Os Condemnados - Bloco 19 A Trilogia do Exílio · Capítulo 19 de 87
Obra Menu

Os Condemnados - Bloco 19

TRILOGIA DO EXfLIO

O,poente na Praca da Republica fazia tela vermelha as arvores e as hermas escuras.

Joao do Carmo

atravessou o jardim. Sentia

precipitar-se a sua tragedia. Mais do que nunca, O

amor enraizado estuava, farfalhava, subia. Era seu

dever salvafa. Via num gelado terror o meio infame

que a tentava de novo. As narrativas de risonhas

partidas com Camilla davam-lhe minutos medonhos.

O pessimismo inveterado de Dagoberto suffocava-o.

Fioava aterrado ante a miseravel hypothese de uma

volta aos rendez-vous suppliciaes.

Jantou no tumulto differente de outro restaurante, perto do Braz.

Havia uma Estacao da Luiz panoramica, na

parede do fundo. E a alma multifaria do bairro

cantava pelas cem guelas desafinadas de um ordhrestrao de campainhas.

Comeu sem sentir.

Foi atravessar a noite silenciosa, rondando a

rua de lampeoes, sem saber se ela estava dentro da

casa ou nao chegara ainda.

Regressou numa extenuacao, quando ja os bondes pesados sabiam e carrogas cheias rodavam para

os mercados.

Estacou, Chegara a porta do casarao de coymmodos. Para as bandas do Tiete, havia um comeco de

aurora vermclha.

Soube por Dagoberto que a portuguesita de

cabares que voltara para a companhia de Frederico

Carlos Lobao, fugira de novo para o Rio. Procurou

o baliemio trahido. Ele ia sahir. Estava no fim da

escada. Trazia uma maleta nas maos, debordava intengoes de viajar.

cigarro por tragada

nervosa.

Inutilizava um

Tinha a patheta enterrada nos olhos enormes.

Andaram longamente falando confidencias. Um

condescendia em ser o publico amavel do outro, pre-

parando no soturno cerebro o que expor tambem,

defender e criticar.

A vida comprimia-se nas duas humanas caixas

apaixonadas, onde se musicava o futuro triste, O

passado horrivel, o presente sem remedio. Um conforto, exigido mutuamente, enlacava as duas almas

alliadas, na ludta contra o inexplicavel, na justificacao corhmovida dos agtos, na apotheose das proprias transfiguracoes.

Eram dois pallidos cavalleiros da Palestina dos

devotamentos.

mundo,· se os escutasse, erguerlhes-ia epopeas, fal-os-ia lesgiladores e santos, darlhes-ia cortejos. A cidade passava por eles na tarde

longa e humilde.

Frederico Carlos Lobao nao se conteve mais.

Levou Joao do Carmo ao bordel donde fugira a

travessa mulher que o perdia.

Numa sala de hotel familiar, com oleographias

emmolduradas nas paredes, coristas de opereta delambian-se em romances exaggerados com bachareis

de fraque.

Um piano resoava.

A uma mega do fundo, uma briga estalou. Um

moco moreno, teso e de pince-nez, largara o prato

e o copo e, levantado, insuultava. Disse um ultimo

palavrao e saiu.

Uma mulher magra chorava, num lenco. As

outras desolavam-se em altas vozes:

Ora, o Maneco! O Maneco!

Quando a offendida se consolou, expandiu-se

para o ambiente. Era uma mulher de sentimentos e

de educacao. Tinha fanilia.

Acalma-te, Thereza! diziam de redor.

Mas ela prqseguiu, redobrando de furia a cada

conselho. Subito, voltou-se para os dois homens

tristes que se haviam sentado, pediu-lhes desculpas

c pog-se de novo a comer.

Muito branca, nas sandalias altas, Alma deixou

perceber que se passava qualquer coisa de anormal,

de serio, de definitivo. Joao quig saber, numa volupia de calvarios.

Perguntou-lhe se conhecia o Telles Mello da

Expansao Elegtrica... um pouco

capenga... Davalhe uma casa..

Ele agcedia, prorpto a todos os holocaustos

uma boa vontade, onde la dentro, no emitanto, o profundo amor de sua vida se despeitava, calmo, resoluto, terrivel.

Nela, passavam claroes tristes, logo vencidos.

E lle pediu para beijar Luquinhas antes de

partir.

Um cabaree chamou-o. Uma orqhestra guinchava. Do tecto chinfrim, pendiam enfeites de papel verde e amarello.

Grupos de homens e mulheres bebiam e esguelavam. O cabaretier dominava o tumulto. Tinha maos

enormes e uma cara de conego.

A musica parou. Uma mulher veiw sentar-se X

sua meya. Era de Lisboa. Tinha os olhos brilhantes

e os labios rubros. Elye pediu-lhe que cantasse, depois de offerecer-lhe un licor.

Queres que ell cante?

Deu uma viva risada e indagou:

E que ha-de ser? Uma coisa de sadades?

Qualquer cantiga.

Sei cancoes de Portugal. Ai que ja la vao

um ano!

E' bonita Lisboa?

Mais do que o Rio de Janeiro.

Mais do que o Rio!

E' sim, homem.

Depois de um silencio, Joao perguntou-lhe que

fazia.

a opereta nova.

Vou amanha ensaiar uima

Voce quer vir ao Apollo?

.-- Posso ir.

Ela virou o calice, levantou-se cantarolan:lo

pela sala. Depois disse:

Ora, o Palhares nao veie. Venho ja, sim?

Alma, numa presenca real, afflidtiva, nao O

deixava.

Ele

obgecava-se pelos ambientes prostituidos.

Surprebendia-se evocando-a nas silhuetas de sudario,

procurando reatar nas vidas canalhas

gestos seus,

o futuro seu. Um rolar confuso de presentimentos

desfiava-se-lhe no peito. Onde estaria? Dormindo

ao lado do ouutro, o que a comprara.

E num éco doloroso e profundo, batiam nelle

todos os barulhos da vida.

Pela porta volante da casa alegre, um homem

grisalho entrou num atropelo, empurrado por uma

Hespanhola gritante.

1/1
Menu

Fazer anotação