A Escada - Bloco 16
Aquele abandono no rochedo dava-lhe
no entanto impetos de chorar. Sentia um desamparo definitivo na alma descrente. Devia
ser assim o inferno — na distancia de todos
um milagre perene de azul. E vagas nocoes
de catecismo voltavam, retomavam posicoes
inacreditaveis no exilio panteista.
Um cigarro naquelas horas desertas,
uma rosa silvestre meuda, amarela e quente
que lhe deixava na mesa tosca do chale a figura branca de Vitoria Agonia, tudo ganhava proporcoes extremadas. Ele respirava sofregamente a flor miraculosa; sabia-a desperfumada e aspirava-a. Nao era a flor, era
o gesto humano que a trouxera. O cigarro
que acendia carinhosamente significava o
amigo que viera ve-lo na ilha perdida.
A natureza ciclopica, o mar imutavel, a
floresta ruidosa, nada significavam ante a
A ESCADA VERMELHA
prece lacrimal de uns olhos. A floresta e o
mar, enfim, o cenario vagio da terra parecia
parar numa finalidade atingida,sem lutas
sem metamorfoses, sem migracoes. Apenas
nele a centelha humana se debatia.
Uma rubescencia sobre os coqueirais da
costa, canticos de passaros, vozes de nautas.
A ilha amanhecia no mar encrespado.
A'Marina'atracou. Da janela do chalé, Jorge viu desembarcarem Quim Joao lesto e sadio, e seus homens. Desceu.
O vento batia rudemente. As ondas alargavam-se grossas, montanhosas, fundindo-se
em massas verde-garrafa. Espumas prateavam ca e la.
Quim Joao viera esperar o maior navio
da carreira do Brasil. Era o “Brabantia" da
Companhia Holandesa.
OSWALD DE ANDRADE
Tia Amelia serviu o cafe saboroso com c
pao fresco trazido. Quim Joao brincava com
ela. Uma correspondencia forte, animal, de
alma que desconhece artificios, sem pudores
procurados, enleava aquela gente do mar.
Eram iguais na viva inteligencia, na
graciosa iniciativa, na pronta resposta. Jorge revia,na sua memoria, a torva conciencia
fechada das populacoes centrais, muito mais
submetidas a exploracao de senhores e capitalistas que as faziam desconfiadas e silenciosas. O mar, ao contrario, libertava de uma
certa maneira. Obrigava a gestos, a vozes altas, a arrojadas empresas.
Chamavam Quim Joao. O “Brabantia
estava a vista. Jorge foi depressa para a ponta do rochedo.
Na manha indecisa, as tres chamines
amarelas sobre o casco possante caminhavam
entre os mastros, elevando para o alto um
tenue fumo negro.
O sol nao deixara ainda o seu escrinio
A ESCADA VERMELHA
de morros. Nenhuma outra embarcacao no
horizonte. Apenas a lancha,com a bandeirola desfraldada, deixou o ancoradouro, investiu o grosso mar em demanda do transatlantico.
O“Brabantia"caminhava em marcha
lenta, possante e solene. E em Jorge repercutiu a emocao larga das viagens das descobertas de portos nas madrugadas, das visoes
risonhas de costas. Dura a sorte que o prendia ali, ele, feito para as travessias, para as
partidas dos grandes barcos, para o assenhoramento de continente e de mares.
A gente de bordo levantava-se de-certo
nio alvoroqo do porto pressentido. E talvez o
visse naquela pedra oceanica, inutilizadas as
grandes asas travessas.
O navio desaparecera. A lancha, sem
bandeira, recolhia tambem, ja longe, mergulhando e subindo. Sobre a sua cabeca pairava sereno um voo de procelaria.
OSWALD DE ANDRADE
A noite desceu com o luar amarelo e as
estrelas muito claras entre os coqueiros.
Todas as lembrancas de emocao marinha fixada na poeisa vinham visita-lo.