A Estrella de Absyntho - Bloco 02 A Trilogia do Exílio · Capítulo 29 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 02

Sozinho, o esculptor obstinava-se na modelagem da figura central de sua “Fonte da

Vida'. Na blusa, sobre uma escada aberta,

no_silencio mudo, marcava agora os cabellos

arphitedtonicos.

Alma surgiu inesperadamente, num tailleur folgado de lan clara, septentrional sob

um largo feltro branco.

O artista descido imobilizara-se. Ela

pisava o atelier com o seu passo lepido e solido, clarificada na luz deestudio. Ein silencio, no canapé, tirou o chapeu, descalcou uma

luva. Abriu num voluntario desastre o casaco felpudo e revelou, sob rendas, alvos comecos de seios.

Depois, empilhando almofadoes, depositou as pernas, na seda esticada das meias,

sobre o cretone. E Jorge surprehendeu, entre

linhos, promessas da sua nudez de pellos fuivos. Achegou-se nuna persuasao.

Quis prender-lhe num beijo a boeca carminada. Ela teve um refugo do rosio pallido e ardente.

Resolveste posar?

Sim, respondeu ela pelos dentes.

Embolara-se, fugindo, como um animal

no cretone.

Jorge encostou a cabeca de cabelos fartos e enormes sobre as suas coxas violentas

e quis prender-lhe a cinta nos bracos. Ela

teve uma ondulacao flexuosa de defesa. E fixava-o, os labios entreabertos, vermelhos,

molhados.

Ele buscou-a numa apaixonada forca.

Ela retirou-se, risonha, electrica. Na luta, os

dedos de modelador tinham seguro un seio

destacado e pequeno. Ela poude desferir-lhe

ainda um tapa certeiro e frouxo nas palpebras...

Deixara-o prostrado de felicidade no divan. Recompugéra-se, buscou o feltro e as

luvas. E ante um minusculo espelho que retirou da bolsa de missangas, averimelhou os

labios fanados.

-Adeus!

Sahira. Os seus passos amortecian-se la

fora na cscadaria lateral do Palacio. Onde

iria?

Jorge d'Alvellos sentiu que aventurava

tudo nesse amor.

Alma trazia-lhe no escuro passado, no

presente inquieto,minutos seculares de angustia, de humilhacao e de praser. O seu apparecimento fora um aviso de devastacoes. E

ele offertava-se ao romance presentido numa

dadivosa ambicao vietimal.

O dia caminhava azul la fora, feslivo e

calmo. Vinham de longe ruidos de pedra trabalhada, de hondes que passavam, de carrocoes que estouravam o calcamento.

Jorge d'Alvellos, de costas, nas almofadas do divah, cerrou os olhos. Revia a

imagem adorada. Ela ja estaria longe, onde? Na diregcao da Luz, do bairro confuso

que habitava com o outro, o amante confuso. E o seu coracao fechou-se, vagarosamente.

Jorge d'Alvellos passou o olhar pela esppinge atarracada ao lado de Alma, pelas

estatuas cangadas de ouvif-os na tarde cahida.

As estatuas dobravam mais seus gcstos

mudos, abriam mais suas boccas incrtes. E

vietorias e hruscos torsos punham na sombra

inicial cambalhotas ironicas.

Encontraram-se sem difficuldade no tumulto cowhoy que aquelas horas de partida

e chegada de comboios a noite, enchia a gare

achatada da Sorocabana.

De longe, Jorge adivinhara, sob jorros

eleetricos, a silhueta vigorosa, num gorro de

viagem, uma valise minuscula nas maos enUm carregador acompanhou-os e

luvadas.

ele comprou dois bilhetes de ida e volta.

Dois?

Querias ir so?

Pensava que sim.

Tomando-lhe a valise, Jorge seguiu-a até

a plataforma onde o trem formado chiava.

Por toda a extensao havia grupos de pessoas

e nos wagons uma malta de gente.

Alojaram-se num banco defrontado por

dois rapazes loiros. Passavam carregadores

com malas e viajantes atarantados a procura

de lugar. Uina campainha retiniu longamente. A plataforma teve um minuto de artencao. A mahina longinqua apitou e o trem

partiu de vagar.

Alma conservava-se impassivel e cxtattica no seu canto. Houve uma curta parada.

Ela levantou-se e saiu na direccao do carro da frente.

So, no assento de palha, o esculptor continuou o sonho em que ia perdido. O trem

deslocou-se de novo. Saiu de uma pequena

estacao com quintalejos, bananeiras e luzes.

Alma demorava-se, Jorge levantou-se inpaciente. Ela nao tardou a apontar ao fundo

do corredor. Vinha segurando-se as paredes

do carro. Atravessou num esbelto gesto os

bancos ogcupados e fez Jorge sentar-se.

Sabes quem esta aki?

Quem?

ElYe.

esculptor recusou-se a comprehender.

Houve uma longa pausa. Depois ele interrogou-a.

Quem?

Nao sabes?

Nao.

Mauro.

Jorge sorriu sem crer.

30—

Queres vet-o?

Para que?

Tens medo... fez ela emmudecendo

de novo.

Jorge conservava-se incredulo. A idea

desse encontro que ele previra e csejara

com o homem de Alma, agora, naquella viagem improvisada a chamado de Camilla que

se achava doente em Baruery, parecia-lhe

absurda.

Encontraste-o onde?

No outro carro.

Fallou-te?

Conversamos.:

Jorge sentia-se tomado de uma surpresa

que o varava. Esbocava-se-lhe vagamente no

cerebro, no peito,uma perturbacao lamenfosa de homem que se ludibria.

-Tinhas combinado o encontrc? perguntou.

Nao. Mas talvez ele descobrisse...

Sem que tu o dissesses..

Ou tu!

Nao creio, terminou Jorge impaviente.

Tens medo de ir ve-b, fez ela.

Talvez.

Calaram-se. O trem ia deixando para traz

campinas escuras entre rolos de fumaca. Jorge nao se conteve muito tempo.

Vamos!

Ela ergueu-se e atravessou o wagon. Ele

seguiu-a. O trem agora amortecia a marcha.

Quando eles pretendiam passar para o outro carro, uma onda de passageiros que desembarcava os conteve.

O comboio parara

numa pequenina estacao animada. Jorge mantinha Alma pela cinta. Depois de uir vellhio

magro de capote

carregando jornaes na

mao, vinha um rapaz forte, de chapeu coco,

sob uma larga capa preta. Passoll sem fitar

ninguem. Alma apontou-o:

- E' esse...

O pequeno estribo do carro esvaziara-se.

Na plataforma batida de luzes, guardas e viajantes passavam. Jorge desceu e procurou o

homem que Alma indicara. Ele conversava

grupo aí perto. Encararam-se. O hounu

mem tinha um olhar cor de cinza por sobre

o nariz quebrado de aguia. A bogca entravalhe bruscamente num rictus perenne.

Sem hesitar, Jorge enfrentou-o. Depois,

vendo que ele se desviava para conversar,

pog-se a andar. E quasi rocou no homem

que pareceu nao o perceber. Ao voltar para

junto do estribo, onde Alma permanecia,

grande, sozinha, ela levou a mao a bodca

num gesto de quem suplica. Mas nada disse

e sorriu. Jorge voltou de novo. Estacou a dois

passos do outro. Ele tinha a voz metallica e

lenta. Um apito cortou a estacao. Uma lanterna verde oscillara. O trem ia sahir. Vagaroso,

sem perder Mauro Glade com os olhos, Jorge

subiu ao primeiro degrau do carro. Alma, segura a um balaustre, deixara de sorrir. O

trem moveu-se, passou pelo grupo, onde o

homem de capa preta esperava. Elie c Alma

trocaram olhares guaes, fortes. Jorge teve

impetos inuteis de obstar que ela o fitasse.

Houve um segundo tragico. E o trem rolou

de novo, por campos escuros.

Ao sentar-se com Jorge, Alma disse num

susurro:

Que olhos lindos ele tem!

O esculptor calara-se numa agitacao lancinanie.

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