A Estrella de Absyntho - Bloco 02
Sozinho, o esculptor obstinava-se na modelagem da figura central de sua “Fonte da
Vida'. Na blusa, sobre uma escada aberta,
no_silencio mudo, marcava agora os cabellos
arphitedtonicos.
Alma surgiu inesperadamente, num tailleur folgado de lan clara, septentrional sob
um largo feltro branco.
O artista descido imobilizara-se. Ela
pisava o atelier com o seu passo lepido e solido, clarificada na luz deestudio. Ein silencio, no canapé, tirou o chapeu, descalcou uma
luva. Abriu num voluntario desastre o casaco felpudo e revelou, sob rendas, alvos comecos de seios.
Depois, empilhando almofadoes, depositou as pernas, na seda esticada das meias,
sobre o cretone. E Jorge surprehendeu, entre
linhos, promessas da sua nudez de pellos fuivos. Achegou-se nuna persuasao.
Quis prender-lhe num beijo a boeca carminada. Ela teve um refugo do rosio pallido e ardente.
Resolveste posar?
Sim, respondeu ela pelos dentes.
Embolara-se, fugindo, como um animal
no cretone.
Jorge encostou a cabeca de cabelos fartos e enormes sobre as suas coxas violentas
e quis prender-lhe a cinta nos bracos. Ela
teve uma ondulacao flexuosa de defesa. E fixava-o, os labios entreabertos, vermelhos,
molhados.
Ele buscou-a numa apaixonada forca.
Ela retirou-se, risonha, electrica. Na luta, os
dedos de modelador tinham seguro un seio
destacado e pequeno. Ela poude desferir-lhe
ainda um tapa certeiro e frouxo nas palpebras...
Deixara-o prostrado de felicidade no divan. Recompugéra-se, buscou o feltro e as
luvas. E ante um minusculo espelho que retirou da bolsa de missangas, averimelhou os
labios fanados.
-Adeus!
Sahira. Os seus passos amortecian-se la
fora na cscadaria lateral do Palacio. Onde
iria?
Jorge d'Alvellos sentiu que aventurava
tudo nesse amor.
Alma trazia-lhe no escuro passado, no
presente inquieto,minutos seculares de angustia, de humilhacao e de praser. O seu apparecimento fora um aviso de devastacoes. E
ele offertava-se ao romance presentido numa
dadivosa ambicao vietimal.
O dia caminhava azul la fora, feslivo e
calmo. Vinham de longe ruidos de pedra trabalhada, de hondes que passavam, de carrocoes que estouravam o calcamento.
Jorge d'Alvellos, de costas, nas almofadas do divah, cerrou os olhos. Revia a
imagem adorada. Ela ja estaria longe, onde? Na diregcao da Luz, do bairro confuso
que habitava com o outro, o amante confuso. E o seu coracao fechou-se, vagarosamente.
Jorge d'Alvellos passou o olhar pela esppinge atarracada ao lado de Alma, pelas
estatuas cangadas de ouvif-os na tarde cahida.
As estatuas dobravam mais seus gcstos
mudos, abriam mais suas boccas incrtes. E
vietorias e hruscos torsos punham na sombra
inicial cambalhotas ironicas.
Encontraram-se sem difficuldade no tumulto cowhoy que aquelas horas de partida
e chegada de comboios a noite, enchia a gare
achatada da Sorocabana.
De longe, Jorge adivinhara, sob jorros
eleetricos, a silhueta vigorosa, num gorro de
viagem, uma valise minuscula nas maos enUm carregador acompanhou-os e
luvadas.
ele comprou dois bilhetes de ida e volta.
Dois?
Querias ir so?
Pensava que sim.
Tomando-lhe a valise, Jorge seguiu-a até
a plataforma onde o trem formado chiava.
Por toda a extensao havia grupos de pessoas
e nos wagons uma malta de gente.
Alojaram-se num banco defrontado por
dois rapazes loiros. Passavam carregadores
com malas e viajantes atarantados a procura
de lugar. Uina campainha retiniu longamente. A plataforma teve um minuto de artencao. A mahina longinqua apitou e o trem
partiu de vagar.
Alma conservava-se impassivel e cxtattica no seu canto. Houve uma curta parada.
Ela levantou-se e saiu na direccao do carro da frente.
So, no assento de palha, o esculptor continuou o sonho em que ia perdido. O trem
deslocou-se de novo. Saiu de uma pequena
estacao com quintalejos, bananeiras e luzes.
Alma demorava-se, Jorge levantou-se inpaciente. Ela nao tardou a apontar ao fundo
do corredor. Vinha segurando-se as paredes
do carro. Atravessou num esbelto gesto os
bancos ogcupados e fez Jorge sentar-se.
Sabes quem esta aki?
Quem?
ElYe.
esculptor recusou-se a comprehender.
Houve uma longa pausa. Depois ele interrogou-a.
Quem?
Nao sabes?
Nao.
Mauro.
Jorge sorriu sem crer.
30—
Queres vet-o?
Para que?
Tens medo... fez ela emmudecendo
de novo.
Jorge conservava-se incredulo. A idea
desse encontro que ele previra e csejara
com o homem de Alma, agora, naquella viagem improvisada a chamado de Camilla que
se achava doente em Baruery, parecia-lhe
absurda.
Encontraste-o onde?
No outro carro.
Fallou-te?
Conversamos.:
Jorge sentia-se tomado de uma surpresa
que o varava. Esbocava-se-lhe vagamente no
cerebro, no peito,uma perturbacao lamenfosa de homem que se ludibria.
-Tinhas combinado o encontrc? perguntou.
Nao. Mas talvez ele descobrisse...
Sem que tu o dissesses..
Ou tu!
Nao creio, terminou Jorge impaviente.
Tens medo de ir ve-b, fez ela.
Talvez.
Calaram-se. O trem ia deixando para traz
campinas escuras entre rolos de fumaca. Jorge nao se conteve muito tempo.
Vamos!
Ela ergueu-se e atravessou o wagon. Ele
seguiu-a. O trem agora amortecia a marcha.
Quando eles pretendiam passar para o outro carro, uma onda de passageiros que desembarcava os conteve.
O comboio parara
numa pequenina estacao animada. Jorge mantinha Alma pela cinta. Depois de uir vellhio
magro de capote
carregando jornaes na
mao, vinha um rapaz forte, de chapeu coco,
sob uma larga capa preta. Passoll sem fitar
ninguem. Alma apontou-o:
- E' esse...
O pequeno estribo do carro esvaziara-se.
Na plataforma batida de luzes, guardas e viajantes passavam. Jorge desceu e procurou o
homem que Alma indicara. Ele conversava
grupo aí perto. Encararam-se. O hounu
mem tinha um olhar cor de cinza por sobre
o nariz quebrado de aguia. A bogca entravalhe bruscamente num rictus perenne.
Sem hesitar, Jorge enfrentou-o. Depois,
vendo que ele se desviava para conversar,
pog-se a andar. E quasi rocou no homem
que pareceu nao o perceber. Ao voltar para
junto do estribo, onde Alma permanecia,
grande, sozinha, ela levou a mao a bodca
num gesto de quem suplica. Mas nada disse
e sorriu. Jorge voltou de novo. Estacou a dois
passos do outro. Ele tinha a voz metallica e
lenta. Um apito cortou a estacao. Uma lanterna verde oscillara. O trem ia sahir. Vagaroso,
sem perder Mauro Glade com os olhos, Jorge
subiu ao primeiro degrau do carro. Alma, segura a um balaustre, deixara de sorrir. O
trem moveu-se, passou pelo grupo, onde o
homem de capa preta esperava. Elie c Alma
trocaram olhares guaes, fortes. Jorge teve
impetos inuteis de obstar que ela o fitasse.
Houve um segundo tragico. E o trem rolou
de novo, por campos escuros.
Ao sentar-se com Jorge, Alma disse num
susurro:
Que olhos lindos ele tem!
O esculptor calara-se numa agitacao lancinanie.