A Escada - Bloco 19 A Trilogia do Exílio · Capítulo 74 de 87
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A Escada - Bloco 19

Sairam pelas rochas numa efusao de historias. Nao recebera noticia nenhuma de Sao

Paulo.

O mar tinha laivos lila&es por entre as

laminas verdes do por do sol.

Jantaram servidos por Vitoria Agonia.

E Claro partiu pela noite fechada do porto.

Isolado de novo, Jorge comecou a sentir

a perturbacao do contacto virginal e selvatico da menina da ilha.

Os olhos de Vitoria Agonia as vezes engrandeciam-se numa raiva' angustiada, do

A ESCADA VERMELHA

sexo talvez, do pressentimento, da vontade.

Arfava-lhe o peito tremulo na vizinhanca do

hospede. Ela tinha os labios humidos das sereias. Treze anos de animal livre. Seios anunciados como mastros, pernas retesas e alvas,

os cabelos emaranhados pelo vento salivoso

dolargo.

O mar tornara-se frio e mau. Uma neblina, riscada a compasso, cingia a ilha. Havia

roncos de navio na distancia cheia de perigos.

E tartarugas faziam boiar os pequenos dorsos

na agua do reconcavo que avenidas brancas

de sol listavam nas manhas imprecisas.

Um tiro estrugia no dia humido. Aves gri-

OSWALD DE ANDRADE

tavam passando. O sol tentava inutilmente

atravessar a muralha do ceu.

E dias vieram e foram enrolados no misterio da bruma. Como nunca, uma sensacao

de desesperado abandono cegava Jorge. Tinham-no esquecido completamente, mortalmente.

Nas manhas iguais repetiam-se as visitas iguais da lancha. Quim Joao fizera-se

substituir por um pratico moreno e ossudo.

Claro nao vinha, nem Carlos Bairao, nem Nora, nem Gulnare.

Uma lembranca de antigas querelas humanas subia as vezes do mar encarvoado tudo tao longe, batalhas abandonadas, fugas

nervosas, triunfos inacabados, empresas mortas, renuncias.

A EsCADA VERMELHA

Vitoria Agonia atirava-se de repente,

branca para a sua animalidade acordada. Pediu-lhe um beijo e a menina colou nos seus

os labios rapidos e quentes. Como todas as

virgens de todas as ilhas, ela esperava, nas

noites de sarabanda lunar, a vinda de seu

cavalo marinho.

Uma vontade de ficar para sempre ali

apossou-se dele, uma

vontade de viver, de

amar a ninfa nascente numa nascente existencia.

Mas no contagio das supersticoes que a

bruma trazia do largo fojo das tempestades,

credulo e doente, temia tocar o genio benefico da ilha.

O vestido frouxo desabotoava-lhe alvu-

OSWALD DE ANDRADE

ras nas costas perfeitas, sob os cabelos crespos ao vento. Nos pulos animais, descobria

redondeza de pernas acima dos joelhos divinos. O artista modelava-lhe na retina a nudez

escultorea.

Numa surpresa soube pelos praticos que

estava em Santos o “Reina"o antigo paquete

que o levara a Europa. Devia partir na tarde

daquele dia.

Jorge esperou deitado nas pedras ate reconhece-lo saindo.

A sua marcha altaneira, de bandeiras ao

vento, as duas chamines posantes listadas, as

barcas de salvacao

suspensas, tinham um

pouca de seu destino, haviam feito os mesmos mares, porfiado os mesmos horizontes,

procurado os mesmos portos. Parecia-se ainda com ele, belo na sua maturidade experiente.

A ESCADA VERMELHA

Ali, naquele tombadilho, Jorge vira afastarem-se pela primeira vez as montanhas saudosas da partia, conhecera os primeiros contatos estranhos, amara os primeiros amores

ligeiros.

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