

estatua de Alma, a recobrir-lhe a descarnada

nudez. E passara-a para o gesso, com outro

formador, italiano longo e triste.

Ia desnudat-a num domingo. Carlos Byron promettera levar para ver o trabalho um

critico de arte, collaborador e correspondente

de jornaes.

A estatua, ennovelada num bloco informe, fora iransportada para um pavimento isolado do Palacio que abria dois quadros de janellas largas sobre a cidade. De um lado, viase o Cambucy, panoramico, extenso, com a

sua capellinha de Lourdes em alta miniatura,

sob o ceu sereno, do outro, era a elevacao do

casario do centro, onde as lorres de pedra da

Abbadia de Sao Bento subiam direitas, no ar

lucido. Os dois trechos recortavam a nitida

manha, emmoldurando-a nas janellas.

E, numa alegria innocente, o esculptor

trabalhava.

Num veston de velludo, trazido de Roma,

pendurando-se a escada aberta, adeantava O

escalpellamento. Tinha retirado uma grande

parte da forma --e o dorso velado da figura

saltava ja, branco, numa grande harmonia

presentida.

d'Alvellos continuava, integrado

Jorge

pela primeira vez depois de desastre, na alegria de crear. O formao, dirigido pela mao

leve e certeira, revelava detalhes, compunha

trechos de movimento, tirava pedacos de vida sepultada na massa. As vezes, o esculptor

parava para arrancar as ligacoes de ferro

que cingiam todo o bloco, e partes inteiras da

forma, agora inutil, desmoronavam aos pes da

estatua.

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