Os Condemnados - Bloco 22
Luquinhas suffocou-se de choro e de medo.
Telles Mello juntou do chao o balde que cakira
das maos da creanca, correu ainda ao portao.
Ela ia, num vento de loucura, rua abaixo, clara, fulva, carregando o filhinho cujos cabellos fluftuavan.
Que has-de ser quando fores grande?
Santo.
OS CONDEM
INADOS
E um jorro de riso claro partiu da boquinha de
dentes qguaes, envolvida nos cachos de espiga que
se embaracavam pescoco abaixo.
- Nao, Luquinhas, nao brinco mais entao
fez a mae supersticiosa, repreMendendo-o. Que hasde fazer quando fores homem grande?
-Fazer santo...
- Ah! Nao brinco..
Ela deixou-o pensativo, sentado ao banco quebrado da horta dos fundos de D. Genoveva, e foi
ninar o bebé idiota que os olhava, bracos de celulbide erguidos, entre verduras. Pog-se a cantar :
- Nana ne-ne! Nana ne-ne! Voce sim é bonitinho, nao é como Luquinhas, esse feio..
—- Mamae! gritou a creanca que agcordara, de
olhos vivos, pestanudos, na tarde que invadia as
aleas estreitas e doirava a casa baixa.. Mamae!
Eu vou ser para-raio!
Das jbias antigas, ela conservava apenas um
medalhao negro de Onix, preso a um fio invisivel de
platina.
A TRIIOGIA DO EXILIO
Sahira num desespero, deixando o filho adormecido com a mulher de chino.
Andara a-toa pela cidade nodturna e agora deixava-se ficar alli
num banco quieto da esplanada
do Municipal, esperando, numa desorientacao calma,
que as horas passassem. E as horas custavam a passar, como a vida.
Homens farejavam-na como caes. Dois rapazes
que desciam pela ruela de areia, perguntaram-lhe se
viera do teatro. Tinham parado no Anhangabahu
claro e deserto. Ela levantara-se. Eram ambos bem
vestidos, tinham dinheiro de-certo. Chamaram-na.
Um barulho de taxi estrugia pela rua Formosa. Eles fizeram o chauffeur estacar. Elya
a estava
- Nao vou. Ir onde?
Entrara. Sentou-se entre ambos. Deram um
endereco vago. Apalpavam-na no escuro.
Nas paredes de um quarto, havia un espelho e
obfcenidades em cartao colorido. A um canto, um
divan.
Sahira um. O outro fechou a porta, veiu para
ela. Quig deitala. Uma Kalucinacao tomara-a. Estava de pe, tinha os olhos severos e fixos e os bellos
bracos nus sob a claridade.
O homem ia abrir a porta, despedita sem lhe
dar dinheiro. Ela murmurou que ficava. Esbelta,
enm dois pulos, desfez-se das calcas de rendas. Mas
o macho relutava, desconfiado. Foi ate a porta, chamou o outro. Riam-se. Excitado e indeciso, voltou.
Aima disse que ja haviam pago duzentos mil réis
pelo seu corpo.
Ele parecia inundado subitamente de furia sexual. Mordeu-a nos labios de desafio. Ela enroscava-se toda no homem de acaso, cerrando os olhos,
recostando a cabeca, perdoando...
Pugeram-na para fora, deixando-lhe na mao
sete mil réis. Desceu na diredcao do centro, num
passo sonoro. Encontrou guardas e retardatarios.
Bebeu cognac num bar atceso do Largo da Sé.
Um homem alto falou-lhe com delicadeza. Ela andou ao lado delle, muda, inerte. Numa polidez recurva, o homem propunha-lhe sentimentos.
Tomou um bonde para a Luz. Junto ao
das arvores, viu uma fita
Jardim Publico, atraves
longa de sangue cercar a madrugada cidadina.
Gallos cantavam, agcordando as estrelas dos
selis ultimos
extases. A cidade martelava os seus
primeiro ruidos.
A fita de sangue enrubescia, amarellando-se de
tons novos. E, por cina, o ceu era todo azul-claro.
A terra girava como ela no espaco sem apoio.
Aquietou-se alli nos lengoes da cama alugada.
Nao podiam esplender sobre a cabeca de seu
filho as miragens dilegtas da infancia... Ele era
uma pobre sombra no colchao emprestado. Trapos
sodfrimento.
e carne...
A noite sonora cabiu. Creancas brincavam na
calcada, cantando em frente a casa baixa.
Num vestido antigo de setim, Alma, de pé,
vigiava o filhinho.
Soropango da vinganca
Toda a gente passarao!
E ela sentiu, num obscuro instingto, que estava
sendo castigada. Recordava o telegrafhista dedicado,
O caozinho morto sob um caminhao, o sobrado tragico da Rua dos Clerigos, onde fora feliz.
Uma menina suja, de grande olhos, vei@ aycordara dizendo que Luquinhas nao queria brincar.
Ele estacara a roda viva na calcada. Alma foi
buscatfo, trouxe-o num choro de desabafo, as maos
fechadas no rostinho quente.
Com o coracao amedrontado, perguntou-lhe o
o quarto num alvoroco,
que sentia. Levou-o para
augmentou-lhe os agagalhos. Fle cessara de chorar :
permanecia sentado, ao colchao, olhando-a.
As crqancas vieram ate a porta espiar com
risinhos e silencios. Ela gritou mandando-as embora
e foi buscar D. Genoveva.
cerrou os olhos mitidos num choro sentido.
Que é, meui bem? Que é, meu bem?
La fora, as creancas reorganizadas continuavam
em roda :
Soropango da vinganca
Toda a gente passarao!
A TRILOGIA DO EXIIIO
Arranjou ao lado, nuuma cadeira, a sua roupinha de homem. Esticava os bracos molles de brim,
as perninhas molles. Era a farpella
a pequenina,com
que ele devia carregar a cruz da vida.
Noite alta, Luquinhas agitou-se no travesseiro
unico e velho. Alma nao conseguia dormir, olhando-O.
Se morresse! Ela sabia que nada podia resultar daquella
misera existencia humana.
Sentou-se ao leito, os grandes cabellos desmanchados.
A boquinha que se lamentava na penumbra do
quarto cerrado enriquecer-se-ia de sorrisos. para que?
Para beijar prostitutas como ela e depois comer a
lama da vida.