A Estrella de Absyntho - Bloco 25
Descerrou os olhos, e falando numa superexcitacao:
Era Maio... aquele mes de Maio,
quando iamos visitar as egrejas... Lembraste das tardes de oca, dos dias de fogo? Sao Pedro fazia: Ba-om! B'-om! como agora.
- No ar todo azul, riscado de andorinhias
negras, de regresso como a felicidade..
Quando o medico e a mae entraram, chamados pela enfermeira, vieram encontral-bs
rubros de febre, na evocacao delirante do sol,
que pela janella, entre arvores, cahia por detra% de Sao Pedro, como outrora.
Haviam-lhe chegado duas cartas.
Na sala clara da secretaria, ele abrira a
primeira que trazia um enveloppe da Fazenda
Nova Olympia.
Era um convite risonho e bulhento, traqado numa lettra quasi infantil, desenhada
em caracteres americanos. Terminava assim:
"Nao sabe como os seus primos e primas
O esperam todos os dias, quando o Ford chega
da estasao. Papae nos disse que voce prometteu vir sem falta. Venha logo e nao se esqueca dos presentes que papae disse que voce
nos trouxe da Europa."
Seguiram-se uma lista jovial, as assignaturas, as primeiras caprichadas ,as outras balbuciamcntos apenas legiveis:
Maria Thereza
Annita
Jorge
Belkiss
E' verdade - disse o secretario — tenho mais uma carta, guardada aqui, deixada
por seu tio.
Procurou a uma gaveta. Jorge, interessado, rasgou o enveloppe e leu:
"Mcu presado sobrinho.
Desde que soube de todo o oecorrido, parti
no forte desejo, na angia em que me vi de me
comihunicar comtigo, de correr ao teu encontro.
Cheio de preogcupacoes e de responsabilidades, pequenas em se, mas sufficientes e sobejas para assoberbarem um homem edoso,
vejo-me na necessidade de voltar imediatamente para a fazenda.
Meu caro amigo e meu filho — pois creio
que te posso chamar assim - sinto que soffres
e que estas so na vida. Esta idea me penetra
fundo e me domina, como logica inexoravel
do sentimento que tenho por ti. Desejo ver-te,
abracar-te e ter-te ao meu lado, com a minha
familia que é a substituta da tua. Nao conto
voltar tao cedo a Sao Paulo. Porque nao vens
a Nova Olympia? E' meu ardente desejo. Passaras alguns mezes comigo, na nossa casa.
Tenho um quarto vasio e pronto. E conversaremos longamente. Creio que essa viagem
havia de fazer-te bem. Uma boa disposicao e
o trem te trarao ate a nossa estacao, onde irei
te buscar com primos e primas. Creio que aftenderas ao meu appello sincero.
Teu velho amigo e tio - Anthero d'Alvellos."
Jorge pensou no calvario de Alma, abandonada ao lado do avo inerme. Nao comprebendeu aquele interesse do tronco enriquecido e vigtorioso.
Tinha a outra carta fechada na mao.
Abriu-a e leu um bilhete mal escripto e inmundo de Milagre. Ela dizia-lhe que trabalhava agora no Teatro Boa-Vista e pedialhe dinheiro.
O Dr. Braulio Costa chamou Jorge d'Alvellos para a sala de visitas, com mobilia
grenat de couro, da Casa de Saude.
Meu amigo, preciso ter comsigo a maxima franqueza. Conheco a sua robustez physica e moral.:.
Quer falar-me de Mary Beatriz?
E' verdade. O estado della inspira
cuidados. Como sabe, o Dr. Pinheiro chamou
esta manha o Dr. Mario Lupercio, uma das
affeccoes
do pulnossas auioridades em
mao... A tuberculose declarou-se com uma
feicao ienta c silenciosa. Ela tem um precedente na familia.
Pode morrer entao?
Nao quero dizer isso. Mas é preciso
procurar um clima que estacione a marcha
da mol:stia..
Jorge numa inesperada angustia, voltou
Perscrutou demoradamente a
quarto.
doente que sorria nos travesseiros. Depois,
saiu e procurou, sem resultado, cbter leite
de cabra no hospital. A enferma agceitara a
suggesiao do novo alimento. Em tudo agora
que os medicos lhe ordenavam
n ela punha
uma redobrada confianca.
Sem dizer nada, o convalescente partiu.
Nao havia ninguem no hall monumental e
quieto do Instituto. E saiu, num subito maravilhamento de se ver assim, de pe, tropegando, mas vivo, com o peito arrasado, as
Quarenta dias
maos incapazes, mas vivo.
atray eile passara aquela mesma porta, numa
padiola da policia, vinda do necroterio, com
dois mascarados atraz.
Estava vivo. La fora, pisandc a rua, a
tarde pareceu-lhe miraculosa.
Ele soubera que aí, nos fundos do hospital, em grotas intransitaveis, havia toda
uma aldeia de cabreiros. Iria la, encommendar o aiimento para o seu amor.
Caminhava sorrindo de caminhar, levantado daquele leito de horror, sakido pela
primeira vez daquella casa branca de tortura. Olhou para tray, onde qualquer coisa de
rubro faiscava entre arvores: era c sol! E o
ceu estava fluido e tremulo. Foi tropecando
nas primeiras barbas de bode do grande descampado...
Calfiam as ave-imarias numa grande paz
sem sinos.
E subito, dum belvedere natural, ele descobriu em baixo a cidade, num polvilhamento alvo. As vezes, destacava-se longe, uma
nota viva de hangar imnenso, fabricas com
chamines, officinas de calica com centenas
de janellinhas. E, ao fundo, a linha envolvente de montanhas, em verde, escuro e
branco.
O ceu desmaiava em camadas sudcessivas, cinza, rosa, azul. Fumacas erguiam-se,
lentas, paradas, a se confundir com os vapores da hruma.
No mais profundo do casario, ao centro,
Jorge viu a linha negra do velho Viadueto,
ligando monstros construidos em ardosia e
greda: o Teatro Municipal, Santa Ephigenia, os primeiros arranha-ceus..
Esfriava. Do outro lado, o fim de ogcaso
tornara-se de ouro. Havia um grande cheiro
de canpo. Grillos cantavam ao pe delle, outros chamavam: priii, priiii! E mosquitos punham bandos tremulos no ar.
Jorge d'Alvellos sabiu daquelle
pasmo
em que se perdia, correu para as barrocas na
direccao dos cabreiros. E cauteloso e decidido, procurando e proseguindo ,foi descendo por entre grotoes, quintalejos, fins de labor, roupas recolhidas das cercas e sons de
chocalho.