A Escada - Bloco 08 A Trilogia do Exílio · Capítulo 63 de 87
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A Escada - Bloco 08

Bastava haver um toque subito de clarim na noite evocativa.

Jorge comovia-se num grande respeito

ante a ressurreicao cristalizada de Alma. Ela

ficara esperando-o ali, no local eleito do drama. Habitava a casa alta, assombrando-a num

calado beneficio, para quando ele passasse

na renovada via-sacra da vida.

Foi andando como antigamente.

A fanfarra amorteceu no brum-brumbrum das caixas sonoras que um pesado crepe envolvia. E ia dizendo:

A boneca morreu. Escuta o funeral

dos tambores!

Um e outro entusiasmo novo e amigo

trazia-lhe o eco longamente frustrado das

aclamacoes.

Insensivelmente o seu animo mudava.

Uma claridade tomava-o a pouco e pouco e

OSWALD DE ANDRADE

com ela vinha uma ja esquecida capacidade de

dionisismo. Surpreendia-se a cantar cancoes

dos vinte anos.

Mas uma minima contrariedade gelava-o.

Vinha-lhe a vigilancia magoada a recordacao

de tudo o que tivera e de tudo o que perdera.

Voltava-lhe a visao das justicas impassiveis

que o haviam desnudado de beneficios, tudo

o que era seu e que lhe tinham tirado.

A esperanca falava de novo. Mas era a

esperanca timorata dos desiludidos.

As vezes um perfil de mulher ou de crianca assustava-o. Uma recordacao afirmavase por um nome —— Mary Beatriz, Alma, as outras, as perdidas no longinquo passado, as

que a primeira eclosao da existencia tinha

feito vir pelos caminhos do amor.

Jorge fora uma explosao de energias ciclopicas, invertera destinos nas maos de modelador, destruira tranquilidades para sempre,

quebrara apaixonadas resistencias e fizera

dos seus anos iniciais um dominado tumulto

de lagrimas hostis.

A EsCADA VERMELHA

A vida depois modelara-lhe o torso, implacavel justiceira.

Encontrara num jornal o anuncio de um

pavilhao isolado numa chacara de Sant'Ana,

chamada O Clarim.

Fora incumbido de compor os relevos de

um teatro novo. Mudou-se para o arrabalde.

Na vivenda morava um agricultor maniaco,

de barbas pretas, com a mulher Rita e sua

cunhada de quinze anos - Gulnare.

Tivera um reinicio de vida nova com a

alegria de comer a horas certas a mesa dos

Castro. A comida simples como a conversa

reanimava-o infantilmente!

OSWALD DE ANDRADE

Isolava-se no pavilhao dos fundos durante o dia. E assim, insulado, num eco de reminiscencias, a pata longa das tragedias vinha

encosta-lo a parede do destino.

Sentia uma penetracao suave na presenca de Gulnare.

Ama-la-ia?

Um contacto simples da mao, um interessado riso, um grato gesto punham-lhe beneficios incalculaveis na alma voltada a se.

Uma prolongada indiferenca, um acento

incontido de colera, num brinquedo, faziamno bater os dentes no silencio claro da grande sala onde trabalhava.

Gulnare parecia te-lo abandonado

nas

longas noites inuteis.

Ele saiu, rodou, foi as redacoes onde tinha amigos.

A ESCADA VERMELHA

Sentou-se para cear a um restaurante noturno, comeu numa represalia a vida funesta.

Nao tinha nada mais senao a animalidade a

satisfazer. O amor negado transformava-lhe

a vida num horario de bestialidades.

Regressou & Sant'Ana num taxi.

A ma digestao pos-lhe fantasmas no quarto. Gulnare toda de branco avancava para ele

de punhos terriveis, outra, diversa.

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