A Estrella de Absyntho - Bloco 07
Jorge deu dinheiro e cigarros ao soldado
hespanhol, pediu-lhe que prestasse toda a
attencao ao sobrado de rotulas,voltaria na
noite seguinte. E nunca mais voltou.
Alma, entretanto, tratava-o como se nada houvesse acontecido. A experiencia escudara-a contra o amor envolvente do artista: tinha por ele um sentimento crescente,
tivera apenas
de curiosidade e no comeco
uma resolucao de volupia. A's vezes, mostrava-se enternecida ante aquele aniquilamento
pertinaz.
Certa noite,voltara uma crise da velha
annexfite e pedira-lhe que arranjasse uma
creada. E havia apparecido uma mulher sem
edade, vindo como eles das areias de Areias.
Chamava-se Milagre e tinha o corpo como o
-corpo de Alma.
esculptor deixara de espional-a para,
numa obsessao delirante, surprehender e descobrir o homem gue lhe arrafara a vida.
Passou tardes e tardes guardando a casa da
Rua da Boa Morte. Era fevereiro, fazia um
grande sol. E uma vez ele viu, num passo
desprevenido e largo, approximar-se um rapaz delgado, lenco a fluetuar, chapeu de palha enterrado exageradamente na testa, a
defender o rosto da luz crua. O desconhecido
passou sem o ver: tinha a barba azulada a
navalha e uma esplendida boeca bem rasgada, sob bigodes negros e curtos. Alma dissera-lhe uma vez sorrindo:— Se soubesses
como é bella a boeca de Dom Juan!
O rapaz parou em frente a casa baixa,
tirou um molho de chaves que luziram, deu
volta a fechadura, entrou.
E Jorge passou a encontralfo quasr todos os dias. Era um typo do Triangulo. Fixava-lhe de longe o porte fino sob chapeus elegantes, a gingar sozinho pelas ruas centraes;
e acompanhava-o como um paranoico perdido na sua idea fixa. Disfarcava para nao ser
visto e seguia-o e andava, procurando darse uma grave missao de castigador e subito
achando, num paradoxo infernal, razoes para
applaudir a proprio derrota.
Um dia, estava no Viaducto de Santa
Ephigenia quando o desconhecido passou.
Dois homens comentavam-no.
— O Arthur... do escriptorio da Brasileira, secretario dos Bandeirantes de Momo...
Era esse o homem que lhe infernara a
um empregadinho que sabia
existencia
dansar, um secretario de club carnavalesco...
E parava sempre nas cercanias da casa
baixa afim de encontral-o. O desconhecido sahia, arrastava-o como um iman. Mas ruas
cheias de movimento, la ia Jorge d'Alvellos
sonhando, atraz do outro que sonhava. Procurava nos menores detalhes, uma ida ao
Correio, um bonde tomado, reconstruir, adivinhar, compor aquela vida errante. Quando
o homem parava num encontro de amigos,
approximava-se para escutar-lhe o timbre da
voz, para apprehender-lhe ideas, phrases...
Via-o sempre rir muito, rir com a bella bocca de bellos dentes.
A figura do malandro de grande cidade
acabou por seduzir o artista. Una vez, Jorge
surprehendeu-se parado, num borborinho de
praca, que o outro atravessara no seu passo
de tango, a murmurar:
— E' o irmao bohemio della.. .
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A corrida das semanas e dos meges acalmara lentamente a dor irritada do esculptor.
Alma fora se tornando gentil, carinhosa. Efle
mostrara-lhe, certa vez, uma pkotographia risonha de Mary Beatriz, no caes de pedra do
Lungotevere. E, com delicia, sentiu ela eniristecer.
Una tarde de prolongado amor sereno
em que os dois haviam partido de automovel
ate a lagoa cor de sangue do Engordador,
pelo caminho silvestre e sinuoso, ela lhe disse, mao na mao:
me surprehendeste aquela
Quando
tarde, sentf que apetar-da tua magua, csperavas ainda em mim.
E contou-lhe ent&o a modificacao que lhe
impuera, dia a dia, noite a noite, o seu tragico desalento.
A destruicao das estatuas! A transformacao da "Fonte da Vida"... Nao imaginas,
Jorge, o que foi para mim o teu atelier devastado!
O artista que num esforco colerico tentara reatar o romance deixado ein Roma,
vira de novo esvair-se, perder-se, a lembranca da artista. Alma empolgava-o numa domi-
nacao de sentidos e de cerebro que o levava
a um estado de beatitude quasi imbecil.
A's vezes, no emtanto, reabria-lhe de um
golpe a intima ferida. Uma noite, disse-lhe:
- Porque os homens hao-de ter sempre
as mesmas palavras de espasmo? Sao grosseiros..
Ele reviu num segundo a posse della
pelo outro e calou-se numa doida revolta.
Nesses momentos, procurava um preteto e sahia a pe na diredcao da casa de Mario
Hon num palacete da Praca da Republica.
Outras vezes, ia ate a Avenida Sao Joao para
fechar-se em seu quarto, sentindo que fugia
a vida como a um imenso castigo. Ficava
a ler, a fumar, a pensar e passava a noite
sem somno. Duas manhas, Alma viera reconciliar-se no seu manto esbelto de inverno; despira-se e deitara-se com ele ate dia alto. Mas
outra vez,brigaram rudemente, sem dizer
palavra, ela vestiu-se e salfiu. AF tarde, ele
encontrou-a distrahida e aspera, irritou-se,
perguntou-lhe se tinha visto o homenzinho
do Carnaval.
Encontrei-o ao deixar a tua casa.
A npite esbocou-se insupportavel para
ambos. Ele convidou-a a ir a um teatro.
Ela enfiou um vestido que ele lhe dera:
a blusa justa em setim negro, sem mangas, a
a da mesma cor com flores largas
tunica
de ouro. E nas meias de cinza ate em cima,
fechou as ligas monogrammadas, ficou de pé
sobre sapatos de setim negro coin fiveloes
ardentes.
Subito uma rusga tragica estourou. Nao
iriam mais.
Ele pog o feltro e, antes de salir, pediulhe um pouco de Pernod: fazia frio la fora,
ia longe.
Ela atirou para uma cadeira o chapeu
imenso, foi buscar a garrafa verde e bojuda que gastavam habitualmente e virou,sobre um copo esguio, a botelha de crystal com
agua.
Sentia-se la dentro Milagre arrumar. Jorge pensou ainda em beijar a amante. Ela esbofeteou-o num impeto hysterico. Ele ia espezinhal-a no vestido, mas preferiu partir.
A sahida, escorregou na lama da calcada. A rua, em concertos de illuminacao, levantava ao seu longo pedras empilhadas e
montes de terra solta; uma lanterna vermelha indicava o comeco da eXcavacao urbana.
Ele rodou longamente sem rumo, pelas
travessas abandonadas do bairro. Seriam nove horas apenas. Gente desprevenida passava: soldados, midinettes, homens do povo. A
uma esquina, Jorge parou, pensando que nao
tinha destino. Iria para o seu quarto ser de
novo roido pela propria desventura.
Alma
nao se corrigia, nao perdia as antigas maneiras suspeitas, nao comprehendia que o seu
martyrio ia longe demais.
Absorto,fez sem sentir o estirao da Rua
da Gloria, ate o Largo da Sé. Esbarrou num
antigo collega de Seminario em Pirapora,
sempre muito effusivo e cortez. O rapaz pediu-lhe noticias do avo fallecido,e confundindo tudo, informou-se se continuava a estudar pintura em Paris.Jorge desembaracou-se molestado, cortou pelo lado mais deserto e dahi a pouco fazia subir o elevador
do sobrado de comodos da Avenida Sao
Joao.
Nao teve coragem de despir-se. Po& apenas o paletof grosso do pijama, guarnecido
de alamares. Deitou-se com os bracos sob a
cabeca e mergulhou no seu sonho obsecante.
Eram onze horas quando lhe vieram bater a
porta, apressou-se em abrir. Entrou Bruno de
Alfenas que tinha quarto no mesmo andar.
Vira luz e viera visital-b.
A conversa rolou futil e desinteressante,
pouco alimentada pela frieza polida do esculptor. Bruno obstinava-se em falar da vida
frivola da sociedade interlope de que fazia
parte: o jazz da Rotisserie, umas meninas
esplendidas que descobrira com o barao hungaro de Kaseliz numa travessa do Arouche,
as ultimas piadas do joviqlissimo Barrinhos,
o Mendes gordo que trouxera da Europa uma
voiturette Mercedes de ultimo modelo.