A Escada - Bloco 19
Sairam pelas rochas numa efusao de historias. Nao recebera noticia nenhuma de Sao
Paulo.
O mar tinha laivos lila&es por entre as
laminas verdes do por do sol.
Jantaram servidos por Vitoria Agonia.
E Claro partiu pela noite fechada do porto.
Isolado de novo, Jorge comecou a sentir
a perturbacao do contacto virginal e selvatico da menina da ilha.
Os olhos de Vitoria Agonia as vezes engrandeciam-se numa raiva' angustiada, do
A ESCADA VERMELHA
sexo talvez, do pressentimento, da vontade.
Arfava-lhe o peito tremulo na vizinhanca do
hospede. Ela tinha os labios humidos das sereias. Treze anos de animal livre. Seios anunciados como mastros, pernas retesas e alvas,
os cabelos emaranhados pelo vento salivoso
dolargo.
O mar tornara-se frio e mau. Uma neblina, riscada a compasso, cingia a ilha. Havia
roncos de navio na distancia cheia de perigos.
E tartarugas faziam boiar os pequenos dorsos
na agua do reconcavo que avenidas brancas
de sol listavam nas manhas imprecisas.
Um tiro estrugia no dia humido. Aves gri-
OSWALD DE ANDRADE
tavam passando. O sol tentava inutilmente
atravessar a muralha do ceu.
E dias vieram e foram enrolados no misterio da bruma. Como nunca, uma sensacao
de desesperado abandono cegava Jorge. Tinham-no esquecido completamente, mortalmente.
Nas manhas iguais repetiam-se as visitas iguais da lancha. Quim Joao fizera-se
substituir por um pratico moreno e ossudo.
Claro nao vinha, nem Carlos Bairao, nem Nora, nem Gulnare.
Uma lembranca de antigas querelas humanas subia as vezes do mar encarvoado tudo tao longe, batalhas abandonadas, fugas
nervosas, triunfos inacabados, empresas mortas, renuncias.
A EsCADA VERMELHA
Vitoria Agonia atirava-se de repente,
branca para a sua animalidade acordada. Pediu-lhe um beijo e a menina colou nos seus
os labios rapidos e quentes. Como todas as
virgens de todas as ilhas, ela esperava, nas
noites de sarabanda lunar, a vinda de seu
cavalo marinho.
Uma vontade de ficar para sempre ali
apossou-se dele, uma
vontade de viver, de
amar a ninfa nascente numa nascente existencia.
Mas no contagio das supersticoes que a
bruma trazia do largo fojo das tempestades,
credulo e doente, temia tocar o genio benefico da ilha.
O vestido frouxo desabotoava-lhe alvu-
OSWALD DE ANDRADE
ras nas costas perfeitas, sob os cabelos crespos ao vento. Nos pulos animais, descobria
redondeza de pernas acima dos joelhos divinos. O artista modelava-lhe na retina a nudez
escultorea.
Numa surpresa soube pelos praticos que
estava em Santos o “Reina"o antigo paquete
que o levara a Europa. Devia partir na tarde
daquele dia.
Jorge esperou deitado nas pedras ate reconhece-lo saindo.
A sua marcha altaneira, de bandeiras ao
vento, as duas chamines posantes listadas, as
barcas de salvacao
suspensas, tinham um
pouca de seu destino, haviam feito os mesmos mares, porfiado os mesmos horizontes,
procurado os mesmos portos. Parecia-se ainda com ele, belo na sua maturidade experiente.
A ESCADA VERMELHA
Ali, naquele tombadilho, Jorge vira afastarem-se pela primeira vez as montanhas saudosas da partia, conhecera os primeiros contatos estranhos, amara os primeiros amores
ligeiros.