Os Condemnados - Bloco 03
Chegara a Sao Paulo numa noite de garoa. Desembarcara querendo deslumbrar-se e fora por uma
rua de casas baixas e torpes, sob arcos de viadugto,
ate o centro enladeirado, buscando um hotel.
Um politico do Norte, devedor de favores antigos ao tronco extingto, recohmendava-o bem. Foi
posto no telegrapho da Estacao da Luz. Ganhou logo
a confianca amavel do chefe, porque, entrando de
chapeu certa vez, tinha sido reprehendido por um
impertinente e estapeara-o.
Comecou a nadar no Tiete, lembrando-se da
meninice no Recife.
No emprego, considerava-se um so, em meio
daquelles inexpressivos burguezes de mocidade extindta, sem banhos ao ar livre, sem namoros sonoros.
confusamente por estheticas
Perambulava
religioes. Ccmpunha versos e tinha receio de mostralos. Uma noite, conhecera, apresentado por um
estudante de pharmacia, tres latagoes que faziam
parte berrante da jovem literatura cosmopolita da
cidle. Atravessaram noites nos cafés, aborrecendo
garcons somnolentos e lendo. Applaucdiam-se
in ondicionalmente, despedindo-se na madrugada de
tilburys e bebedos.
Agora, o romance fulvo da Rua dos Clerigos
absorvera-o. A*s vezes, insorhne e tragico, salia do
urgencia de repercussoes. Montava
plantao numa
& penumbra confidencial de uma agua-furtada da
Rua das Flores, onde Frederico Carlos Lobao, ana-*
fado e lyrico, o esperava. Expandia-se depois de
uma mudez de alto proposito. O outro, sem compreHender, ajudava-o numa longa e inutil peregrinacao
mental pela psicologia errada das mulheres e das
coisas. No quarto abafado de morrinhas, construiam
e dlestrocavam o mundo & vontade.
Voltava mais sereno para o seu bairro, sonhando. Dormia pelo dia a dentro, ia nadar nas
tardes amarellas sobre o rio tumido das enchentes.
E na gare agcesa, ao tlin-tlin-toc-toc do ganhapao, perscrutava inutilmente a janeflinha de grades
verticags, doiradas, onde vira pela primeira vez
passar Alma d'Alvellos. Tinham-lhe dito que estava
doente, nao a encontrara mais, fazia ja tres dias.
A noite escoava-se no bocejo ruidoso dos outros
e no passear intermino do guarda da plataforma.
Ele, por uma supersticao sobresaltada ficava vigiando
sempre, um olho no teclado, outro la fora onde glla
poderia passar.
O abandono da casa pela neta, a ausencia inexplicada ao jantar, a demora em nao voltar até dez,
onze horas, com o tic-tac
apprehensivodoreld-
gio na antiga varanda, tudo ergueu pouco a pouco
o velho Lucas num desmemoriado esforco.
nunca presentira, no crocitar do homem
Ele
curvo qule a cozinheira denunciara, a sedudcao da
sua crianca.
A netinha ruiva era o resto de tudo o que perdera. Se o deixasse, ninguem mais o tratava, ninguem mais lhe preparava o banho
morno. Mas
saberia buscaf-a. Ainda tinha relacoes que nao frequentava, havia quantos anos. Mas voltaria, iria de
um a um, dobrar os seuis cansados joelhos.. Procuraria, logo que amanhecesse, o capitao Marcellino, o
Dr. Carlos Ribeiro, o velho Mascarenhas que era
da policia.
Contaria tudo. Nao haviam de deixar tirar uma
menina honesta da casa de seu avo. De-certo, prenderiam o miseravel.
O cao sonhava a um canto. Pareceu-lhe ouvir
passos. Foi ver. O antigo coracao atropelou-se. Nao
era ninguem. Sentia agora chamar na noite. Vieram-lhe duas lagrimas aos olhos seecos. Onde es
taria?
Esperou o dia pardo. Fumara dois macos de
cigarros. Sentia-se todo tremulo. Parecia-lhe que
tinha morrido gente na casa.
Resolveu escrever uma longa carta ao outro
neto, Jorge d'Alvellos, que estudava na Europa, na
cidade de Roma. Nao encontrou papel. Erguera-se
com caimbras finas nas canellas de esqueleto. Andava
, remendado por ela. Ouviu um
num grande paletot,
barulho. Outro. O moleque levantara-se. Enrolou-se
depressa no cobertor vermelho e rasgado, para nao
contar a ninguem que a neta fugira.
O cachorro pequenino, ericado de pellos sujos,
foi, num tic-tac matinal, saudar a patroazinha no
quarto vasio.
Mauro juntou a vassoura rubra dos cabelYos, na
sombra do quarto despovoado, naquelle deserto da
Penha. E la fora, passava um tilintar de chocalhos
regulares.
Alma gritou:
Perdao! Perdao!
CONDEMNADOS
Atirada pela mao divina que a estracalhava, ao
solo duro, cahiu e ficou esperando a morte qule caminhava de-certo naquehe ermo indefeso.
EMe ficou rodando pelos quartos nus, cheios
de frinchas. E ehla tinha a vista num so ponto —
olhava a revelacao pasmosa da vida.
Num corte de oiro sobre o negro soalho antigo, feito pela abertura de um dedo da janella, subia
a poeira da casa revolvida. E nas soleiras, nos buracos de rato das portas, andavam manchas quentes
de luz.
EWa esperava, justificando-se baixinho. O homem de Campinas enganara a propria D. Rosaura.
Dissera-lhe que havia esquecido a carteira no hotel,
dera-lhe um cartao. Diria isso tudo a Mauro, mostraria o cartao. Elye havia de compreMender. Talvez
consentisse que ela o beijasse de novo. Ievantou-se.
Fstava moida dos trambolhoes. Chegou mansamente
porta. Ele rabiscava qualquer coisa com um lapis,
meginha da sala. Foi indo. EMe a presentia sem
se mover, de-certo agceitava-a de novo... Foi, quis
enlacato. Mas elye preparara-lhe a bofetada sonora.
Preparara...
Tinha recuado, convulsa. Fora um golpe teso
no coracao, um abalo geral de todos os nervos, de
todas as revoltas, de todas as maldigcoes... E as lagrimas pularam, pularam...
Teve vontade de trepar pelas paredes de cal.
Mas o corpo amoMeceu-lhe nas escoras inuiteis dos
musculos, a cabeca tonteou-lhe.
Fora voltando.