A Estrella de Absyntho - Bloco 13
Recebera da Italia uma carta e uma fotografia de Mary Beatriz, magra, num tailleur inteirico de inverno. Mandara-lhe tambem um regisirado: foi ao correio procural-o.
Era um livro de arte que abria com o testamento de Rodin. Comecou a lél-o e,forcandose um pouco, collocou o retrato sorridente sobre a chiffonniere abaulada, por tra de um
bronze.
Sentia-se arrasado para novos emprelendimentos de vida. Sem Alma, ficava como se
estivesse incompleto, provisorio, desharmonico, partido pelo meio. O seu consolo era fechar-se alli, com a estatua da desapparecida.
Pretendia apenas recobril-a, onde ela se santificasse num sudario, os bracos para o ceu
inutil, deixando adivinhar o corpo no martyrio dos ultimos dias. O rosto gelava: era a
morte.
Levara para la uma recordacao da Santa
Casa, um volumezinho da "Imitacao de Christo" que o capehlao lhe dera — envelhecido por
longo manuseio. Abrira-o uma vez e lera:
"Toda a vida de Christo foi cruz e martyrio e
tu queres gue a tua seja descanrgo e alegria.
Erras, enganas-te se neste mundo buscas outra
coisa mais que o soffrer tribulacoes, porque
toda esta vida mortal esta cheia de miserias e
cercada de cruzes".
Levantou-se, caminhava inquietado. Uma
vaga luz trenia em seu fundo supersticioso.
- Se pudesse rever Alma! Este enigma
de mundo!
Abriu de novo o livro em outra pagina:
"A cruz reconciliou o ceu com a terra que estavam em lucta. Da arvore da cruz brota o
pomo da vida que se perdera no paraifo terrestre; do seu tronco mysterioso rebentam vicosos ramos que penetram no ceu".
Jorge sentia-se, com surpresa, invadido de
esperanca e perguntou a se mesmo:
- Porque havemos de ter essa credulidade? Porque ha em nos, no fundo, qualquer
coisa que sempre cre, gue sempre espera? Essa
qualquer coisa parece que nao é o nosso corpo, é uma scentelha intima que tem vida aparte.
Mas ao consolo trazido pelas reflexoes vitalistas, foi-se succedendo mansamente uma
grande sombra de tristeza. Se Deus existia, se
a scentelha que reside em nos nao era mortal
teria que prestar pesadas contas a Justica Divina. E foi para o seu quarto, tomado de um
mixto extranho de volupia espiritual e de
medo.
Uma noite, o esculptor demorara-se na
Praca da Republica, num banco, ao lado de
arvores. Mais do que nunca, sentia a tristeza
do seu abandono. Alma nao vivia mais. O remorso yoltava. Ele queria fugir, distralir-se,
mas as recordacoes agarravam-no pela gola.
Porque? Porque nao estivera sempre ao seu
lado para conter o impeto dos bracos malditos de Mauro inesperadamente retornado. Antes o tivesse denunciado. Seria dez vezes melhor. Ela tinha dito tambem ao medico da
Santa Casa que escorregara da escada. E agora nao vivia mais! Ievantou-se de um salto.
Como? Mas como?
Andou. Sentia a loucura chegar. Tinha
lodos os corredores do cerebro habitados.
Pisou de repente na borda de um canteiro, o trauma physico sacudiu-o. O ar da noite,
pessoas que passavam conversando, a sua
propria marcha dissolveram-lhe a obsessao
embolada na cabeca.
E comprehiendeu como havia gente que
falava sozinha pelas ruas e gesticulava a-toa,
andando.
Depois do enterro, ele regressara uma
vez ao sobrado velho da Rua Scuvero. Milagre
tinha ido ver a morta, vestida de Nossa Senhora, no caixao do necroterio.
ite
Eile reviu o scenario inuit do romance
extineto, pediu
1 a mulher um jornal,embrulhou cinzeiros, o medalhao de onix no fio invizivel de platina, um renard antigo, dois apneis. Disse a Milagre, numa generosidade enternecida, que a roupa era para elia. Mandaria buscar os poucos moveis, os tapetes e as
cortinas.
Ficou ainda alli, olhando os objedtos familiares, o linho desembaracado das gavetas,
depois levantou-se, fez as contas com a mulher e partiu.
A libidinagem, entretanto, corruscava em
meio daguelle derrocamento. Jorge d'Alvellos
havia passado dois meges de castidade. Os
seus trinta anos idos, a sua vida sexual regulada na Europa e depois com a aventura que
terminara tao mai,nao lhe permiftiam mais
a frequencia humilhante dos bordeis ou a caca cynica as migalhas do amor de aventura.
Casar-se... Pensava em Mary Beatriz, mas repellia a idea como se fosse uma injuria a
memoria da morta. 'Voltar para a Europa,
desorganizada pela guerra, e num impeto de
satyro,macular corpos innocentes,comprar
virgindades nos beccos, seduzir, gozar..
Uma das tardes geladas daquelle comeco
de Agosto, Carlos Byron apparecera no atelier,
a paradoxar elegantemente a preposito das
theoriasde Freud. A libido era tudo: a Hibido
é que fizera o mundo e que o continuava numa
retesada volupia. Tudo copulava e, mais, tudo
era copula: sentimentos, religioes, anegdotas...
Nos dias que vieram, de incontida violencia carnal, Jorge desejava espojar-se sobre a
japonega que lhe trazia o café pela manha,
sobre a vizinha, uma oxygenada, anante de
Bruno de Alfenas, sobre a filha morena da
porteira, de onze anos... E fungava, de dentes unidos, o cerebro fechado na obsessao espasmodica:
- A libido é tudo! A libido é tudo!
Vinha-lhe depois una sensacao enojada
de miseria pysica. Tinha soyhnos maus e no
dia seguinte, dores de cabeca, canpagos. Aque!la situacao nao podia continuar assim..
Ao por a chave na porta enorme de ferro
do sobrado da Avenida Sao Joao, Jorge d'Alvellos pensou na luta impotente que mantinha
contra o sexo. Iria poluir os lencoes em sonhos
idiotas. Hesitou. Depois, subiu lentamente até
o Largo do Paysandu, com automoveis parados e um ruido de vida alegre, ao lado dos
theatros. Tomou por uma rua quieta. A porta
de uma casa, estava uma mulher magra, de
saias curtas e cabellos de bebé. Ele parou.
Atray, vinha um casal burguef, deixou-o passar. A mulher chamava um caozinho pelludo
que insistia em cheirar a sarjeta. Conversou
com ela, perguntou-lhe o nome do cao. E tentou entrar. Mas ela olhava-o, seria, num subito receio, e disse com delicadeza:
Non, monsieur, je suis occupee..
Jorge tinha o chapeu enterrado na cabeca, os membros lassos, o olhar fixo.
Bien... Au revoir.
Subiu a rua. Voltou imediatamente e
foi se deitar.
Milagre viera agora vel-o no Palacio das
Industrias. Sabia o caminho que Alma lhe indicara uma vez.
Tinha se empregado numa casa de familia, morava num quarto do Piques. Trazia alguma coisa de Alma: os sapatos altos, a camisa de bordado fino.
Jorge fitava-a, subitamente despertado. E
perguntou-lhe a edade.
Trinta e um anos...
Entabolou uma conversa oca, procurando
interessal-a. De pe,
Milagre olhava-o com
olhos
Ele levantou-se, foi
ate
expertos.
a porta que ficara entreaberta, cerrou-a, deu
volta a chave, veiu sentar-se no divan
e, ao
passar por ela, recou-lhe no corpo de cavalla.
Milagre afastara-se: dava-lhe as costas.
Foi olhando as figuras da parede, nis, torsos,
estatuas. Parou em frente a um estudo de satyro que ficara esbocado a cragon. Riu-se do
membro desmesurado. Jorge ayproximou-se.
Foi uma yertigem. Apanhara-lhe na bogca o
beijo sujo, adstringente, pequeno.
Envolveu-a. Ela tinha os meudos olhos
deslumbrados, as maos quentes. Veiu trazendo-a sem resistencia.
E notou que Milagre tinha as pernas esbeltas de Alma e trazia uma calca de rendas
da morta.
Sentia agora em toda a sua hediondez a
desgraca moral que o devorava.
Deixara de ir ao Palacio das Industrias,
com medo de rever a mulher que tivera num
espasmo subtil e doloroso, nas calcas de Alma.