Os Condemnados - Bloco 25 A Trilogia do Exílio · Capítulo 25 de 87
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Os Condemnados - Bloco 25

Disse-lhe

que tinha visto Alma, fatal como a Espqinge de

Edipo.

- Falou com voce?

Falou. Perguntou pelo teu amor...

Encaminhou-se para o bar pitoresco do Braz,

onde na parede se recortava, em roxo batata,a Estacao da Luz.

E foi sentindo baixar pelas ruas o aureo ogcaso

negro da cidade, reposta num dquilibrio grandioso

de linhas e de cupulas.

Na solidao amiga do quarto pobre, onde se

tinham tanto promertido, ele levantara-se. Approximou-se e, dissimulando mal um carinho grato,

tomou-a pelos Hombros palpitantes.

Demoraram-se assim, na espectativa de qualquer coisa imimensa e nova. E os labios encontraram-se incertos, violentos, terriveis.

Faze olhos grandes!

Na penumbra, Alma escancarou as alvas, moldura para as pupilyas verdes de velyudo e crystal.

As narinas fremiram.

E, numa mobilidade de puzzle imprevisto, a

mascara cascateou um riso desigual com altos e

baixos de animalidade lasciva, os dentes brancos

e perfeitos engastados até o fundo nas gengivas

sadias.

Descobriram um ninho de duas saletas na rua

de Sao Caetano. Um transito ininterrupto de carrocas barulhava.

Na area fechada da casa, havia duas araras

ornamentaes e inquietas.

Ele ia jantar so, pela ultima vez. Uma psyclfologia tenebrosa de noivo empalava-o. Tudo estava

de parabens: as arvores, as casas, as gentes. Sentia

que ia fazer uma grande coisa, uma grave coisa.

A cidade tremeluziu nas primeiras

luzes. E

sobre ele desceu a noite de festivas lanternas.

Deixava o velho aposento de solteiro. Descera

Badelaire da parede.

Um delirio tomou-o na noite de presentimentos

e de gloria. A cabeca destampara-se-lhe. E, pela

fresta aberta, fugiam tropeis pensativos -- a mobilia, ela, a mobilia...

Tactearam-se, procurando reconhecer, um no

outro, velhas eleicoes.

As araras decorativas punham gritos finaes nos

dias morrentes.

Nas noites apagadas do leito, ele

comecou a

r que a castidade de Alma gastara-se como a

sentir

sua saude inicial. No contagio canalha dos homens,

ela se tinha desmoralizadg pouco a pouco.

Krase, repunham-no no calUm gesto, uma

vario passado. E nao se sabiam dar a promettida

festa do amor.

Accordavam as clarinadas dos quarteis. A ambos, o quarto e a vida pareciam extranhos.

Joao perscrutava a desolacao do seu paraifo

ytingido. Alma tinha uma tyraynia de habitos, oppostos aos seus mediocres contentamentos. Pensava

no filho e no automovel verde que perdera.

Nas noites contrafeitas, ele salia ao seu lado,

para ir ouvir, no escuro, a chorosa festa das valsas

de cinema.

gia-se numa pouca seguranca. Aquele ambiente improvisado, onde os seus livros e as suas pequenas

coisas punham uma nota solitaria, nao o sentia seu.

Horrorigou-se nelle o sonho pertinaz.

E Camilla Maia, numa reapparicao, levou-a de

novo, offerecendo-lhe perigosos vestidos.

Era uma presenca inquietante, molesta, a desse

ser de pequenino sorriso, que nao partilhava das suas

obscuras angustias.

Quiy protestar. Alma perguntou-lhe quantos

presentes lhe tinha dado.

Passou a sonhar deante das liquidacoes.

Percebia desoladamente que ela nao era a mulher que tinha amado.

Voltou a procurar Frederico Carlos Lobao que

lembrava, numa triste gordura, a sua portuguega

cataclysmica. Ela voltara para o trahir de novo.

Nos passeios longos de bonde, pela noite a-toa,

agualados na importancia que davam as minucias

heroicas das proprias batalhas inglorias, indagavam

se era possivel que na vida nao houvesse para eles

os poemas consolantes.

E inventavam o passado:

- Elya, uma vez, me disse... E eu disse..

Ia lendo um livro. Esbarrou a uma esquina com

Dagoberto Lessa. E o venenoso homen calvo, apossando-se delle, como de uma presa perdida, lancou-o

num barathro de duvidas e revoltas. Contou-lhe,

sob palavra de honra, que ela tinha outro amante,

a cidade toda sabia...

Andaram vagarosos na tarde confidente, pa-

A TRIIOGIA DO EXfLIO

rando, proseguindo. Dagoberto era uma vocacao

exercitada de bombeiro do amor. Sentia-se apparelhado de escadas, de cordas, de mangueiras.

O outro escutava-o como uma creanca. Precisava deixar aquela Lucrecia Borgia.

Soffria nuito. Decidiu-se covardemente. Nao

voltaria a casa aquela tarde. Estava ao lado de

Lobao que fora chamado. Ficaria com ele. Era o

seu leal amigo. Vinha-lhe uma irreprimivel vontade

de chorar.

seeco, Dagoberto partiu

Solennemente

para

separafcs. Alma fel-o sentar, indifferente. E soube

que Joao a abandonava com todos os moveis, retirando apenas os livros, a mala e os objegtos intinos.

Camilla apparecen

de repente, radiosa, com

um chapeu claro, num vestido azul de franja de

seda. E interveie, ironica e violenta, longe daquelya

humilde aventura. Trouxas eram as mulheres! Alma, “um sugco", nas maos daquelle miquiado!

Dagoberto, enfiada a dolorosa carapuca, retesou-se rapidamente de odios, de venenos.

A mulher petuulante, decidida, inprevista, achava

grosseiro o procedimento do anante e mais ainda o

do novidadeiro.

Num arrebatamento de discurso, ele levantara-se. Repeliu sonoro. Classificou as mulheres. E,

furioso ante a inetggttavel arrogancia da contendora elegante, gritou, num supremo argumento, que

era da policia, que prenderia as duas...

Alna continha o seu odio fulgurante a un

canto.

Canilla apostrophou-o num esganicado grito:

-- Indecente! Secreta! Sae,azar!

Ele teve uma rabanada heroica da capa hespanhola :

- Pronlptuariada!

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