A Estrella de Absyntho - Bloco 03
Alma nao deixaria nunca de amar
esse homem.
Apparecia-lhe agora, alli, naque!la estacao pequena de hinterland brasileiro, pela
primeira vez. Nao se perturbara um instante; nem por um instante deixara a sua linha
sinistra e glacial.
E Jorge sentira o olhar vendido de Alma, na partida.
Encnntraste-o por accaso?
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Nao sei.
Mandaste-lhe dizer que ias so.
Nao tive por quem mandar dizer..
Que importa? E' um covarde.
Calaram-se. Os mocos loiros ccnversavam em inglez. O trem corria.
Que vem ele fazer aí?
Tem amigos.
Nunca anda so.
Medo de ti..
Nao tive delle. Provoquei-o, esharreime nelle. Estava acompanhado, podia atacar-me.
Quem sabe se nos acompanha?
Melhor! Verei ate a proxima estacao.
Quis levantar-se. Alma reteve-o com
forca.
Nao quero, Jorge.
Dizes que tenho medo.
Exijo que fiques.
Mas porque?
Porque te amo.
Jura que o nao avisaste da viagem.
Juro.
Por quem?
Pelo Senhor de Pirapora.
E's capaz de ir jurar no sangtuario?
Irei. Nao vim para ver Camilla. Quero cumprir uma promessa que fiz...
E accrescentou:
Na festa de amanha..
Jorge recordou pensativo e incredulo a
romaria de Agosto em Pirapora.
Levantou-se. Foi ate ao fundo do comboio. Nos ajuntamentos, nos carros, ate os
dormitorios fechados, procurou inutilmente a
silhueta encapotada de Mauro Gladc. Veltou.
Alma esperava-o de pe, no estribo do carro.
- Creio que ficou...
Ela, entao, num persuasivo silencio felo
ceder. Iriam pela manha, a Pirapora.
Tinham chegado a Baruery. Desceram. O
trem partiu fazendo vacillar a lanterna vermelha do ultimo carro, pela escuridao da linha. Jorge examinou detidamente o: yassageiros desembarcados na plataforma minuscula.
Para dormir, pediram informacoes. Um
menino grande e sujo acompanhou-cs longe,
pela villa nogturna plantada na brutaiidade.
Havia uma casa aberta, numa esirada
ladeirosa. Deram-lhes um quarto ao fundo,
abrindo duas janellas acima de un paredao
a pique. Para la do quintalejo, em baixo, comecava o valle negro ate bater no rio, leguas
alem. Havia'lua no ceu distante,uina lua
amorrhia, entre nuvens esfarrapadas. Do astro doente, cahiam reflexos na terra norta.
Alma fechara a luz. Perdido a janella,
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Jorge d'Alvellos contemplava fora a noite
magica.
A serrania invisivel e crestada parecia
constituir na distancia infinita um fundo de
palco. A lua sobre ela despencava tycatralmente. Apagaram-se um a um os rcflexos.
Uma coruja gargalhou, voando perto da casa, no escuro. La em baixo, um trem desenvolveu-se, passou, desappareceu, trecho rascante da terra desaccordada. E ficou tudo
imenso e cor de nankim.
As rodas do trol
mordiam o tijuco da
estrada. Aquele morro calvo e negro, ele ja
o vira, com emocao, quando o tinham frazido para o collegio. E o rio, matinal e sagrado, como outrora, sobre as pedras vivas, junto a ponte. Era uma grande ponte, outrora..
Um ajuntamento colorido de feira graThava na lama extensa da rua principal. Mulheres mascaradas de gesso, prostitulas de
Sao Paulo, familias ingenuas, negras de trunfa. E o batuque guerreiro na sombra do samba media, por cima de tudo, o tambor secco,
egual, com o caracaxa e o ribombo longinquo do bombo. Era Pirapora.
E como Alma quifesse regressar, Jorge
teve impetos de matal-a na agitacao rumorosa do hotel.
Fizeste esta viagem, entao, para que?
Para vei-b somente, para encontral-o?
E desejo voltar porque nao quero
vel-o, nao quero encontral-o.
Ele combinou vir até ca!..
Ela nao disse nada. Jorge ergueu-se do
leito numa rapida suspeita. Mauro era audacioso. Se tivesse chegado agora no automovel que acabava de cortar, sob a janella, a
rua alacre...
Deixou o quarto. Dirigiu-se para a sala
de entrada. A porta, um empregado encostava-se mollemente. Sentou-se a una cadeira
de balanco,abriu um jornal e dirigindo-se
ao homem:
Novos hospedes?
Nao senhor.
Passaram-se minutos longos. Jorge foi
ver a rua. Barracas de turcos, onde camelots
enrouqueciam, punham nos balcoes e nas lendas velas de cera, rosarios, quadros, ex-votos.
Um cavalleiro festivo passou por entre gritos exagerados da turba.
Jorge d'Alvellos sentou-se numa crescente andiedade. Um automovel estacara
frente ao hotel. O empregado agitou-se. Desceram malas. E sereno, bem installado, numa
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roupa de brim, subiu os dois degraus cc entrada, um fazendeiro de barbicha e ccrrente
de ouro no conlete.
-Bom dia!
Bom dia!
O homem foi-se com o empregado. Mauro podia estar em outro hotel. Jorge veio ler
ma?hinalmente o jornal, dobrou-o num gesto. Na sala, havia um espelho ao centro da
parede, ladeado por pantomimas oleographicas com indios e portuguezes.
Foi tomar o chapeu no quarto, onde Alma permanecia, recurva no leito, lendo um
volume rasgado.
Andara na multidao. Penetrou de repente
da Sala das Gracas, em frente
Tgda a humanidade como que se ppotographara para encher aquelas paredes enormes.
Tomou o caminho do Barracao dcs Romeiros. Era o mesmo antigo hangar de caliolhos furados de janellas. Encom
ca,
trou esbarrando nun negro cow-boy, herculeo e risonho, que levava nos homhrcs uma
creanca linda.
Gente cafuza espalhava-se no chao por
cohertores vermelhos e pallidas estciras, rodeando os pilares quadrados. Um pandeiro
invisivel batia um fremito de azas metallicas. Uma dansarina preta, de olhos cerrados,
atravancava a passagem numa roda cstabe-
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lecida por um grande bombo reteso. Ao lado,
um aleijado de cavaignae sustido em muletas, tinia o caracaxa. Ela ia e vinha, de passos meudos, de gala e de offerta.
No andar de cima, mysteriosa e inflexivel, desconnexa e rapida, passava a luxuria
religiosa, esganicando-se em bandos lubricos,
em bandos ardentes, em bandos triumphaes.
E subito, o artista descobriu, no clamor, um
anao de ebano grudado a uma menina branca e caolha, num remeximento desccmpassado de copula, para o onanismo sensacional
de redor.
Estava na lama da rua, indeciso de novo. Um sino feriu uma pancada forte e tremula na torre enorme. Fez a volta do templo,
recordando. Regressou ao hotel: o empregado encontrava-se de novo a porta.
Temos um pedido para a noite..
Quem é?
Um casal.
Como ficasse sentado longamenle, nao
tendo animo de ir ao quarto, onde cahiria
sem solucao no drama que o dilaccrava,o
homem falou-lhe:
O senhor veiu cumprir promessa?
-E'.
Jorge pensou em tomar informacoes a
respeito de Mauro, talvez fosse conhcciao alli,
mas achou-se ridiculo e perguntou quem era
o senhor que tinha chegado.
- Fazendeiro em Sao Simao. Ja no tempo da defunta D. Augusta, ele vinha visitar
o Senhor Bom Jesus.
Uma vontade saudosa apertou-o. Porque
nao iria la em cima ao collegio da meninice?
Porque nao se dissolveria no chamado das
oracoes?
Do Brasil todo, corriam para alli. numa
confianca secuiar, os paes, as mamaes, as mulheres salvas de maus transes, os hoinens que
tinham tido dramas na vida. Vinham todos
inundar a Sala das Gracas de pnotogiaphias
ate o tecto, rostos de cera, maos, torsos, pinturas ingenuas de chagas.
A imagem das
aguas,o Senhor dadivoso, de grandes palpebras erguidas sobre o fulgor de, eternidades, inundava-os
de soccorros invisiveis. E ele? Como vcltara
ate o sanetuario?
Tinham sahido para fora, onde o samba
dos homens se' despedacava sob o samba das
estrellas. A lua dansava muito negra ro espaco. E o rio, espumoso e nodturno, darsava.