A Escada - Bloco 23
Na manha tepida,
cheia de cantos de passaros e de velas ao
longe, foi para o reconcavo onde a agua
transparente batia. Jogou-se ao mar. Retesou
em cabriolas os musculos das antigas faca-
A EsCADA VERMELHA
nhas, brincou, chamou para a terra. No caminho ensombrado Vitoria Agonia pos a sua
aparicao silvestre, acenando.
Havia festa de luz no mar. Um transatlantico minusculo gravava o fim das aguas.
Ele foi visitar todos os itinerarios da chegada.
Uma confianca diversa da torva tristeza inicial animava-o. Ficou vendo longamente as
ondas do mar largo esbravejarem estriando o
rochedo do Espinhe, molhou na praia as solas de corda das sandalias e ao sol do meiodia estirou-se para dormir como um animal,
na pedra avancada da ilha.
Jorge sabia que a trama de ouro do destino se entrelaca a trama sem luz. Claro Du-
OSWALD DE ANDRADE
tra nao vinha busca-lo na suposta efusao, ner
Carlos, nem Nora, nem Gulnare.
Uma noite ele aprestou-se a partir na lancha de Quim Joao que aparecia afinal aos seus
olhos aflitos na fimbria escura das ondas
grossas. O mar fumava-a como um cigarro.
Era ela — desaparecia, brilhava, desaparecia.
No embarcadouro a voz estridula do maritimo disse-lhe que Carlos telefonara de Sao
Paulo. So poderia vir dai a uma semana. Ele
despediu-se da gente da ilha. Beijou no rosto Vitoria Agonia que estacava numa surpresa. Desceu a pedra, levando a maleta de tela
do Castro. Saltou.
No despegar do reconcavo, sentado a tol.
da junto de Quim Joao, esvagiou o revolver
para a noite, numa salva ao refugio.
Uma fileira de luzes alargou-se, abracou-o. Transatlanticos iluminados saiam. Era
Santos.
Ja em terra, despediu-se num abraco de
Quim Joao. Um bonde, um veiculo humano
estacava ali. Jorge sentou-se a um banco. O
A ESCADA VERMELHA
bonde partiu. Gente desembaracada, da cidade maritima, entrava conversando alto. A
praia de residencias desdobrou-se, a cidade
cerrada apareceu.
Jorge sentia comovido o regresso a luminosa poeira da vida. Havia tumultos festivos nas esquinas, nos bars. Uma musica de
circo tocou para a sua saudade. Um carrussel
cheio de luzes punha melancolia na noite, onde bonecos desengoncados se extasiavam.
Apeou no centro. Lembrou-se vagamente
de ir para um hotel. Sentou-se antes a um café. Todos os homens, de todas as mesas, divertiam-se, falavam. Saiu.
E levando a malinha, jornais comprados
e uma vontade humilde de chorar, nervosamente,epilepticamente,caminhou pelas ruas.
Na ante-madrugada, ele acordara no
quarto estranho do hotel. Vestiu-se. Pagou
em baixo. Foi para a estacao pelas ruas desiluminadas.
O trem partiu as seis horas. Comecara a
clarear.
OSWALD DE ANDRADE
Jorge D'Alvelos ia num carro de segunda
classe. Uma serenidade tomara-o.
Gente simples, calmos derrotados da vida, juntavam-se nos bancos de pau ao seu
lado. Ele olhou a paisagem que corria. No
claro azul fitas vermelhas alongavam-se alem
dos morros negros.
No atelier a procissao das figuras esperava-o na postura das criacoes.
Pos-se a trabalhar. Em duas'semanas
terminou uma estatua de Gulnare.