A Escada - Bloco 16 A Trilogia do Exílio · Capítulo 71 de 87
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A Escada - Bloco 16

Aquele abandono no rochedo dava-lhe

no entanto impetos de chorar. Sentia um desamparo definitivo na alma descrente. Devia

ser assim o inferno — na distancia de todos

um milagre perene de azul. E vagas nocoes

de catecismo voltavam, retomavam posicoes

inacreditaveis no exilio panteista.

Um cigarro naquelas horas desertas,

uma rosa silvestre meuda, amarela e quente

que lhe deixava na mesa tosca do chale a figura branca de Vitoria Agonia, tudo ganhava proporcoes extremadas. Ele respirava sofregamente a flor miraculosa; sabia-a desperfumada e aspirava-a. Nao era a flor, era

o gesto humano que a trouxera. O cigarro

que acendia carinhosamente significava o

amigo que viera ve-lo na ilha perdida.

A natureza ciclopica, o mar imutavel, a

floresta ruidosa, nada significavam ante a

A ESCADA VERMELHA

prece lacrimal de uns olhos. A floresta e o

mar, enfim, o cenario vagio da terra parecia

parar numa finalidade atingida,sem lutas

sem metamorfoses, sem migracoes. Apenas

nele a centelha humana se debatia.

Uma rubescencia sobre os coqueirais da

costa, canticos de passaros, vozes de nautas.

A ilha amanhecia no mar encrespado.

A'Marina'atracou. Da janela do chalé, Jorge viu desembarcarem Quim Joao lesto e sadio, e seus homens. Desceu.

O vento batia rudemente. As ondas alargavam-se grossas, montanhosas, fundindo-se

em massas verde-garrafa. Espumas prateavam ca e la.

Quim Joao viera esperar o maior navio

da carreira do Brasil. Era o “Brabantia" da

Companhia Holandesa.

OSWALD DE ANDRADE

Tia Amelia serviu o cafe saboroso com c

pao fresco trazido. Quim Joao brincava com

ela. Uma correspondencia forte, animal, de

alma que desconhece artificios, sem pudores

procurados, enleava aquela gente do mar.

Eram iguais na viva inteligencia, na

graciosa iniciativa, na pronta resposta. Jorge revia,na sua memoria, a torva conciencia

fechada das populacoes centrais, muito mais

submetidas a exploracao de senhores e capitalistas que as faziam desconfiadas e silenciosas. O mar, ao contrario, libertava de uma

certa maneira. Obrigava a gestos, a vozes altas, a arrojadas empresas.

Chamavam Quim Joao. O “Brabantia

estava a vista. Jorge foi depressa para a ponta do rochedo.

Na manha indecisa, as tres chamines

amarelas sobre o casco possante caminhavam

entre os mastros, elevando para o alto um

tenue fumo negro.

O sol nao deixara ainda o seu escrinio

A ESCADA VERMELHA

de morros. Nenhuma outra embarcacao no

horizonte. Apenas a lancha,com a bandeirola desfraldada, deixou o ancoradouro, investiu o grosso mar em demanda do transatlantico.

O“Brabantia"caminhava em marcha

lenta, possante e solene. E em Jorge repercutiu a emocao larga das viagens das descobertas de portos nas madrugadas, das visoes

risonhas de costas. Dura a sorte que o prendia ali, ele, feito para as travessias, para as

partidas dos grandes barcos, para o assenhoramento de continente e de mares.

A gente de bordo levantava-se de-certo

nio alvoroqo do porto pressentido. E talvez o

visse naquela pedra oceanica, inutilizadas as

grandes asas travessas.

O navio desaparecera. A lancha, sem

bandeira, recolhia tambem, ja longe, mergulhando e subindo. Sobre a sua cabeca pairava sereno um voo de procelaria.

OSWALD DE ANDRADE

A noite desceu com o luar amarelo e as

estrelas muito claras entre os coqueiros.

Todas as lembrancas de emocao marinha fixada na poeisa vinham visita-lo.

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