A Estrella de Absyntho - Bloco 12 A Trilogia do Exílio · Capítulo 39 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 12

Em limousines perfeitas, as senhoras

dos grandes ricos exbibiam, bellas e risonhas,

a sua vermina insolente de prole - meninas

espigadas em sedas, meninos morenos e desdenhosos.

A cidade toda movia-se, rodava. Maniacos, sonhadores vencidos, faziam tambem trotar na ciranda os esqueletos vergados e velhos,

sem perceber a inutilidade dos seus gestos de

pressa.

O esculptor ia devagar pela Rua 15 de

Novembro. A' porta dos bancos, homens parados abriam caras neurasthenicas e vazias. Outros passavam, correndo, semi-loucos, discutindo alto os seus angustiosos sonhos de lucro.

Rapazes irreprehensiveis, de olhos vermelhos

sob oculos redondos e enormes, gigolavam nas

esquinas.

Ele chegara ao Largo da Sé. Parcu na convulsao extagtica de populares, a porta dum

grande edificio; olhou e viu, na distancia, as

obras da Cathedral cor de cinza, como um

grito lancinante, que tivessem cortado pelo

meio na imensa praca apagada. Desceu aos

encontroes com a gente que se movia pelas

ruas atravancadas de bondes e vehiculos. Estava perto de uma leiteria, entrou. Um homem calvo tomava notas com um lapis no

balcao. Ele perguntou-lhe se havia sandwichs.

O homem nao ouvira; repetiu a phrase fazendo uma violencia physica para falar.

E,de pé, poz-se a comer.

Mocinhas de avental branco iam e vinham, fazendo o servico das mesas, pagavam

a caixa, bulicosas, sorridentes. Jorge pensou

mmah

que elas podiam ser desgracadas um dia.

Inconscientemente, tomara outra vez ao

Largo da' Se. Estacou incommodado, ia tomando o rumo da casa de Alma. Estava agora

em frente a montra pejada de uma livraria.

E Mauro? Com certeza fugira.

A tarde baixava, ameacadora de novo.

Um vento leve e constante levantara-se. Ele

andara, achava-se na Rua do Carmo, divisou

ao longe a casa baixa, perdida entre outras

na Rua da Boa Morte. Pensou que devia levar

o desconhecido a quadra desolada do Araca,

Mas encaminhou-se

onde Alma repousava.

para o Braz.

No fim glabro do dia, o bairro negro fumegava com recortes sobrepostos de casas,

chamines, fabricas, gazometros.

Descera a Varzea; seguiu para a frente,

sem tomar o caminho do Palacio das Industrias. Massas de poeira elevavam-se, cahiam

na planicie desolada que a rua cortava.

O vento recrudescia. Homens aos grupos,

negros, apressados, iam como num romance.

O esculptor foi andando. Quasl anoitecera no ceu de anathema. Pingavam gotlas de

agua, batendo nas arvores, no chao. Uma carroca passou, estridula, em disparada.

No desamparo penetrante de tudo, Jorge

d'Alvellos, com gestos de polichinello quebrado, mergulhou na noite sem Deus.

Um barulho silencioso de trovoes havia

passado em sua vida. Depois, nada, o aniquilamento, o cahos girando.

Edipo, Hamlet, Fausto — todos ( grandes

perseguidos — haviam soffrido horrores defi-

nitivos como ele. Mas tinham tido platea e,

a seguil-os, cortes de figurantes, fanfarras de

Fortimbraz, sabbaths rodando, o Diabo em

pessoa. O rei Lear vira despejar-se,de furnas

mythologicas, a hostilidade dos elementos.

Ele, nao. Apenas um barulho silencioso

de trovoes. Depois, nada.

Jorge d'Alvellos levantou-se da cadeira

em que estava. Olhou-se ao espelho oval do

quarto. Tinha a pelle fresca e braica, o rosto

marcado e energico, os cabellos negros e ondulantes. Sahira da tempestade assim, robusto, cheio de' saude, uma saude cynica, insensivel ao descalabro.

Decidiu voltar ao Palacio das Industrias.

Mas a idea de que fora um crime consciente

tel-a deixado para Mauro vir a matal-a obcecava-o. Nao o denunciara. Para que? Para saberem tudo o que ela era? Diabinhos subtis

appareciam para conversar com ele no silencio do quarto, emphaticos, pondoya servico de

sua dialegtica, as recordacoes que o estrangulavam como incubos.

Ele parecia agradar-se daquella tortura,

gostava das longas horas de companhia in-

fernal em que discutia as suas culpas. Sem

aquela brutalidade do caften, ela viveria decerto ao seu lado, boa, carinhosa, amiga.

Chorava copiosamente. Propunha-se castigos, por nao tel-a defendido, castigos theatraes: deixar-se arrasar sob a estatua della

que levantaria alta e massica de quatro metros... Mas, de repente, a idea de soffrer a

morte, a morte que ela tivera, com todas as

torturas, apavorava-o, deixava-o como um cao

batido.

Tinha momentos eroticos: exigia para a

sua desgraca uma compensacao sexual. O instingto esfomeado miava dentro delle; e a alma ferida, espezinhada, consentia hbenevola,

covarde.

Revoltava-se profundamente contra o catholicismo. Nos dias que precedera a morte

nem uma prece lhe faltara aos labios,nem

um grande nome de santo tinha deixado de vir

ao seu coracao angustiado, supplicante. Nunca milagre nenhum tinha sido reclamado pela

fe como aquele. E o ceu permanecera impassivel: ela morrera, ela, o seu amor, morta

por que élle a abandonara sempre.

Chegara a um materialismo resignado.

Alma morrera: nunca mais ele tornaria a

vel-a, nem nesta nem em outra vida exactamente como seu pae, sua mae, seus avos,

sua irmayf... Tinham-se esfarelado na terra

creadora. Era melhor'assim. Alma nao soffria

mais aquelas dores de fogo... Deus nao o

tinha ouvido, porque nao havia Deus. Ela

agora descangava. Era melhor.

Nesse monologo obsecante, Jorge d'Alvellos vestira-se. Nao choraria mais, para que

chorar? O crime? O proprio Mauro talvez ignorasse as consequencias da queda. Era iynocente. Todos eram ipnocentes e cumplices.

Saiu. A manha ia alta. Desceu de bonde

para o Palacio das Industrias, encontrou o

atelier aberto. O formador

um portugueg

de grande gravata de artista — ficara com as

chaves. Saudou-o, perguntou-lhe se nao passaria mais a estatua em gesso.

Desembaracando-se do chapeu, Jorge viu

a um canto, sobre um pequeno aparador, dois

lencos que Alma lhe trouxera, por odcasiao da

ultima visita, dois lencos perfumados de Malia e sobrepostos num carinho feminino. Do

outro lado, brilhava o espelho redondo na

moldura de mogno, graciosamente suspenso:

tinha sido o ultimo presente della.

Jorge despediu o homem, foi fechar a

porta. Passos afastaram-se, duros, regulares.

O formador tinha tirado os paynos que recobriam a figura.

Jorge fitou-a, gelado: era

como um presagio posthumo e inutil. E subitamente, pularam-lhe do intimo, myriades de

angustias suffocadas. As lagrimas vieram com

gritos; Ele tinha os punhos virados, convulsos. E a crise foi-se apaziguando pouco a pouco, em lamentacoes. Ele revira Alma inteira

naquelle nui de sepulchro.E dizia, chorando

para a estatua:

-Pobre! Pobre!

Resolveu fazer dalli o tumulo de Alma.

Comprara o terreno exiguo do Araca, junto

a sepultura do avo.

E agora, manhas, tardes e noites perdiaas num carinho enternecido, no vasto atelier.

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