A Escada - Bloco 08
Bastava haver um toque subito de clarim na noite evocativa.
Jorge comovia-se num grande respeito
ante a ressurreicao cristalizada de Alma. Ela
ficara esperando-o ali, no local eleito do drama. Habitava a casa alta, assombrando-a num
calado beneficio, para quando ele passasse
na renovada via-sacra da vida.
Foi andando como antigamente.
A fanfarra amorteceu no brum-brumbrum das caixas sonoras que um pesado crepe envolvia. E ia dizendo:
A boneca morreu. Escuta o funeral
dos tambores!
Um e outro entusiasmo novo e amigo
trazia-lhe o eco longamente frustrado das
aclamacoes.
Insensivelmente o seu animo mudava.
Uma claridade tomava-o a pouco e pouco e
OSWALD DE ANDRADE
com ela vinha uma ja esquecida capacidade de
dionisismo. Surpreendia-se a cantar cancoes
dos vinte anos.
Mas uma minima contrariedade gelava-o.
Vinha-lhe a vigilancia magoada a recordacao
de tudo o que tivera e de tudo o que perdera.
Voltava-lhe a visao das justicas impassiveis
que o haviam desnudado de beneficios, tudo
o que era seu e que lhe tinham tirado.
A esperanca falava de novo. Mas era a
esperanca timorata dos desiludidos.
As vezes um perfil de mulher ou de crianca assustava-o. Uma recordacao afirmavase por um nome —— Mary Beatriz, Alma, as outras, as perdidas no longinquo passado, as
que a primeira eclosao da existencia tinha
feito vir pelos caminhos do amor.
Jorge fora uma explosao de energias ciclopicas, invertera destinos nas maos de modelador, destruira tranquilidades para sempre,
quebrara apaixonadas resistencias e fizera
dos seus anos iniciais um dominado tumulto
de lagrimas hostis.
A EsCADA VERMELHA
A vida depois modelara-lhe o torso, implacavel justiceira.
Encontrara num jornal o anuncio de um
pavilhao isolado numa chacara de Sant'Ana,
chamada O Clarim.
Fora incumbido de compor os relevos de
um teatro novo. Mudou-se para o arrabalde.
Na vivenda morava um agricultor maniaco,
de barbas pretas, com a mulher Rita e sua
cunhada de quinze anos - Gulnare.
Tivera um reinicio de vida nova com a
alegria de comer a horas certas a mesa dos
Castro. A comida simples como a conversa
reanimava-o infantilmente!
OSWALD DE ANDRADE
Isolava-se no pavilhao dos fundos durante o dia. E assim, insulado, num eco de reminiscencias, a pata longa das tragedias vinha
encosta-lo a parede do destino.
Sentia uma penetracao suave na presenca de Gulnare.
Ama-la-ia?
Um contacto simples da mao, um interessado riso, um grato gesto punham-lhe beneficios incalculaveis na alma voltada a se.
Uma prolongada indiferenca, um acento
incontido de colera, num brinquedo, faziamno bater os dentes no silencio claro da grande sala onde trabalhava.
Gulnare parecia te-lo abandonado
nas
longas noites inuteis.
Ele saiu, rodou, foi as redacoes onde tinha amigos.
A ESCADA VERMELHA
Sentou-se para cear a um restaurante noturno, comeu numa represalia a vida funesta.
Nao tinha nada mais senao a animalidade a
satisfazer. O amor negado transformava-lhe
a vida num horario de bestialidades.
Regressou & Sant'Ana num taxi.
A ma digestao pos-lhe fantasmas no quarto. Gulnare toda de branco avancava para ele
de punhos terriveis, outra, diversa.