A Estrella de Absyntho - Bloco 25 A Trilogia do Exílio · Capítulo 52 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 25

Descerrou os olhos, e falando numa superexcitacao:

Era Maio... aquele mes de Maio,

quando iamos visitar as egrejas... Lembraste das tardes de oca, dos dias de fogo? Sao Pedro fazia: Ba-om! B'-om! como agora.

- No ar todo azul, riscado de andorinhias

negras, de regresso como a felicidade..

Quando o medico e a mae entraram, chamados pela enfermeira, vieram encontral-bs

rubros de febre, na evocacao delirante do sol,

que pela janella, entre arvores, cahia por detra% de Sao Pedro, como outrora.

Haviam-lhe chegado duas cartas.

Na sala clara da secretaria, ele abrira a

primeira que trazia um enveloppe da Fazenda

Nova Olympia.

Era um convite risonho e bulhento, traqado numa lettra quasi infantil, desenhada

em caracteres americanos. Terminava assim:

"Nao sabe como os seus primos e primas

O esperam todos os dias, quando o Ford chega

da estasao. Papae nos disse que voce prometteu vir sem falta. Venha logo e nao se esqueca dos presentes que papae disse que voce

nos trouxe da Europa."

Seguiram-se uma lista jovial, as assignaturas, as primeiras caprichadas ,as outras balbuciamcntos apenas legiveis:

Maria Thereza

Annita

Jorge

Belkiss

E' verdade - disse o secretario — tenho mais uma carta, guardada aqui, deixada

por seu tio.

Procurou a uma gaveta. Jorge, interessado, rasgou o enveloppe e leu:

"Mcu presado sobrinho.

Desde que soube de todo o oecorrido, parti

no forte desejo, na angia em que me vi de me

comihunicar comtigo, de correr ao teu encontro.

Cheio de preogcupacoes e de responsabilidades, pequenas em se, mas sufficientes e sobejas para assoberbarem um homem edoso,

vejo-me na necessidade de voltar imediatamente para a fazenda.

Meu caro amigo e meu filho — pois creio

que te posso chamar assim - sinto que soffres

e que estas so na vida. Esta idea me penetra

fundo e me domina, como logica inexoravel

do sentimento que tenho por ti. Desejo ver-te,

abracar-te e ter-te ao meu lado, com a minha

familia que é a substituta da tua. Nao conto

voltar tao cedo a Sao Paulo. Porque nao vens

a Nova Olympia? E' meu ardente desejo. Passaras alguns mezes comigo, na nossa casa.

Tenho um quarto vasio e pronto. E conversaremos longamente. Creio que essa viagem

havia de fazer-te bem. Uma boa disposicao e

o trem te trarao ate a nossa estacao, onde irei

te buscar com primos e primas. Creio que aftenderas ao meu appello sincero.

Teu velho amigo e tio - Anthero d'Alvellos."

Jorge pensou no calvario de Alma, abandonada ao lado do avo inerme. Nao comprebendeu aquele interesse do tronco enriquecido e vigtorioso.

Tinha a outra carta fechada na mao.

Abriu-a e leu um bilhete mal escripto e inmundo de Milagre. Ela dizia-lhe que trabalhava agora no Teatro Boa-Vista e pedialhe dinheiro.

O Dr. Braulio Costa chamou Jorge d'Alvellos para a sala de visitas, com mobilia

grenat de couro, da Casa de Saude.

Meu amigo, preciso ter comsigo a maxima franqueza. Conheco a sua robustez physica e moral.:.

Quer falar-me de Mary Beatriz?

E' verdade. O estado della inspira

cuidados. Como sabe, o Dr. Pinheiro chamou

esta manha o Dr. Mario Lupercio, uma das

affeccoes

do pulnossas auioridades em

mao... A tuberculose declarou-se com uma

feicao ienta c silenciosa. Ela tem um precedente na familia.

Pode morrer entao?

Nao quero dizer isso. Mas é preciso

procurar um clima que estacione a marcha

da mol:stia..

Jorge numa inesperada angustia, voltou

Perscrutou demoradamente a

quarto.

doente que sorria nos travesseiros. Depois,

saiu e procurou, sem resultado, cbter leite

de cabra no hospital. A enferma agceitara a

suggesiao do novo alimento. Em tudo agora

que os medicos lhe ordenavam

n ela punha

uma redobrada confianca.

Sem dizer nada, o convalescente partiu.

Nao havia ninguem no hall monumental e

quieto do Instituto. E saiu, num subito maravilhamento de se ver assim, de pe, tropegando, mas vivo, com o peito arrasado, as

Quarenta dias

maos incapazes, mas vivo.

atray eile passara aquela mesma porta, numa

padiola da policia, vinda do necroterio, com

dois mascarados atraz.

Estava vivo. La fora, pisandc a rua, a

tarde pareceu-lhe miraculosa.

Ele soubera que aí, nos fundos do hospital, em grotas intransitaveis, havia toda

uma aldeia de cabreiros. Iria la, encommendar o aiimento para o seu amor.

Caminhava sorrindo de caminhar, levantado daquele leito de horror, sakido pela

primeira vez daquella casa branca de tortura. Olhou para tray, onde qualquer coisa de

rubro faiscava entre arvores: era c sol! E o

ceu estava fluido e tremulo. Foi tropecando

nas primeiras barbas de bode do grande descampado...

Calfiam as ave-imarias numa grande paz

sem sinos.

E subito, dum belvedere natural, ele descobriu em baixo a cidade, num polvilhamento alvo. As vezes, destacava-se longe, uma

nota viva de hangar imnenso, fabricas com

chamines, officinas de calica com centenas

de janellinhas. E, ao fundo, a linha envolvente de montanhas, em verde, escuro e

branco.

O ceu desmaiava em camadas sudcessivas, cinza, rosa, azul. Fumacas erguiam-se,

lentas, paradas, a se confundir com os vapores da hruma.

No mais profundo do casario, ao centro,

Jorge viu a linha negra do velho Viadueto,

ligando monstros construidos em ardosia e

greda: o Teatro Municipal, Santa Ephigenia, os primeiros arranha-ceus..

Esfriava. Do outro lado, o fim de ogcaso

tornara-se de ouro. Havia um grande cheiro

de canpo. Grillos cantavam ao pe delle, outros chamavam: priii, priiii! E mosquitos punham bandos tremulos no ar.

Jorge d'Alvellos sabiu daquelle

pasmo

em que se perdia, correu para as barrocas na

direccao dos cabreiros. E cauteloso e decidido, procurando e proseguindo ,foi descendo por entre grotoes, quintalejos, fins de labor, roupas recolhidas das cercas e sons de

chocalho.

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