A Estrella de Absyntho - Bloco 12
Em limousines perfeitas, as senhoras
dos grandes ricos exbibiam, bellas e risonhas,
a sua vermina insolente de prole - meninas
espigadas em sedas, meninos morenos e desdenhosos.
A cidade toda movia-se, rodava. Maniacos, sonhadores vencidos, faziam tambem trotar na ciranda os esqueletos vergados e velhos,
sem perceber a inutilidade dos seus gestos de
pressa.
O esculptor ia devagar pela Rua 15 de
Novembro. A' porta dos bancos, homens parados abriam caras neurasthenicas e vazias. Outros passavam, correndo, semi-loucos, discutindo alto os seus angustiosos sonhos de lucro.
Rapazes irreprehensiveis, de olhos vermelhos
sob oculos redondos e enormes, gigolavam nas
esquinas.
Ele chegara ao Largo da Sé. Parcu na convulsao extagtica de populares, a porta dum
grande edificio; olhou e viu, na distancia, as
obras da Cathedral cor de cinza, como um
grito lancinante, que tivessem cortado pelo
meio na imensa praca apagada. Desceu aos
encontroes com a gente que se movia pelas
ruas atravancadas de bondes e vehiculos. Estava perto de uma leiteria, entrou. Um homem calvo tomava notas com um lapis no
balcao. Ele perguntou-lhe se havia sandwichs.
O homem nao ouvira; repetiu a phrase fazendo uma violencia physica para falar.
E,de pé, poz-se a comer.
Mocinhas de avental branco iam e vinham, fazendo o servico das mesas, pagavam
a caixa, bulicosas, sorridentes. Jorge pensou
mmah
que elas podiam ser desgracadas um dia.
Inconscientemente, tomara outra vez ao
Largo da' Se. Estacou incommodado, ia tomando o rumo da casa de Alma. Estava agora
em frente a montra pejada de uma livraria.
E Mauro? Com certeza fugira.
A tarde baixava, ameacadora de novo.
Um vento leve e constante levantara-se. Ele
andara, achava-se na Rua do Carmo, divisou
ao longe a casa baixa, perdida entre outras
na Rua da Boa Morte. Pensou que devia levar
o desconhecido a quadra desolada do Araca,
Mas encaminhou-se
onde Alma repousava.
para o Braz.
No fim glabro do dia, o bairro negro fumegava com recortes sobrepostos de casas,
chamines, fabricas, gazometros.
Descera a Varzea; seguiu para a frente,
sem tomar o caminho do Palacio das Industrias. Massas de poeira elevavam-se, cahiam
na planicie desolada que a rua cortava.
O vento recrudescia. Homens aos grupos,
negros, apressados, iam como num romance.
O esculptor foi andando. Quasl anoitecera no ceu de anathema. Pingavam gotlas de
agua, batendo nas arvores, no chao. Uma carroca passou, estridula, em disparada.
No desamparo penetrante de tudo, Jorge
d'Alvellos, com gestos de polichinello quebrado, mergulhou na noite sem Deus.
Um barulho silencioso de trovoes havia
passado em sua vida. Depois, nada, o aniquilamento, o cahos girando.
Edipo, Hamlet, Fausto — todos ( grandes
perseguidos — haviam soffrido horrores defi-
nitivos como ele. Mas tinham tido platea e,
a seguil-os, cortes de figurantes, fanfarras de
Fortimbraz, sabbaths rodando, o Diabo em
pessoa. O rei Lear vira despejar-se,de furnas
mythologicas, a hostilidade dos elementos.
Ele, nao. Apenas um barulho silencioso
de trovoes. Depois, nada.
Jorge d'Alvellos levantou-se da cadeira
em que estava. Olhou-se ao espelho oval do
quarto. Tinha a pelle fresca e braica, o rosto
marcado e energico, os cabellos negros e ondulantes. Sahira da tempestade assim, robusto, cheio de' saude, uma saude cynica, insensivel ao descalabro.
Decidiu voltar ao Palacio das Industrias.
Mas a idea de que fora um crime consciente
tel-a deixado para Mauro vir a matal-a obcecava-o. Nao o denunciara. Para que? Para saberem tudo o que ela era? Diabinhos subtis
appareciam para conversar com ele no silencio do quarto, emphaticos, pondoya servico de
sua dialegtica, as recordacoes que o estrangulavam como incubos.
Ele parecia agradar-se daquella tortura,
gostava das longas horas de companhia in-
fernal em que discutia as suas culpas. Sem
aquela brutalidade do caften, ela viveria decerto ao seu lado, boa, carinhosa, amiga.
Chorava copiosamente. Propunha-se castigos, por nao tel-a defendido, castigos theatraes: deixar-se arrasar sob a estatua della
que levantaria alta e massica de quatro metros... Mas, de repente, a idea de soffrer a
morte, a morte que ela tivera, com todas as
torturas, apavorava-o, deixava-o como um cao
batido.
Tinha momentos eroticos: exigia para a
sua desgraca uma compensacao sexual. O instingto esfomeado miava dentro delle; e a alma ferida, espezinhada, consentia hbenevola,
covarde.
Revoltava-se profundamente contra o catholicismo. Nos dias que precedera a morte
nem uma prece lhe faltara aos labios,nem
um grande nome de santo tinha deixado de vir
ao seu coracao angustiado, supplicante. Nunca milagre nenhum tinha sido reclamado pela
fe como aquele. E o ceu permanecera impassivel: ela morrera, ela, o seu amor, morta
por que élle a abandonara sempre.
Chegara a um materialismo resignado.
Alma morrera: nunca mais ele tornaria a
vel-a, nem nesta nem em outra vida exactamente como seu pae, sua mae, seus avos,
sua irmayf... Tinham-se esfarelado na terra
creadora. Era melhor'assim. Alma nao soffria
mais aquelas dores de fogo... Deus nao o
tinha ouvido, porque nao havia Deus. Ela
agora descangava. Era melhor.
Nesse monologo obsecante, Jorge d'Alvellos vestira-se. Nao choraria mais, para que
chorar? O crime? O proprio Mauro talvez ignorasse as consequencias da queda. Era iynocente. Todos eram ipnocentes e cumplices.
Saiu. A manha ia alta. Desceu de bonde
para o Palacio das Industrias, encontrou o
atelier aberto. O formador
um portugueg
de grande gravata de artista — ficara com as
chaves. Saudou-o, perguntou-lhe se nao passaria mais a estatua em gesso.
Desembaracando-se do chapeu, Jorge viu
a um canto, sobre um pequeno aparador, dois
lencos que Alma lhe trouxera, por odcasiao da
ultima visita, dois lencos perfumados de Malia e sobrepostos num carinho feminino. Do
outro lado, brilhava o espelho redondo na
moldura de mogno, graciosamente suspenso:
tinha sido o ultimo presente della.
Jorge despediu o homem, foi fechar a
porta. Passos afastaram-se, duros, regulares.
O formador tinha tirado os paynos que recobriam a figura.
Jorge fitou-a, gelado: era
como um presagio posthumo e inutil. E subitamente, pularam-lhe do intimo, myriades de
angustias suffocadas. As lagrimas vieram com
gritos; Ele tinha os punhos virados, convulsos. E a crise foi-se apaziguando pouco a pouco, em lamentacoes. Ele revira Alma inteira
naquelle nui de sepulchro.E dizia, chorando
para a estatua:
-Pobre! Pobre!
Resolveu fazer dalli o tumulo de Alma.
Comprara o terreno exiguo do Araca, junto
a sepultura do avo.
E agora, manhas, tardes e noites perdiaas num carinho enternecido, no vasto atelier.