A Escada - Bloco 15 A Trilogia do Exílio · Capítulo 70 de 87
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A Escada - Bloco 15

Quim Joao tardava a aparecer. Um dia

mandou a Jorge jornais de Sao Paulo. O exilado abriu as folhas amarrotadas na travessia. Procurou o seu nome. Percorreu inutilmente as colunas cheias, soletrou as entrelinhas, releu. Parecia-lhe que o mundo devera

ter parado ante o seu comovido exilio. Como

se iludia! Em Sao Paulo, comentava-se o casamento de uma soprano celebre na Espanha; preparava-se um faustoso banquete

para a recepcao do novo embaixador argentino; demais, automoveis atropelavam criancas, soldados espancavam presos, advogados

cretinos recebiam festas de homenagem.

A ESCADA VERMELHA

Os jornais tambem nao comentavam a

gloria perene daquele mar.

E Nora? Um nevoeiro silencioso esbatialhe a figura, relegava-a ja para planos confusos. Numa incapacidade de adivinhacoes

clhando o mar, Jorge ignorava o que poderia

ter sucedido no regresso de Marcos a Sao

Paulo. Os jornais tambem nao falavam dela,

de seu calado amor, de sua candida desgraca.

Entretinha-se nas longas horas de expectativa dos transatlanticos, a conversar com

os praticos que se revezavam na lancha de

Quim Joao. O contagio daqueles homens marinhos dava-lhe o desespero dos entraves da

terra. Eles so discutiam travessias, partidas,

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expedicoes, naufragios. E Jorge ambicionava ter aqueles olhos afeitos as incertezas, as

neblinas e aos horizontes fugidios.

A cidade humana aparecia-lhe horrivel

na sua mesquinharia de contecoes, de suplicios, de raivas, de glorias anas.

Nao compreendia mais as elegancias de

Nora no seu “boudoir" perfumoso, nem aristocracias e nem confortos.

A pedra onde se perdia dias inteiros ao

sol ou a bruma, as estrelas ou as ardentias,

parecia-lhe o suficiente abraco da terra amoravel. Para que mais?

Uma barba enruivecida enrolava-lhe o

rosto tornado moreno. Os seus musculos retezavam-se, viviam na riqueza matinal das

riatacoes.

A sua maquina fisiologica funcionava

num ritmo i

igual ao do dia sereno. Vinhalhe um desprezo pelas cruzadas cidadinas de

hipocritas devotamentos, de falsos sacrificios,

de mentirosos ideais. Os jornais que guarda-

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ra assumiam ao comentario perene do mar

largo, proporcoes de tragica comicidade. Falavam de caridade humana, afirmavam codigos de ética, bendiziam atitudes politicas envenenadas da mais cinica exploracao burguesa.

mar resava sempre nas rochas. No hocresciam as yelas mudas. E o ceu

rizonte

criava novos ocasos.

Saiu na imensa manha pela vereda de

pedras agrestes. Um passaro marinho piava

tristemente,repetidamente, na neblina. Um

inseto negro ferreteava o ar. As velas de novo alinhavam-se no horizonte quieto.

De repente, um sabia coloria a ponta de

galho baloucante. Havia pipilos, conversas de aves aquaticas e assuadas imprevistas

de bentevis no mato.

OSWALD DE ANDRADE

Uma corrdira passava. E o dia em folha,

como saido das maos da criacao, desdobrava

para o alto a asa azul, acompanhando o sol.

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