Os Condemnados - Bloco 22 A Trilogia do Exílio · Capítulo 22 de 87
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Os Condemnados - Bloco 22

Luquinhas suffocou-se de choro e de medo.

Telles Mello juntou do chao o balde que cakira

das maos da creanca, correu ainda ao portao.

Ela ia, num vento de loucura, rua abaixo, clara, fulva, carregando o filhinho cujos cabellos fluftuavan.

Que has-de ser quando fores grande?

Santo.

OS CONDEM

INADOS

E um jorro de riso claro partiu da boquinha de

dentes qguaes, envolvida nos cachos de espiga que

se embaracavam pescoco abaixo.

- Nao, Luquinhas, nao brinco mais entao

fez a mae supersticiosa, repreMendendo-o. Que hasde fazer quando fores homem grande?

-Fazer santo...

- Ah! Nao brinco..

Ela deixou-o pensativo, sentado ao banco quebrado da horta dos fundos de D. Genoveva, e foi

ninar o bebé idiota que os olhava, bracos de celulbide erguidos, entre verduras. Pog-se a cantar :

- Nana ne-ne! Nana ne-ne! Voce sim é bonitinho, nao é como Luquinhas, esse feio..

—- Mamae! gritou a creanca que agcordara, de

olhos vivos, pestanudos, na tarde que invadia as

aleas estreitas e doirava a casa baixa.. Mamae!

Eu vou ser para-raio!

Das jbias antigas, ela conservava apenas um

medalhao negro de Onix, preso a um fio invisivel de

platina.

A TRIIOGIA DO EXILIO

Sahira num desespero, deixando o filho adormecido com a mulher de chino.

Andara a-toa pela cidade nodturna e agora deixava-se ficar alli

num banco quieto da esplanada

do Municipal, esperando, numa desorientacao calma,

que as horas passassem. E as horas custavam a passar, como a vida.

Homens farejavam-na como caes. Dois rapazes

que desciam pela ruela de areia, perguntaram-lhe se

viera do teatro. Tinham parado no Anhangabahu

claro e deserto. Ela levantara-se. Eram ambos bem

vestidos, tinham dinheiro de-certo. Chamaram-na.

Um barulho de taxi estrugia pela rua Formosa. Eles fizeram o chauffeur estacar. Elya

a estava

- Nao vou. Ir onde?

Entrara. Sentou-se entre ambos. Deram um

endereco vago. Apalpavam-na no escuro.

Nas paredes de um quarto, havia un espelho e

obfcenidades em cartao colorido. A um canto, um

divan.

Sahira um. O outro fechou a porta, veiu para

ela. Quig deitala. Uma Kalucinacao tomara-a. Estava de pe, tinha os olhos severos e fixos e os bellos

bracos nus sob a claridade.

O homem ia abrir a porta, despedita sem lhe

dar dinheiro. Ela murmurou que ficava. Esbelta,

enm dois pulos, desfez-se das calcas de rendas. Mas

o macho relutava, desconfiado. Foi ate a porta, chamou o outro. Riam-se. Excitado e indeciso, voltou.

Aima disse que ja haviam pago duzentos mil réis

pelo seu corpo.

Ele parecia inundado subitamente de furia sexual. Mordeu-a nos labios de desafio. Ela enroscava-se toda no homem de acaso, cerrando os olhos,

recostando a cabeca, perdoando...

Pugeram-na para fora, deixando-lhe na mao

sete mil réis. Desceu na diredcao do centro, num

passo sonoro. Encontrou guardas e retardatarios.

Bebeu cognac num bar atceso do Largo da Sé.

Um homem alto falou-lhe com delicadeza. Ela andou ao lado delle, muda, inerte. Numa polidez recurva, o homem propunha-lhe sentimentos.

Tomou um bonde para a Luz. Junto ao

das arvores, viu uma fita

Jardim Publico, atraves

longa de sangue cercar a madrugada cidadina.

Gallos cantavam, agcordando as estrelas dos

selis ultimos

extases. A cidade martelava os seus

primeiro ruidos.

A fita de sangue enrubescia, amarellando-se de

tons novos. E, por cina, o ceu era todo azul-claro.

A terra girava como ela no espaco sem apoio.

Aquietou-se alli nos lengoes da cama alugada.

Nao podiam esplender sobre a cabeca de seu

filho as miragens dilegtas da infancia... Ele era

uma pobre sombra no colchao emprestado. Trapos

sodfrimento.

e carne...

A noite sonora cabiu. Creancas brincavam na

calcada, cantando em frente a casa baixa.

Num vestido antigo de setim, Alma, de pé,

vigiava o filhinho.

Soropango da vinganca

Toda a gente passarao!

E ela sentiu, num obscuro instingto, que estava

sendo castigada. Recordava o telegrafhista dedicado,

O caozinho morto sob um caminhao, o sobrado tragico da Rua dos Clerigos, onde fora feliz.

Uma menina suja, de grande olhos, vei@ aycordara dizendo que Luquinhas nao queria brincar.

Ele estacara a roda viva na calcada. Alma foi

buscatfo, trouxe-o num choro de desabafo, as maos

fechadas no rostinho quente.

Com o coracao amedrontado, perguntou-lhe o

o quarto num alvoroco,

que sentia. Levou-o para

augmentou-lhe os agagalhos. Fle cessara de chorar :

permanecia sentado, ao colchao, olhando-a.

As crqancas vieram ate a porta espiar com

risinhos e silencios. Ela gritou mandando-as embora

e foi buscar D. Genoveva.

cerrou os olhos mitidos num choro sentido.

Que é, meui bem? Que é, meu bem?

La fora, as creancas reorganizadas continuavam

em roda :

Soropango da vinganca

Toda a gente passarao!

A TRILOGIA DO EXIIIO

Arranjou ao lado, nuuma cadeira, a sua roupinha de homem. Esticava os bracos molles de brim,

as perninhas molles. Era a farpella

a pequenina,com

que ele devia carregar a cruz da vida.

Noite alta, Luquinhas agitou-se no travesseiro

unico e velho. Alma nao conseguia dormir, olhando-O.

Se morresse! Ela sabia que nada podia resultar daquella

misera existencia humana.

Sentou-se ao leito, os grandes cabellos desmanchados.

A boquinha que se lamentava na penumbra do

quarto cerrado enriquecer-se-ia de sorrisos. para que?

Para beijar prostitutas como ela e depois comer a

lama da vida.

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