Os Condemnados - Bloco 03 A Trilogia do Exílio · Capítulo 3 de 87
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Os Condemnados - Bloco 03

Chegara a Sao Paulo numa noite de garoa. Desembarcara querendo deslumbrar-se e fora por uma

rua de casas baixas e torpes, sob arcos de viadugto,

ate o centro enladeirado, buscando um hotel.

Um politico do Norte, devedor de favores antigos ao tronco extingto, recohmendava-o bem. Foi

posto no telegrapho da Estacao da Luz. Ganhou logo

a confianca amavel do chefe, porque, entrando de

chapeu certa vez, tinha sido reprehendido por um

impertinente e estapeara-o.

Comecou a nadar no Tiete, lembrando-se da

meninice no Recife.

No emprego, considerava-se um so, em meio

daquelles inexpressivos burguezes de mocidade extindta, sem banhos ao ar livre, sem namoros sonoros.

confusamente por estheticas

Perambulava

religioes. Ccmpunha versos e tinha receio de mostralos. Uma noite, conhecera, apresentado por um

estudante de pharmacia, tres latagoes que faziam

parte berrante da jovem literatura cosmopolita da

cidle. Atravessaram noites nos cafés, aborrecendo

garcons somnolentos e lendo. Applaucdiam-se

in ondicionalmente, despedindo-se na madrugada de

tilburys e bebedos.

Agora, o romance fulvo da Rua dos Clerigos

absorvera-o. A*s vezes, insorhne e tragico, salia do

urgencia de repercussoes. Montava

plantao numa

& penumbra confidencial de uma agua-furtada da

Rua das Flores, onde Frederico Carlos Lobao, ana-*

fado e lyrico, o esperava. Expandia-se depois de

uma mudez de alto proposito. O outro, sem compreHender, ajudava-o numa longa e inutil peregrinacao

mental pela psicologia errada das mulheres e das

coisas. No quarto abafado de morrinhas, construiam

e dlestrocavam o mundo & vontade.

Voltava mais sereno para o seu bairro, sonhando. Dormia pelo dia a dentro, ia nadar nas

tardes amarellas sobre o rio tumido das enchentes.

E na gare agcesa, ao tlin-tlin-toc-toc do ganhapao, perscrutava inutilmente a janeflinha de grades

verticags, doiradas, onde vira pela primeira vez

passar Alma d'Alvellos. Tinham-lhe dito que estava

doente, nao a encontrara mais, fazia ja tres dias.

A noite escoava-se no bocejo ruidoso dos outros

e no passear intermino do guarda da plataforma.

Ele, por uma supersticao sobresaltada ficava vigiando

sempre, um olho no teclado, outro la fora onde glla

poderia passar.

O abandono da casa pela neta, a ausencia inexplicada ao jantar, a demora em nao voltar até dez,

onze horas, com o tic-tac

apprehensivodoreld-

gio na antiga varanda, tudo ergueu pouco a pouco

o velho Lucas num desmemoriado esforco.

nunca presentira, no crocitar do homem

Ele

curvo qule a cozinheira denunciara, a sedudcao da

sua crianca.

A netinha ruiva era o resto de tudo o que perdera. Se o deixasse, ninguem mais o tratava, ninguem mais lhe preparava o banho

morno. Mas

saberia buscaf-a. Ainda tinha relacoes que nao frequentava, havia quantos anos. Mas voltaria, iria de

um a um, dobrar os seuis cansados joelhos.. Procuraria, logo que amanhecesse, o capitao Marcellino, o

Dr. Carlos Ribeiro, o velho Mascarenhas que era

da policia.

Contaria tudo. Nao haviam de deixar tirar uma

menina honesta da casa de seu avo. De-certo, prenderiam o miseravel.

O cao sonhava a um canto. Pareceu-lhe ouvir

passos. Foi ver. O antigo coracao atropelou-se. Nao

era ninguem. Sentia agora chamar na noite. Vieram-lhe duas lagrimas aos olhos seecos. Onde es

taria?

Esperou o dia pardo. Fumara dois macos de

cigarros. Sentia-se todo tremulo. Parecia-lhe que

tinha morrido gente na casa.

Resolveu escrever uma longa carta ao outro

neto, Jorge d'Alvellos, que estudava na Europa, na

cidade de Roma. Nao encontrou papel. Erguera-se

com caimbras finas nas canellas de esqueleto. Andava

, remendado por ela. Ouviu um

num grande paletot,

barulho. Outro. O moleque levantara-se. Enrolou-se

depressa no cobertor vermelho e rasgado, para nao

contar a ninguem que a neta fugira.

O cachorro pequenino, ericado de pellos sujos,

foi, num tic-tac matinal, saudar a patroazinha no

quarto vasio.

Mauro juntou a vassoura rubra dos cabelYos, na

sombra do quarto despovoado, naquelle deserto da

Penha. E la fora, passava um tilintar de chocalhos

regulares.

Alma gritou:

Perdao! Perdao!

CONDEMNADOS

Atirada pela mao divina que a estracalhava, ao

solo duro, cahiu e ficou esperando a morte qule caminhava de-certo naquehe ermo indefeso.

EMe ficou rodando pelos quartos nus, cheios

de frinchas. E ehla tinha a vista num so ponto —

olhava a revelacao pasmosa da vida.

Num corte de oiro sobre o negro soalho antigo, feito pela abertura de um dedo da janella, subia

a poeira da casa revolvida. E nas soleiras, nos buracos de rato das portas, andavam manchas quentes

de luz.

EWa esperava, justificando-se baixinho. O homem de Campinas enganara a propria D. Rosaura.

Dissera-lhe que havia esquecido a carteira no hotel,

dera-lhe um cartao. Diria isso tudo a Mauro, mostraria o cartao. Elye havia de compreMender. Talvez

consentisse que ela o beijasse de novo. Ievantou-se.

Fstava moida dos trambolhoes. Chegou mansamente

porta. Ele rabiscava qualquer coisa com um lapis,

meginha da sala. Foi indo. EMe a presentia sem

se mover, de-certo agceitava-a de novo... Foi, quis

enlacato. Mas elye preparara-lhe a bofetada sonora.

Preparara...

Tinha recuado, convulsa. Fora um golpe teso

no coracao, um abalo geral de todos os nervos, de

todas as revoltas, de todas as maldigcoes... E as lagrimas pularam, pularam...

Teve vontade de trepar pelas paredes de cal.

Mas o corpo amoMeceu-lhe nas escoras inuiteis dos

musculos, a cabeca tonteou-lhe.

Fora voltando.

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