A Escada - Bloco 15
Quim Joao tardava a aparecer. Um dia
mandou a Jorge jornais de Sao Paulo. O exilado abriu as folhas amarrotadas na travessia. Procurou o seu nome. Percorreu inutilmente as colunas cheias, soletrou as entrelinhas, releu. Parecia-lhe que o mundo devera
ter parado ante o seu comovido exilio. Como
se iludia! Em Sao Paulo, comentava-se o casamento de uma soprano celebre na Espanha; preparava-se um faustoso banquete
para a recepcao do novo embaixador argentino; demais, automoveis atropelavam criancas, soldados espancavam presos, advogados
cretinos recebiam festas de homenagem.
A ESCADA VERMELHA
Os jornais tambem nao comentavam a
gloria perene daquele mar.
E Nora? Um nevoeiro silencioso esbatialhe a figura, relegava-a ja para planos confusos. Numa incapacidade de adivinhacoes
clhando o mar, Jorge ignorava o que poderia
ter sucedido no regresso de Marcos a Sao
Paulo. Os jornais tambem nao falavam dela,
de seu calado amor, de sua candida desgraca.
Entretinha-se nas longas horas de expectativa dos transatlanticos, a conversar com
os praticos que se revezavam na lancha de
Quim Joao. O contagio daqueles homens marinhos dava-lhe o desespero dos entraves da
terra. Eles so discutiam travessias, partidas,
OSWALD DE ANDRADE
expedicoes, naufragios. E Jorge ambicionava ter aqueles olhos afeitos as incertezas, as
neblinas e aos horizontes fugidios.
A cidade humana aparecia-lhe horrivel
na sua mesquinharia de contecoes, de suplicios, de raivas, de glorias anas.
Nao compreendia mais as elegancias de
Nora no seu “boudoir" perfumoso, nem aristocracias e nem confortos.
A pedra onde se perdia dias inteiros ao
sol ou a bruma, as estrelas ou as ardentias,
parecia-lhe o suficiente abraco da terra amoravel. Para que mais?
Uma barba enruivecida enrolava-lhe o
rosto tornado moreno. Os seus musculos retezavam-se, viviam na riqueza matinal das
riatacoes.
A sua maquina fisiologica funcionava
num ritmo i
igual ao do dia sereno. Vinhalhe um desprezo pelas cruzadas cidadinas de
hipocritas devotamentos, de falsos sacrificios,
de mentirosos ideais. Os jornais que guarda-
A ESCADA VERMELHA
ra assumiam ao comentario perene do mar
largo, proporcoes de tragica comicidade. Falavam de caridade humana, afirmavam codigos de ética, bendiziam atitudes politicas envenenadas da mais cinica exploracao burguesa.
mar resava sempre nas rochas. No hocresciam as yelas mudas. E o ceu
rizonte
criava novos ocasos.
Saiu na imensa manha pela vereda de
pedras agrestes. Um passaro marinho piava
tristemente,repetidamente, na neblina. Um
inseto negro ferreteava o ar. As velas de novo alinhavam-se no horizonte quieto.
De repente, um sabia coloria a ponta de
galho baloucante. Havia pipilos, conversas de aves aquaticas e assuadas imprevistas
de bentevis no mato.
OSWALD DE ANDRADE
Uma corrdira passava. E o dia em folha,
como saido das maos da criacao, desdobrava
para o alto a asa azul, acompanhando o sol.