A Estrella de Absyntho - Bloco 14
Ficara manhas inteiras no quarto, a ler,
a rodar, a descobrir pela janella o estirao de
ladeira, com arvores nos canteiros de grahma, entre os asphaltos largos. Automoveis
passavam buginando; bondes la em baixo cruzavam-se. E desfilavam mulheres, escolares,
prostitutas, mendigos — era o seu draina de
grande espegtaculo. Havia uma sorveteria em
frente, quasi ao lado do Conservatorio: um
sujeito gordo e sujo bocejava e servia lentamente os fregueges, tirando o troco de uma
bolsa a tiracollo.
Fazia vir o almoco alli mesmo, comia sem
os antigos cuidados de limpeza. Quando salfia,
voltava logo. O ambiente de velha estima, decahia. Deixara mesmo de fazer encerar o soalho.
Aquela noite, numa obsessao, abysmava-o
a aveniura com Milagre. No instante do
grande aviltamento, em que ele a possuira
nas roupas intimas da morta, alguma coisa
gritara-lhe do fundo do ser: — Nao! Nao! E
ele consumara o adto abjeqto.
A ausencia de punicoes sociaes para o
crime de Mauro, tornara-o inquieto, desharmonico. A sua consciencia exigia tribunaes. E
tirando do peito a medalha em que Alma lhe
deixara o seu antigo riso serio, exclamava
exaltadamente:
Porque nao me matas, querida!Mata-me! Vinga-te em mim! Eu te daria o coracao em pedacos...·Mata-me!.
Se, ao menos, pudesse adoecer da chaga
moral que o invadia todo, morrer disso como
um morphetico de sua lepra. Mas nao. A Justica Divina movia-se. O seu castigo seria outro, bem pqor.
Enrodilhado numa cadeira, na noite velha, Jorge d'Alvellos pensava na possibilidade
de ter engravidado Milagre.
Reunia numa etranha composicao a figura de mulher a paisagem tragica de Areias
e sentia,numa transposicao da propria desventura, sob um vasto ceu de queimada,o
trabalho invisivel das formigas.
esse monstrengo que junUm filho com
tava todas as miserias neutras da vida.
Um filho! Ela perseguil-o-ia. Obrigaloia a adoptato, a crial-b. Seria forte, gordo,
idiota. Vaias infinitas vinham-lhe ao ouvido,
pertinazes, dilacerantes. Era a vinganca trium
phal da assassinada: como ela riria no inferno!
Jorge levantou-se. Estava lavado em suor.
Que idea! Que idea!
O plenario dos diabinhos meudos,com
sapatinhos de vidro, reunira-se para julgalb.
No ceniro, o juiz de barrete vermelho e tendo
uma mancha na toga, apontava-o.
Ele esperava, cheio de presentimentos.
Estava de pe, havia guardas em torno, atraz,
na porta. A mancha era uma caveira que
guinchava, pondo a lingua. Vinha-lhe uma
vontade cega de gritar, de dizer desaforos. E
O diabinho juiz esticava o pescoco de tripa,
perguntava-lhe:
Quer matar tambem?
Ele tinha os olhos sefcos, fixos. O diabinho prgseguia, com gestos de convite, fazendo toda uma mimica postica de discurso.
Venha, atire-se, de ponta-caheca. Venha! E' bom..
Estava no chao, estirado num doloroso
cansaco syncopal. Levantou-se. Tinha um inchaco na fronte, que batera, no tombo, contra
uma quina de movel.
No entanto, a inagem adorada de Alma
vacillara da sua primitiva fixidez.
-A vida é viva! gritara ao esculptor,
num encontro de rua, o impagavel Barrinhos,
risonho, baixo, nervoso.
E ele repetia no silencio do atelier:
A vida é viva..
Cerrou o volume religioso. E ficou ahli,
no divay, a pensar no pequeno cemiterio que
guardava na alma, sagrado, inviolavel a torrente da vida. A amante morta jazia no fundo
subterraneo do seu ser, no inacessivel fundo
imortal, perepne companheira para as
noites de solidao, para as horas amargas. Que
importava trahif-a? Era o corpo que trahia, a
miseria phxsiologica, um apodrecimento disfarcado de cellulas, a iutar contra o inexoravel caminho que as havia de desagregar em
sebos pestosos e gages e liquefafcoes e po no
escuro de um jazigo.
A scentelha eterna restava fiel ao compromisso assumido.
Jorge teve um sorriso illuminado e triste.
Voltava-lhe persuasiva, tentante, a suggestao
theologica de que o corpo, como a semente,
precisa apodrecer na terra para florir e fruCtificar.
Encontrara-se aquela noite com o musico
Torresvedras, sempre mudo, sempre lento, no
seu terno grosso e cor de hurro, soh um chapelao preto de artista. E pugera-se andar con
ele pelo Triangulo.
Carlos Byron regressara do Rio, onde tinha passado um me%. Assistira a um baile flugtuante, a bordo de um couracado e descrevera-lhe a festa num impressionismo: os reflexos da bahia haviam feito, de Guanabara,
Veneza a noite, vista com vidros de augmento, e os flirts nos canhoes, com officiaes ingenuos e fortes pedindo beijos as mocas...
E levara-o inutilmente aos cabarets na
roda alegre de Mario de Alfenas.
Era outro mundo o de Jorge: o mundo
que presentia
a em Torresvedras, guardando
flesouros imensos de sonoridade, de realisacao, correntes de forca, de magia, de amor,
no silencio vagaroso do seu passo, -- fechado
como a Peau-d'ane da fabula naquelle terno
ridiculo de casemira felpuda.
Foram andando e ioparam de repente no
Viaduelo com a figura desengoncada e viva,
bulicosa e espiritual do pintor Lino de Albuquerque, chegado de Paris. Era um menino
quast, nos seus vinte anos ageis e sonhadores.
Abracou-os expansivo, dizendo logo:
Vou morar aqui. Sao Paulo é estupendo! Hdntem, depois do baile no Automovel
Clubzera pura Londres. So cartolas e o fogg...
Sabem, chegou minha pequena do Rio, a Lolote...
Naquelle tumulto confiante, Jorge d'Al-
vellos reviu-se aos vinte anos na primeira
investida da vida, em Roma.
Lino contava o desembarque da mulher,
por engano, na estacao do Braz e depois fez,
num arremesso de gestos:
Estou contente. Sao Paulo é estupendo. Amanha, installo a Lolote. Vou fazer un
album intitulado "Nos bordeis da America".
estudar os Anjos da Terra, voces conhecem
essas senhoras que posam Murillo nas rotulas...
Partiu num aivoroco de risos. Ia a Rotisserie visitar uma familia.
Os dois sorriam andando, empolgados por
aquela effusao dyonisiaca, solidarios com O
artista creanca que tambem tinham sido. Mas
Jorge entristeceu-se dizendo:
Como a vida canta em ti! Como a vida
ha-de chorar dentro de ti!
Foram a um circo na Barra Funda, com
fanfarras, palhacos, trapezios, pantominas.
Voltaram a pe. Uma mulher alta e flexuosa
passou, seguiram-na. Depois deixaram-na. Tinhan chegado ao Viadugto central. Jorge veia
acompanhando o amigo. No parapeito da ponte, sobre o Anhangabahi, havia ajuntamentos
escuros. Para os lados da Luz, uma fogueira
elevava-se sobre as casas no ceu ardente. Carros de bombeiros tilintaram na distancia.
Jorge despediu-se e desceu para o quarto, murmurando:
A vida... um circo. uma mulher, um
incendio..
Compugera o pahnejamento ligeiro da
estatua de Alma, a recobrir-lhe a descarnada
nudez. E passara-a para o gesso, com outro
formador, italiano longo e triste.
Ia desnudat-a num domingo. Carlos Byron promettera levar para ver o trabalho um
critico de arte, collaborador e correspondente
de jornaes.
A estatua, ennovelada num bloco informe, fora iransportada para um pavimento isolado do Palacio que abria dois quadros de janellas largas sobre a cidade. De um lado, viase o Cambucy, panoramico, extenso, com a
sua capellinha de Lourdes em alta miniatura,
sob o ceu sereno, do outro, era a elevacao do
casario do centro, onde as lorres de pedra da
Abbadia de Sao Bento subiam direitas, no ar
lucido. Os dois trechos recortavam a nitida
manha, emmoldurando-a nas janellas.
E, numa alegria innocente, o esculptor
trabalhava.
Num veston de velludo, trazido de Roma,
pendurando-se a escada aberta, adeantava O
escalpellamento. Tinha retirado uma grande
parte da forma --e o dorso velado da figura
saltava ja, branco, numa grande harmonia
presentida.
d'Alvellos continuava, integrado
Jorge
pela primeira vez depois de desastre, na alegria de crear. O formao, dirigido pela mao
leve e certeira, revelava detalhes, compunha
trechos de movimento, tirava pedacos de vida sepultada na massa. As vezes, o esculptor
parava para arrancar as ligacoes de ferro
que cingiam todo o bloco, e partes inteiras da
forma, agora inutil, desmoronavam aos pes da
estatua.