A Escada - Bloco 29
Ele ajoelhou-se ao
canto escuro de uma igreja escura.
Ampararam-no.
Tinham-lhe tirado a veronica com os dedos molhados, arrancando-lhe a pele aos poucos, dos olhos, do nariz, da boca.
Ele viu multidoes revolucionarias, agitadas, confusas, longinquas.
E sentiu mais uma vez o degelo sagrado.
camarada Deus num imenso macacao
veio sentar-se a sua cabeceira e falou-lhe declamatoriamente:
Porque te nobilitei, dando-te a vonta
de livre, te rebelaste contra mim, renovaste,
A EsCADA VERMELHA
no pequeno cenario perdido de tua vida, a
tragedia dos Arcanjos!
Senhor, foi a primeira luta de
classes...
— Os homens mesmos deliberam os seus
infernos.
Que é necessario fazer entao?
Sofrer.
E depois.
Seras conduzido entre sepulcros alados, verticais, ate os primeiros degraus da
eternidade conquistada!
Jorge olhou e viu a manha destacada da
terra.
Estava exhausto, semi-morto. A sincope
tenaz e o delirio se tinham revezado nove vezes durante a noite.
Acordara com Castro junto a cama. Rita
OSWALD DE ANDRADE
fora deitar-se tragica. Passara a noite insone
ao seu lado, vendo-o morrer.
Durante o dia escuro, fizeram vir um
medico que o auscultou demoradamente.A
crise durou cinco dias. Estava salvo. A taquicardia fora debelada.
Rompera-se nele o abcesso da divindade.
Sentia que se despregara do seu cerebro
qualquer coisa na doenca. Estava chupado é
sem forcas. Mas deixara o seu mundo de absurdos.
Convalecia.
Esperava a Mongol.
Mantinha na sua mao a mao enluvada da
moca, agradecido dela ter vindo.
A ESCADA VERMELHA
Ela perguntou enterrando-lhe os olhos
nos olhos:
E agora? Queres lutar?
Quero.
Nao uma luta interior e desgracada,
num setor imaginario. Com uma arte doentia
por desabafo.
—E o amor?
Nao nego que a nossa exaltacao seja
boa. Da um preco enorme a vida. Amo-te, Jorge. Mas se parassemos nisso teriamos nojo
de nos mesmos.
Tivera uma cura total, ao lado dela.
Saiam, viajavam, conhecendo caminhos, cidadezinhas e pequenos hoteis e deixando por
onde passavam manifestos vermelhos. A crise mental fora debelada com a crise fisica.
Viveram dias perfeitos. E uma tarde, corajo-
OSWALD DE ANDRADE
sa e simples como viera, a moca agitadora
partiu.
amor nao era mais para ele uma divagacao de desocupado, um divertimento de
classe.
Gulnare e Rita tinham desaparecido e
com elas todas as referencias artificiosas do
passado.
Ele compreendia agora, no silencio ativo
do atelier, que toda a sua vida tinha sido feita
das aspiracoes e dos sofrimentos de uma subclasse, num reduzido ambiente semi-colonial
da America portuguesa.
Essa convicao o desenfeiticava. O velho
sentido bruxo e torvo da arte desaparecera.
Revia nele mesmo e nas suas criacoes as torcidas intimas, os desejos obscuros, os sonhos
sexuais e enfim as solucoes esteticas e mis-
A ESCADA VERMELHA
ticas da pequena burguesia.