A Estrella de Absyntho - Bloco 13 A Trilogia do Exílio · Capítulo 40 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 13

Recebera da Italia uma carta e uma fotografia de Mary Beatriz, magra, num tailleur inteirico de inverno. Mandara-lhe tambem um regisirado: foi ao correio procural-o.

Era um livro de arte que abria com o testamento de Rodin. Comecou a lél-o e,forcandose um pouco, collocou o retrato sorridente sobre a chiffonniere abaulada, por tra de um

bronze.

Sentia-se arrasado para novos emprelendimentos de vida. Sem Alma, ficava como se

estivesse incompleto, provisorio, desharmonico, partido pelo meio. O seu consolo era fechar-se alli, com a estatua da desapparecida.

Pretendia apenas recobril-a, onde ela se santificasse num sudario, os bracos para o ceu

inutil, deixando adivinhar o corpo no martyrio dos ultimos dias. O rosto gelava: era a

morte.

Levara para la uma recordacao da Santa

Casa, um volumezinho da "Imitacao de Christo" que o capehlao lhe dera — envelhecido por

longo manuseio. Abrira-o uma vez e lera:

"Toda a vida de Christo foi cruz e martyrio e

tu queres gue a tua seja descanrgo e alegria.

Erras, enganas-te se neste mundo buscas outra

coisa mais que o soffrer tribulacoes, porque

toda esta vida mortal esta cheia de miserias e

cercada de cruzes".

Levantou-se, caminhava inquietado. Uma

vaga luz trenia em seu fundo supersticioso.

- Se pudesse rever Alma! Este enigma

de mundo!

Abriu de novo o livro em outra pagina:

"A cruz reconciliou o ceu com a terra que estavam em lucta. Da arvore da cruz brota o

pomo da vida que se perdera no paraifo terrestre; do seu tronco mysterioso rebentam vicosos ramos que penetram no ceu".

Jorge sentia-se, com surpresa, invadido de

esperanca e perguntou a se mesmo:

- Porque havemos de ter essa credulidade? Porque ha em nos, no fundo, qualquer

coisa que sempre cre, gue sempre espera? Essa

qualquer coisa parece que nao é o nosso corpo, é uma scentelha intima que tem vida aparte.

Mas ao consolo trazido pelas reflexoes vitalistas, foi-se succedendo mansamente uma

grande sombra de tristeza. Se Deus existia, se

a scentelha que reside em nos nao era mortal

teria que prestar pesadas contas a Justica Divina. E foi para o seu quarto, tomado de um

mixto extranho de volupia espiritual e de

medo.

Uma noite, o esculptor demorara-se na

Praca da Republica, num banco, ao lado de

arvores. Mais do que nunca, sentia a tristeza

do seu abandono. Alma nao vivia mais. O remorso yoltava. Ele queria fugir, distralir-se,

mas as recordacoes agarravam-no pela gola.

Porque? Porque nao estivera sempre ao seu

lado para conter o impeto dos bracos malditos de Mauro inesperadamente retornado. Antes o tivesse denunciado. Seria dez vezes melhor. Ela tinha dito tambem ao medico da

Santa Casa que escorregara da escada. E agora nao vivia mais! Ievantou-se de um salto.

Como? Mas como?

Andou. Sentia a loucura chegar. Tinha

lodos os corredores do cerebro habitados.

Pisou de repente na borda de um canteiro, o trauma physico sacudiu-o. O ar da noite,

pessoas que passavam conversando, a sua

propria marcha dissolveram-lhe a obsessao

embolada na cabeca.

E comprehiendeu como havia gente que

falava sozinha pelas ruas e gesticulava a-toa,

andando.

Depois do enterro, ele regressara uma

vez ao sobrado velho da Rua Scuvero. Milagre

tinha ido ver a morta, vestida de Nossa Senhora, no caixao do necroterio.

ite

Eile reviu o scenario inuit do romance

extineto, pediu

1 a mulher um jornal,embrulhou cinzeiros, o medalhao de onix no fio invizivel de platina, um renard antigo, dois apneis. Disse a Milagre, numa generosidade enternecida, que a roupa era para elia. Mandaria buscar os poucos moveis, os tapetes e as

cortinas.

Ficou ainda alli, olhando os objedtos familiares, o linho desembaracado das gavetas,

depois levantou-se, fez as contas com a mulher e partiu.

A libidinagem, entretanto, corruscava em

meio daguelle derrocamento. Jorge d'Alvellos

havia passado dois meges de castidade. Os

seus trinta anos idos, a sua vida sexual regulada na Europa e depois com a aventura que

terminara tao mai,nao lhe permiftiam mais

a frequencia humilhante dos bordeis ou a caca cynica as migalhas do amor de aventura.

Casar-se... Pensava em Mary Beatriz, mas repellia a idea como se fosse uma injuria a

memoria da morta. 'Voltar para a Europa,

desorganizada pela guerra, e num impeto de

satyro,macular corpos innocentes,comprar

virgindades nos beccos, seduzir, gozar..

Uma das tardes geladas daquelle comeco

de Agosto, Carlos Byron apparecera no atelier,

a paradoxar elegantemente a preposito das

theoriasde Freud. A libido era tudo: a Hibido

é que fizera o mundo e que o continuava numa

retesada volupia. Tudo copulava e, mais, tudo

era copula: sentimentos, religioes, anegdotas...

Nos dias que vieram, de incontida violencia carnal, Jorge desejava espojar-se sobre a

japonega que lhe trazia o café pela manha,

sobre a vizinha, uma oxygenada, anante de

Bruno de Alfenas, sobre a filha morena da

porteira, de onze anos... E fungava, de dentes unidos, o cerebro fechado na obsessao espasmodica:

- A libido é tudo! A libido é tudo!

Vinha-lhe depois una sensacao enojada

de miseria pysica. Tinha soyhnos maus e no

dia seguinte, dores de cabeca, canpagos. Aque!la situacao nao podia continuar assim..

Ao por a chave na porta enorme de ferro

do sobrado da Avenida Sao Joao, Jorge d'Alvellos pensou na luta impotente que mantinha

contra o sexo. Iria poluir os lencoes em sonhos

idiotas. Hesitou. Depois, subiu lentamente até

o Largo do Paysandu, com automoveis parados e um ruido de vida alegre, ao lado dos

theatros. Tomou por uma rua quieta. A porta

de uma casa, estava uma mulher magra, de

saias curtas e cabellos de bebé. Ele parou.

Atray, vinha um casal burguef, deixou-o passar. A mulher chamava um caozinho pelludo

que insistia em cheirar a sarjeta. Conversou

com ela, perguntou-lhe o nome do cao. E tentou entrar. Mas ela olhava-o, seria, num subito receio, e disse com delicadeza:

Non, monsieur, je suis occupee..

Jorge tinha o chapeu enterrado na cabeca, os membros lassos, o olhar fixo.

Bien... Au revoir.

Subiu a rua. Voltou imediatamente e

foi se deitar.

Milagre viera agora vel-o no Palacio das

Industrias. Sabia o caminho que Alma lhe indicara uma vez.

Tinha se empregado numa casa de familia, morava num quarto do Piques. Trazia alguma coisa de Alma: os sapatos altos, a camisa de bordado fino.

Jorge fitava-a, subitamente despertado. E

perguntou-lhe a edade.

Trinta e um anos...

Entabolou uma conversa oca, procurando

interessal-a. De pe,

Milagre olhava-o com

olhos

Ele levantou-se, foi

ate

expertos.

a porta que ficara entreaberta, cerrou-a, deu

volta a chave, veiu sentar-se no divan

e, ao

passar por ela, recou-lhe no corpo de cavalla.

Milagre afastara-se: dava-lhe as costas.

Foi olhando as figuras da parede, nis, torsos,

estatuas. Parou em frente a um estudo de satyro que ficara esbocado a cragon. Riu-se do

membro desmesurado. Jorge ayproximou-se.

Foi uma yertigem. Apanhara-lhe na bogca o

beijo sujo, adstringente, pequeno.

Envolveu-a. Ela tinha os meudos olhos

deslumbrados, as maos quentes. Veiu trazendo-a sem resistencia.

E notou que Milagre tinha as pernas esbeltas de Alma e trazia uma calca de rendas

da morta.

Sentia agora em toda a sua hediondez a

desgraca moral que o devorava.

Deixara de ir ao Palacio das Industrias,

com medo de rever a mulher que tivera num

espasmo subtil e doloroso, nas calcas de Alma.

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