A Estrella de Absyntho - Bloco 01 A Trilogia do Exílio · Capítulo 28 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 01

Que pensas dos homens?

Uns canalhas...

E das mulheres?

Tambem.

Na luz medida do atelier de esculptura,

cerrado ao meio por um biombo, recoberto

em azul, Jorge d'Alvellos movia-se sem trabalhar.

Sentia-se alegre aquela manha na sua

patria, de onde partira em busca de vidlorias

com dezoito anos. Voltara ao Brasil, artista

ignorado, quando longo tempo fazia ja do

seu embarque, com o avo que o levara ate o

porto de Santos.

Jorge d'Alvellos fixava obstinadamente

aquele resto readquirido de sua gente: uma

mulher quieta e grande, sob o capacete cor

de cobre dos cabellos.

Estavam sentados junto a porta fenestrada que apanhava, por cima do claustro,

as montanhas lisas, empastadas em massas

tenue-roxo dos fundos de Sao Paulo.

O vime rangeu sob o estofado de cretone,

com flores rubras, enormes. Jorge deitara-se

aconchegando ao rosto uma almofada espferica de seda., Perto de ambos, no chao, uma

pequena espfringe de doze mamas estacava.

Uns canalhas..

Fazia uma santa manha la fora.

Era no Palacio das Industrias, onde o esculptor armara atelier na parte ja terminada do pavilhao central. Haviam-no dcixado

montar abi casa de doido, com desenhos cyclopicos tirados a carvao no soalho e baldes

e greda e formas e fragmentos e estatuas.

Ele ficara a principio seduzido pela mudanca de ceu e de ambiente, depois subitamente horrorizado com artistas e criticos que

conhecera, agora contente com a reapparicao

de Alma.

Ela estava de novo ao seu lado ali..

e ele repetia-lhe mentalmente o nome, olhando-a sem ver.

Parecia-lhe que fora numa missa de Natal, em Areias, a ultima vez que a vira, antes da viagem. Ela conservara-se na frente

delle, num vestido curto de etamine, de onde

emergia a forte carnadura sob os cabellos.

Nao havia padre. E no coro, um trio instrumental com vozerio que parecia vir de tubas,

eternizava Dominus Vobiscums em escalas

de MarselheSa. O povo esperava, bestificado,

cheirando a areia, como quem espera milagres.

A parte fatigada de terra que fica nos

limites do Rio, ceiniterio de cem Tilometros

com cruzes de cidades. Tinham ambos, ele

e ela, na vinda do Amazonas, corrido o inicio'da vida, por lugarejos parados e seculares, entre as tentacoes distantes das grandes

capitaes: em pleno dia, aldeias, onde se ouvia a rocada das formigas, sob um ceu voraz, feitc de milhoes de asas de insegtos.

repercussao.

sentia

isso

nuna

Ele

ani

ayno

somente

parado

Haviam

tel-os marcado. Ele

safaro parecia

e o paiz

da regiao que, escoino os rapazes

era

talada a puberdade, migram, deixando o mulherio ficar numa previa viuvez, de coxas

ardentes e semi-abertas, cono para depoimentos, e calores eternos, sonhando casamentos absurdos e prostituicoes impossiveis. Partira no chamado da sua eleicao. E a familia

ficara se desarvorando.

Mary Beatriz tinha permanecido na Italia, estudando.

Comdeiiado

Nao quisera reatar na partida. Os olhos

serios,

morena,

toilettes americanas.

nas

Jorge

revia-a, diversa das

burguezinhas

usadas que viera encontrar em Sac Paulo.

Alma, no emtanto, com os seus vinte é

cinco anos auguraes, repunha dentre delle

a personagem de guignol que dormia, secilos, quem sabe, desde a invasao do grande

rio pelos seus avos, que, retirados do bulicio

dissolvente das civiligacoes peninsulares, se

tinham honrado na conquista de Mazagao em

Africa, e depois varado o Amazonas ate as

suas caheceiras de febre.

Mary Beatriz... ter-se-ia mesmo casado

com ela, se ficasse em Roma. Comecara tudo na surprefa de Jorge por vel-a conversar

em portugueg com a mae, numa cauda de

teatro. Escrevera-lhe cartas. Pintava giestas e papoulas, numa eclosao do temperamento. A descoberta do amor pugera uma floracao de colorido em pequenos quadrcs que

manchavam de luz o atelier, no chao, nos

muros, nos moveis. E do busto fragil, de seios

em pera, o esculptor tinha inacabado uma

estatua.

Alma salfira.

O artista permanecia no cretone, num

mergulho pelo passado.

Suas tendencias para a esculptura tinham-se revelado na obsessao infantil dos

bonequinhos de lama com que vivia sujando

as maos e a casa do avo negociante, escriptorio da firma comercial em que o puferam para comecar a vida.

Seu paq, quast paralytico, estacionara ao

lado do velho Lucas, em Areias, numa fltima

tentativa de enriquecer, como creador. Depois viera definitivamente para Sao Paulo.

Mano Anthero, com a barba redonda dos

antepassados, seguira a tradicao de investida

contra o mato, da raca passada para a America no comeco do ultimo seculo. O paq de

Jorge, depois delle, deixara tambem uma manha o porto de lenha barrento de Amazonas, onde perdera a mulher e a primogenita,

Carolina.

Na vinda de' Areias,Jorge entrava na

adolescencia.

O Amazonas reapparecia ao esculptor.

Via-se numa rede, num quarto enorme, noite. No cacaual, la fora, sobre as folhas cakidas, comecava a ronda das oncas. Lembrava-se da descida pelo estuario, com a familia dizimada, numa barca que tinha um toldo de esteira. A floresta conversava desde

manha com o rio. Os bargueiros,torrados e

suarentos, mergulhavam n'agua, num salto,

para tomar de novo os remos lapuyos, ao

sol. Noite cahida ,havia paradas soturnas nas

OConclen a

brechas da terra e o appello dos homens chamando.

Depois,o mar,a cidade branca de Fortaleza,o Rio de Janeiro entre montanhas,o

exilio de Areias,Sao Paulo e os primeiros

bondes electricos,o avo vacillante na casa

de loucas e brinquedos. Depois da morte do

pae,fora passar demcrados mefes nc Seminario dos monges brancos em Pirapora.

Tio Anthero propusera leval-o,como fizera depois inutilmente com Alma - rumo

da fazenda de Nova Olympia,centro das suas

culturas crescentes,na entrada do sertao de

Yacanga.La,ele se incorporaria ao pais,sob

o ceu propicio da America.Casar-se-ia,fundaria novas plantacoes,proseguindo.a-cavallo,as quatro horas,na posse brutal da

terra promettida e achada.

E nao teria tido a vida que tivera na

Europa.

Jorge d'Alvellos levantou-se de um salto.

Se Alma quizesse ser sua... Na America das

cidades de acampamento,ele armaria barraca a-parte. Se Alma fosse morar com ele!

E porque nao quereria e porque nao viria,se era tudo o gue lhe restava?

forca as

Jorge d'Alvellos passou com

maos espalmadas sobre os olhos, cstirou-se

num bocejo e andou passos ate junto do grande grupo em gesso das “Amazonas e o Caval

lo", teve impetos de mandar um sotco ao focinho arreganhado, ossudo e vivo do irhmenso animal, tal o vigor que lhe pulava da boeca, dos olhos, dos membros distendidos. Ao

lado, as Amazonas, de seios em escudo, dominavam o bicho processional.

Haviam deixado o atelier, num deslumbrado

carinho, o loiro Carlos Byron e Mario

de Alfenas, unicos amigos rehavidos em Sao

Paulo, por Jorge d'Alvellos, na sua volta.

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