A Escada - Bloco 23 A Trilogia do Exílio · Capítulo 78 de 87
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A Escada - Bloco 23

Na manha tepida,

cheia de cantos de passaros e de velas ao

longe, foi para o reconcavo onde a agua

transparente batia. Jogou-se ao mar. Retesou

em cabriolas os musculos das antigas faca-

A EsCADA VERMELHA

nhas, brincou, chamou para a terra. No caminho ensombrado Vitoria Agonia pos a sua

aparicao silvestre, acenando.

Havia festa de luz no mar. Um transatlantico minusculo gravava o fim das aguas.

Ele foi visitar todos os itinerarios da chegada.

Uma confianca diversa da torva tristeza inicial animava-o. Ficou vendo longamente as

ondas do mar largo esbravejarem estriando o

rochedo do Espinhe, molhou na praia as solas de corda das sandalias e ao sol do meiodia estirou-se para dormir como um animal,

na pedra avancada da ilha.

Jorge sabia que a trama de ouro do destino se entrelaca a trama sem luz. Claro Du-

OSWALD DE ANDRADE

tra nao vinha busca-lo na suposta efusao, ner

Carlos, nem Nora, nem Gulnare.

Uma noite ele aprestou-se a partir na lancha de Quim Joao que aparecia afinal aos seus

olhos aflitos na fimbria escura das ondas

grossas. O mar fumava-a como um cigarro.

Era ela — desaparecia, brilhava, desaparecia.

No embarcadouro a voz estridula do maritimo disse-lhe que Carlos telefonara de Sao

Paulo. So poderia vir dai a uma semana. Ele

despediu-se da gente da ilha. Beijou no rosto Vitoria Agonia que estacava numa surpresa. Desceu a pedra, levando a maleta de tela

do Castro. Saltou.

No despegar do reconcavo, sentado a tol.

da junto de Quim Joao, esvagiou o revolver

para a noite, numa salva ao refugio.

Uma fileira de luzes alargou-se, abracou-o. Transatlanticos iluminados saiam. Era

Santos.

Ja em terra, despediu-se num abraco de

Quim Joao. Um bonde, um veiculo humano

estacava ali. Jorge sentou-se a um banco. O

A ESCADA VERMELHA

bonde partiu. Gente desembaracada, da cidade maritima, entrava conversando alto. A

praia de residencias desdobrou-se, a cidade

cerrada apareceu.

Jorge sentia comovido o regresso a luminosa poeira da vida. Havia tumultos festivos nas esquinas, nos bars. Uma musica de

circo tocou para a sua saudade. Um carrussel

cheio de luzes punha melancolia na noite, onde bonecos desengoncados se extasiavam.

Apeou no centro. Lembrou-se vagamente

de ir para um hotel. Sentou-se antes a um café. Todos os homens, de todas as mesas, divertiam-se, falavam. Saiu.

E levando a malinha, jornais comprados

e uma vontade humilde de chorar, nervosamente,epilepticamente,caminhou pelas ruas.

Na ante-madrugada, ele acordara no

quarto estranho do hotel. Vestiu-se. Pagou

em baixo. Foi para a estacao pelas ruas desiluminadas.

O trem partiu as seis horas. Comecara a

clarear.

OSWALD DE ANDRADE

Jorge D'Alvelos ia num carro de segunda

classe. Uma serenidade tomara-o.

Gente simples, calmos derrotados da vida, juntavam-se nos bancos de pau ao seu

lado. Ele olhou a paisagem que corria. No

claro azul fitas vermelhas alongavam-se alem

dos morros negros.

No atelier a procissao das figuras esperava-o na postura das criacoes.

Pos-se a trabalhar. Em duas'semanas

terminou uma estatua de Gulnare.

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