A Estrella de Absyntho - Bloco 03 A Trilogia do Exílio · Capítulo 30 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 03

Alma nao deixaria nunca de amar

esse homem.

Apparecia-lhe agora, alli, naque!la estacao pequena de hinterland brasileiro, pela

primeira vez. Nao se perturbara um instante; nem por um instante deixara a sua linha

sinistra e glacial.

E Jorge sentira o olhar vendido de Alma, na partida.

Encnntraste-o por accaso?

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Nao sei.

Mandaste-lhe dizer que ias so.

Nao tive por quem mandar dizer..

Que importa? E' um covarde.

Calaram-se. Os mocos loiros ccnversavam em inglez. O trem corria.

Que vem ele fazer aí?

Tem amigos.

Nunca anda so.

Medo de ti..

Nao tive delle. Provoquei-o, esharreime nelle. Estava acompanhado, podia atacar-me.

Quem sabe se nos acompanha?

Melhor! Verei ate a proxima estacao.

Quis levantar-se. Alma reteve-o com

forca.

Nao quero, Jorge.

Dizes que tenho medo.

Exijo que fiques.

Mas porque?

Porque te amo.

Jura que o nao avisaste da viagem.

Juro.

Por quem?

Pelo Senhor de Pirapora.

E's capaz de ir jurar no sangtuario?

Irei. Nao vim para ver Camilla. Quero cumprir uma promessa que fiz...

E accrescentou:

Na festa de amanha..

Jorge recordou pensativo e incredulo a

romaria de Agosto em Pirapora.

Levantou-se. Foi ate ao fundo do comboio. Nos ajuntamentos, nos carros, ate os

dormitorios fechados, procurou inutilmente a

silhueta encapotada de Mauro Gladc. Veltou.

Alma esperava-o de pe, no estribo do carro.

- Creio que ficou...

Ela, entao, num persuasivo silencio felo

ceder. Iriam pela manha, a Pirapora.

Tinham chegado a Baruery. Desceram. O

trem partiu fazendo vacillar a lanterna vermelha do ultimo carro, pela escuridao da linha. Jorge examinou detidamente o: yassageiros desembarcados na plataforma minuscula.

Para dormir, pediram informacoes. Um

menino grande e sujo acompanhou-cs longe,

pela villa nogturna plantada na brutaiidade.

Havia uma casa aberta, numa esirada

ladeirosa. Deram-lhes um quarto ao fundo,

abrindo duas janellas acima de un paredao

a pique. Para la do quintalejo, em baixo, comecava o valle negro ate bater no rio, leguas

alem. Havia'lua no ceu distante,uina lua

amorrhia, entre nuvens esfarrapadas. Do astro doente, cahiam reflexos na terra norta.

Alma fechara a luz. Perdido a janella,

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Jorge d'Alvellos contemplava fora a noite

magica.

A serrania invisivel e crestada parecia

constituir na distancia infinita um fundo de

palco. A lua sobre ela despencava tycatralmente. Apagaram-se um a um os rcflexos.

Uma coruja gargalhou, voando perto da casa, no escuro. La em baixo, um trem desenvolveu-se, passou, desappareceu, trecho rascante da terra desaccordada. E ficou tudo

imenso e cor de nankim.

As rodas do trol

mordiam o tijuco da

estrada. Aquele morro calvo e negro, ele ja

o vira, com emocao, quando o tinham frazido para o collegio. E o rio, matinal e sagrado, como outrora, sobre as pedras vivas, junto a ponte. Era uma grande ponte, outrora..

Um ajuntamento colorido de feira graThava na lama extensa da rua principal. Mulheres mascaradas de gesso, prostitulas de

Sao Paulo, familias ingenuas, negras de trunfa. E o batuque guerreiro na sombra do samba media, por cima de tudo, o tambor secco,

egual, com o caracaxa e o ribombo longinquo do bombo. Era Pirapora.

E como Alma quifesse regressar, Jorge

teve impetos de matal-a na agitacao rumorosa do hotel.

Fizeste esta viagem, entao, para que?

Para vei-b somente, para encontral-o?

E desejo voltar porque nao quero

vel-o, nao quero encontral-o.

Ele combinou vir até ca!..

Ela nao disse nada. Jorge ergueu-se do

leito numa rapida suspeita. Mauro era audacioso. Se tivesse chegado agora no automovel que acabava de cortar, sob a janella, a

rua alacre...

Deixou o quarto. Dirigiu-se para a sala

de entrada. A porta, um empregado encostava-se mollemente. Sentou-se a una cadeira

de balanco,abriu um jornal e dirigindo-se

ao homem:

Novos hospedes?

Nao senhor.

Passaram-se minutos longos. Jorge foi

ver a rua. Barracas de turcos, onde camelots

enrouqueciam, punham nos balcoes e nas lendas velas de cera, rosarios, quadros, ex-votos.

Um cavalleiro festivo passou por entre gritos exagerados da turba.

Jorge d'Alvellos sentou-se numa crescente andiedade. Um automovel estacara

frente ao hotel. O empregado agitou-se. Desceram malas. E sereno, bem installado, numa

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roupa de brim, subiu os dois degraus cc entrada, um fazendeiro de barbicha e ccrrente

de ouro no conlete.

-Bom dia!

Bom dia!

O homem foi-se com o empregado. Mauro podia estar em outro hotel. Jorge veio ler

ma?hinalmente o jornal, dobrou-o num gesto. Na sala, havia um espelho ao centro da

parede, ladeado por pantomimas oleographicas com indios e portuguezes.

Foi tomar o chapeu no quarto, onde Alma permanecia, recurva no leito, lendo um

volume rasgado.

Andara na multidao. Penetrou de repente

da Sala das Gracas, em frente

Tgda a humanidade como que se ppotographara para encher aquelas paredes enormes.

Tomou o caminho do Barracao dcs Romeiros. Era o mesmo antigo hangar de caliolhos furados de janellas. Encom

ca,

trou esbarrando nun negro cow-boy, herculeo e risonho, que levava nos homhrcs uma

creanca linda.

Gente cafuza espalhava-se no chao por

cohertores vermelhos e pallidas estciras, rodeando os pilares quadrados. Um pandeiro

invisivel batia um fremito de azas metallicas. Uma dansarina preta, de olhos cerrados,

atravancava a passagem numa roda cstabe-

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lecida por um grande bombo reteso. Ao lado,

um aleijado de cavaignae sustido em muletas, tinia o caracaxa. Ela ia e vinha, de passos meudos, de gala e de offerta.

No andar de cima, mysteriosa e inflexivel, desconnexa e rapida, passava a luxuria

religiosa, esganicando-se em bandos lubricos,

em bandos ardentes, em bandos triumphaes.

E subito, o artista descobriu, no clamor, um

anao de ebano grudado a uma menina branca e caolha, num remeximento desccmpassado de copula, para o onanismo sensacional

de redor.

Estava na lama da rua, indeciso de novo. Um sino feriu uma pancada forte e tremula na torre enorme. Fez a volta do templo,

recordando. Regressou ao hotel: o empregado encontrava-se de novo a porta.

Temos um pedido para a noite..

Quem é?

Um casal.

Como ficasse sentado longamenle, nao

tendo animo de ir ao quarto, onde cahiria

sem solucao no drama que o dilaccrava,o

homem falou-lhe:

O senhor veiu cumprir promessa?

-E'.

Jorge pensou em tomar informacoes a

respeito de Mauro, talvez fosse conhcciao alli,

mas achou-se ridiculo e perguntou quem era

o senhor que tinha chegado.

- Fazendeiro em Sao Simao. Ja no tempo da defunta D. Augusta, ele vinha visitar

o Senhor Bom Jesus.

Uma vontade saudosa apertou-o. Porque

nao iria la em cima ao collegio da meninice?

Porque nao se dissolveria no chamado das

oracoes?

Do Brasil todo, corriam para alli. numa

confianca secuiar, os paes, as mamaes, as mulheres salvas de maus transes, os hoinens que

tinham tido dramas na vida. Vinham todos

inundar a Sala das Gracas de pnotogiaphias

ate o tecto, rostos de cera, maos, torsos, pinturas ingenuas de chagas.

A imagem das

aguas,o Senhor dadivoso, de grandes palpebras erguidas sobre o fulgor de, eternidades, inundava-os

de soccorros invisiveis. E ele? Como vcltara

ate o sanetuario?

Tinham sahido para fora, onde o samba

dos homens se' despedacava sob o samba das

estrellas. A lua dansava muito negra ro espaco. E o rio, espumoso e nodturno, darsava.

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