A Estrella de Absyntho - Bloco 01
Que pensas dos homens?
Uns canalhas...
E das mulheres?
Tambem.
Na luz medida do atelier de esculptura,
cerrado ao meio por um biombo, recoberto
em azul, Jorge d'Alvellos movia-se sem trabalhar.
Sentia-se alegre aquela manha na sua
patria, de onde partira em busca de vidlorias
com dezoito anos. Voltara ao Brasil, artista
ignorado, quando longo tempo fazia ja do
seu embarque, com o avo que o levara ate o
porto de Santos.
Jorge d'Alvellos fixava obstinadamente
aquele resto readquirido de sua gente: uma
mulher quieta e grande, sob o capacete cor
de cobre dos cabellos.
Estavam sentados junto a porta fenestrada que apanhava, por cima do claustro,
as montanhas lisas, empastadas em massas
tenue-roxo dos fundos de Sao Paulo.
O vime rangeu sob o estofado de cretone,
com flores rubras, enormes. Jorge deitara-se
aconchegando ao rosto uma almofada espferica de seda., Perto de ambos, no chao, uma
pequena espfringe de doze mamas estacava.
Uns canalhas..
Fazia uma santa manha la fora.
Era no Palacio das Industrias, onde o esculptor armara atelier na parte ja terminada do pavilhao central. Haviam-no dcixado
montar abi casa de doido, com desenhos cyclopicos tirados a carvao no soalho e baldes
e greda e formas e fragmentos e estatuas.
Ele ficara a principio seduzido pela mudanca de ceu e de ambiente, depois subitamente horrorizado com artistas e criticos que
conhecera, agora contente com a reapparicao
de Alma.
Ela estava de novo ao seu lado ali..
e ele repetia-lhe mentalmente o nome, olhando-a sem ver.
Parecia-lhe que fora numa missa de Natal, em Areias, a ultima vez que a vira, antes da viagem. Ela conservara-se na frente
delle, num vestido curto de etamine, de onde
emergia a forte carnadura sob os cabellos.
Nao havia padre. E no coro, um trio instrumental com vozerio que parecia vir de tubas,
eternizava Dominus Vobiscums em escalas
de MarselheSa. O povo esperava, bestificado,
cheirando a areia, como quem espera milagres.
A parte fatigada de terra que fica nos
limites do Rio, ceiniterio de cem Tilometros
com cruzes de cidades. Tinham ambos, ele
e ela, na vinda do Amazonas, corrido o inicio'da vida, por lugarejos parados e seculares, entre as tentacoes distantes das grandes
capitaes: em pleno dia, aldeias, onde se ouvia a rocada das formigas, sob um ceu voraz, feitc de milhoes de asas de insegtos.
repercussao.
sentia
isso
nuna
Ele
ani
ayno
somente
parado
Haviam
tel-os marcado. Ele
safaro parecia
e o paiz
da regiao que, escoino os rapazes
era
talada a puberdade, migram, deixando o mulherio ficar numa previa viuvez, de coxas
ardentes e semi-abertas, cono para depoimentos, e calores eternos, sonhando casamentos absurdos e prostituicoes impossiveis. Partira no chamado da sua eleicao. E a familia
ficara se desarvorando.
Mary Beatriz tinha permanecido na Italia, estudando.
Comdeiiado
Nao quisera reatar na partida. Os olhos
serios,
morena,
toilettes americanas.
nas
Jorge
revia-a, diversa das
burguezinhas
usadas que viera encontrar em Sac Paulo.
Alma, no emtanto, com os seus vinte é
cinco anos auguraes, repunha dentre delle
a personagem de guignol que dormia, secilos, quem sabe, desde a invasao do grande
rio pelos seus avos, que, retirados do bulicio
dissolvente das civiligacoes peninsulares, se
tinham honrado na conquista de Mazagao em
Africa, e depois varado o Amazonas ate as
suas caheceiras de febre.
Mary Beatriz... ter-se-ia mesmo casado
com ela, se ficasse em Roma. Comecara tudo na surprefa de Jorge por vel-a conversar
em portugueg com a mae, numa cauda de
teatro. Escrevera-lhe cartas. Pintava giestas e papoulas, numa eclosao do temperamento. A descoberta do amor pugera uma floracao de colorido em pequenos quadrcs que
manchavam de luz o atelier, no chao, nos
muros, nos moveis. E do busto fragil, de seios
em pera, o esculptor tinha inacabado uma
estatua.
Alma salfira.
O artista permanecia no cretone, num
mergulho pelo passado.
Suas tendencias para a esculptura tinham-se revelado na obsessao infantil dos
bonequinhos de lama com que vivia sujando
as maos e a casa do avo negociante, escriptorio da firma comercial em que o puferam para comecar a vida.
Seu paq, quast paralytico, estacionara ao
lado do velho Lucas, em Areias, numa fltima
tentativa de enriquecer, como creador. Depois viera definitivamente para Sao Paulo.
Mano Anthero, com a barba redonda dos
antepassados, seguira a tradicao de investida
contra o mato, da raca passada para a America no comeco do ultimo seculo. O paq de
Jorge, depois delle, deixara tambem uma manha o porto de lenha barrento de Amazonas, onde perdera a mulher e a primogenita,
Carolina.
Na vinda de' Areias,Jorge entrava na
adolescencia.
O Amazonas reapparecia ao esculptor.
Via-se numa rede, num quarto enorme, noite. No cacaual, la fora, sobre as folhas cakidas, comecava a ronda das oncas. Lembrava-se da descida pelo estuario, com a familia dizimada, numa barca que tinha um toldo de esteira. A floresta conversava desde
manha com o rio. Os bargueiros,torrados e
suarentos, mergulhavam n'agua, num salto,
para tomar de novo os remos lapuyos, ao
sol. Noite cahida ,havia paradas soturnas nas
OConclen a
brechas da terra e o appello dos homens chamando.
Depois,o mar,a cidade branca de Fortaleza,o Rio de Janeiro entre montanhas,o
exilio de Areias,Sao Paulo e os primeiros
bondes electricos,o avo vacillante na casa
de loucas e brinquedos. Depois da morte do
pae,fora passar demcrados mefes nc Seminario dos monges brancos em Pirapora.
Tio Anthero propusera leval-o,como fizera depois inutilmente com Alma - rumo
da fazenda de Nova Olympia,centro das suas
culturas crescentes,na entrada do sertao de
Yacanga.La,ele se incorporaria ao pais,sob
o ceu propicio da America.Casar-se-ia,fundaria novas plantacoes,proseguindo.a-cavallo,as quatro horas,na posse brutal da
terra promettida e achada.
E nao teria tido a vida que tivera na
Europa.
Jorge d'Alvellos levantou-se de um salto.
Se Alma quizesse ser sua... Na America das
cidades de acampamento,ele armaria barraca a-parte. Se Alma fosse morar com ele!
E porque nao quereria e porque nao viria,se era tudo o gue lhe restava?
forca as
Jorge d'Alvellos passou com
maos espalmadas sobre os olhos, cstirou-se
num bocejo e andou passos ate junto do grande grupo em gesso das “Amazonas e o Caval
lo", teve impetos de mandar um sotco ao focinho arreganhado, ossudo e vivo do irhmenso animal, tal o vigor que lhe pulava da boeca, dos olhos, dos membros distendidos. Ao
lado, as Amazonas, de seios em escudo, dominavam o bicho processional.
Haviam deixado o atelier, num deslumbrado
carinho, o loiro Carlos Byron e Mario
de Alfenas, unicos amigos rehavidos em Sao
Paulo, por Jorge d'Alvellos, na sua volta.