A Escada - Bloco 29 A Trilogia do Exílio · Capítulo 84 de 87
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A Escada - Bloco 29

Ele ajoelhou-se ao

canto escuro de uma igreja escura.

Ampararam-no.

Tinham-lhe tirado a veronica com os dedos molhados, arrancando-lhe a pele aos poucos, dos olhos, do nariz, da boca.

Ele viu multidoes revolucionarias, agitadas, confusas, longinquas.

E sentiu mais uma vez o degelo sagrado.

camarada Deus num imenso macacao

veio sentar-se a sua cabeceira e falou-lhe declamatoriamente:

Porque te nobilitei, dando-te a vonta

de livre, te rebelaste contra mim, renovaste,

A EsCADA VERMELHA

no pequeno cenario perdido de tua vida, a

tragedia dos Arcanjos!

Senhor, foi a primeira luta de

classes...

— Os homens mesmos deliberam os seus

infernos.

Que é necessario fazer entao?

Sofrer.

E depois.

Seras conduzido entre sepulcros alados, verticais, ate os primeiros degraus da

eternidade conquistada!

Jorge olhou e viu a manha destacada da

terra.

Estava exhausto, semi-morto. A sincope

tenaz e o delirio se tinham revezado nove vezes durante a noite.

Acordara com Castro junto a cama. Rita

OSWALD DE ANDRADE

fora deitar-se tragica. Passara a noite insone

ao seu lado, vendo-o morrer.

Durante o dia escuro, fizeram vir um

medico que o auscultou demoradamente.A

crise durou cinco dias. Estava salvo. A taquicardia fora debelada.

Rompera-se nele o abcesso da divindade.

Sentia que se despregara do seu cerebro

qualquer coisa na doenca. Estava chupado é

sem forcas. Mas deixara o seu mundo de absurdos.

Convalecia.

Esperava a Mongol.

Mantinha na sua mao a mao enluvada da

moca, agradecido dela ter vindo.

A ESCADA VERMELHA

Ela perguntou enterrando-lhe os olhos

nos olhos:

E agora? Queres lutar?

Quero.

Nao uma luta interior e desgracada,

num setor imaginario. Com uma arte doentia

por desabafo.

—E o amor?

Nao nego que a nossa exaltacao seja

boa. Da um preco enorme a vida. Amo-te, Jorge. Mas se parassemos nisso teriamos nojo

de nos mesmos.

Tivera uma cura total, ao lado dela.

Saiam, viajavam, conhecendo caminhos, cidadezinhas e pequenos hoteis e deixando por

onde passavam manifestos vermelhos. A crise mental fora debelada com a crise fisica.

Viveram dias perfeitos. E uma tarde, corajo-

OSWALD DE ANDRADE

sa e simples como viera, a moca agitadora

partiu.

amor nao era mais para ele uma divagacao de desocupado, um divertimento de

classe.

Gulnare e Rita tinham desaparecido e

com elas todas as referencias artificiosas do

passado.

Ele compreendia agora, no silencio ativo

do atelier, que toda a sua vida tinha sido feita

das aspiracoes e dos sofrimentos de uma subclasse, num reduzido ambiente semi-colonial

da America portuguesa.

Essa convicao o desenfeiticava. O velho

sentido bruxo e torvo da arte desaparecera.

Revia nele mesmo e nas suas criacoes as torcidas intimas, os desejos obscuros, os sonhos

sexuais e enfim as solucoes esteticas e mis-

A ESCADA VERMELHA

ticas da pequena burguesia.

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