A Estrella de Absyntho - Bloco 07 A Trilogia do Exílio · Capítulo 34 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 07

Jorge deu dinheiro e cigarros ao soldado

hespanhol, pediu-lhe que prestasse toda a

attencao ao sobrado de rotulas,voltaria na

noite seguinte. E nunca mais voltou.

Alma, entretanto, tratava-o como se nada houvesse acontecido. A experiencia escudara-a contra o amor envolvente do artista: tinha por ele um sentimento crescente,

tivera apenas

de curiosidade e no comeco

uma resolucao de volupia. A's vezes, mostrava-se enternecida ante aquele aniquilamento

pertinaz.

Certa noite,voltara uma crise da velha

annexfite e pedira-lhe que arranjasse uma

creada. E havia apparecido uma mulher sem

edade, vindo como eles das areias de Areias.

Chamava-se Milagre e tinha o corpo como o

-corpo de Alma.

esculptor deixara de espional-a para,

numa obsessao delirante, surprehender e descobrir o homem gue lhe arrafara a vida.

Passou tardes e tardes guardando a casa da

Rua da Boa Morte. Era fevereiro, fazia um

grande sol. E uma vez ele viu, num passo

desprevenido e largo, approximar-se um rapaz delgado, lenco a fluetuar, chapeu de palha enterrado exageradamente na testa, a

defender o rosto da luz crua. O desconhecido

passou sem o ver: tinha a barba azulada a

navalha e uma esplendida boeca bem rasgada, sob bigodes negros e curtos. Alma dissera-lhe uma vez sorrindo:— Se soubesses

como é bella a boeca de Dom Juan!

O rapaz parou em frente a casa baixa,

tirou um molho de chaves que luziram, deu

volta a fechadura, entrou.

E Jorge passou a encontralfo quasr todos os dias. Era um typo do Triangulo. Fixava-lhe de longe o porte fino sob chapeus elegantes, a gingar sozinho pelas ruas centraes;

e acompanhava-o como um paranoico perdido na sua idea fixa. Disfarcava para nao ser

visto e seguia-o e andava, procurando darse uma grave missao de castigador e subito

achando, num paradoxo infernal, razoes para

applaudir a proprio derrota.

Um dia, estava no Viaducto de Santa

Ephigenia quando o desconhecido passou.

Dois homens comentavam-no.

— O Arthur... do escriptorio da Brasileira, secretario dos Bandeirantes de Momo...

Era esse o homem que lhe infernara a

um empregadinho que sabia

existencia

dansar, um secretario de club carnavalesco...

E parava sempre nas cercanias da casa

baixa afim de encontral-o. O desconhecido sahia, arrastava-o como um iman. Mas ruas

cheias de movimento, la ia Jorge d'Alvellos

sonhando, atraz do outro que sonhava. Procurava nos menores detalhes, uma ida ao

Correio, um bonde tomado, reconstruir, adivinhar, compor aquela vida errante. Quando

o homem parava num encontro de amigos,

approximava-se para escutar-lhe o timbre da

voz, para apprehender-lhe ideas, phrases...

Via-o sempre rir muito, rir com a bella bocca de bellos dentes.

A figura do malandro de grande cidade

acabou por seduzir o artista. Una vez, Jorge

surprehendeu-se parado, num borborinho de

praca, que o outro atravessara no seu passo

de tango, a murmurar:

— E' o irmao bohemio della.. .

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A corrida das semanas e dos meges acalmara lentamente a dor irritada do esculptor.

Alma fora se tornando gentil, carinhosa. Efle

mostrara-lhe, certa vez, uma pkotographia risonha de Mary Beatriz, no caes de pedra do

Lungotevere. E, com delicia, sentiu ela eniristecer.

Una tarde de prolongado amor sereno

em que os dois haviam partido de automovel

ate a lagoa cor de sangue do Engordador,

pelo caminho silvestre e sinuoso, ela lhe disse, mao na mao:

me surprehendeste aquela

Quando

tarde, sentf que apetar-da tua magua, csperavas ainda em mim.

E contou-lhe ent&o a modificacao que lhe

impuera, dia a dia, noite a noite, o seu tragico desalento.

A destruicao das estatuas! A transformacao da "Fonte da Vida"... Nao imaginas,

Jorge, o que foi para mim o teu atelier devastado!

O artista que num esforco colerico tentara reatar o romance deixado ein Roma,

vira de novo esvair-se, perder-se, a lembranca da artista. Alma empolgava-o numa domi-

nacao de sentidos e de cerebro que o levava

a um estado de beatitude quasi imbecil.

A's vezes, no emtanto, reabria-lhe de um

golpe a intima ferida. Uma noite, disse-lhe:

- Porque os homens hao-de ter sempre

as mesmas palavras de espasmo? Sao grosseiros..

Ele reviu num segundo a posse della

pelo outro e calou-se numa doida revolta.

Nesses momentos, procurava um preteto e sahia a pe na diredcao da casa de Mario

Hon num palacete da Praca da Republica.

Outras vezes, ia ate a Avenida Sao Joao para

fechar-se em seu quarto, sentindo que fugia

a vida como a um imenso castigo. Ficava

a ler, a fumar, a pensar e passava a noite

sem somno. Duas manhas, Alma viera reconciliar-se no seu manto esbelto de inverno; despira-se e deitara-se com ele ate dia alto. Mas

outra vez,brigaram rudemente, sem dizer

palavra, ela vestiu-se e salfiu. AF tarde, ele

encontrou-a distrahida e aspera, irritou-se,

perguntou-lhe se tinha visto o homenzinho

do Carnaval.

Encontrei-o ao deixar a tua casa.

A npite esbocou-se insupportavel para

ambos. Ele convidou-a a ir a um teatro.

Ela enfiou um vestido que ele lhe dera:

a blusa justa em setim negro, sem mangas, a

a da mesma cor com flores largas

tunica

de ouro. E nas meias de cinza ate em cima,

fechou as ligas monogrammadas, ficou de pé

sobre sapatos de setim negro coin fiveloes

ardentes.

Subito uma rusga tragica estourou. Nao

iriam mais.

Ele pog o feltro e, antes de salir, pediulhe um pouco de Pernod: fazia frio la fora,

ia longe.

Ela atirou para uma cadeira o chapeu

imenso, foi buscar a garrafa verde e bojuda que gastavam habitualmente e virou,sobre um copo esguio, a botelha de crystal com

agua.

Sentia-se la dentro Milagre arrumar. Jorge pensou ainda em beijar a amante. Ela esbofeteou-o num impeto hysterico. Ele ia espezinhal-a no vestido, mas preferiu partir.

A sahida, escorregou na lama da calcada. A rua, em concertos de illuminacao, levantava ao seu longo pedras empilhadas e

montes de terra solta; uma lanterna vermelha indicava o comeco da eXcavacao urbana.

Ele rodou longamente sem rumo, pelas

travessas abandonadas do bairro. Seriam nove horas apenas. Gente desprevenida passava: soldados, midinettes, homens do povo. A

uma esquina, Jorge parou, pensando que nao

tinha destino. Iria para o seu quarto ser de

novo roido pela propria desventura.

Alma

nao se corrigia, nao perdia as antigas maneiras suspeitas, nao comprehendia que o seu

martyrio ia longe demais.

Absorto,fez sem sentir o estirao da Rua

da Gloria, ate o Largo da Sé. Esbarrou num

antigo collega de Seminario em Pirapora,

sempre muito effusivo e cortez. O rapaz pediu-lhe noticias do avo fallecido,e confundindo tudo, informou-se se continuava a estudar pintura em Paris.Jorge desembaracou-se molestado, cortou pelo lado mais deserto e dahi a pouco fazia subir o elevador

do sobrado de comodos da Avenida Sao

Joao.

Nao teve coragem de despir-se. Po& apenas o paletof grosso do pijama, guarnecido

de alamares. Deitou-se com os bracos sob a

cabeca e mergulhou no seu sonho obsecante.

Eram onze horas quando lhe vieram bater a

porta, apressou-se em abrir. Entrou Bruno de

Alfenas que tinha quarto no mesmo andar.

Vira luz e viera visital-b.

A conversa rolou futil e desinteressante,

pouco alimentada pela frieza polida do esculptor. Bruno obstinava-se em falar da vida

frivola da sociedade interlope de que fazia

parte: o jazz da Rotisserie, umas meninas

esplendidas que descobrira com o barao hungaro de Kaseliz numa travessa do Arouche,

as ultimas piadas do joviqlissimo Barrinhos,

o Mendes gordo que trouxera da Europa uma

voiturette Mercedes de ultimo modelo.

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