A Estrella de Absyntho - Bloco 10
Ele te fara sombra com Suas azas e tu
esperaras debaixo de Suas pennas. As Suas
verdades te cercarao como um escudo e nao
te perturbarao os temores nogturnos, nem a
selta que voa de dia, nem o ar contagioso que
anda nas trevas, nem o encontro do demonio
meridiano..."
Houve uma pausa: A doente reabriu os
olhos marinhos,liquidos de lagrimas.A oracao continuou calorosa, no desespero crescenfe de Jorge, entrecortada nos labios frouxos
de Alma.
"O mal nao chegara para ti. O flagello estara longe de tua casa, porque, em
feu favor, ele mandou os Seus anjos que te
guardarao em todos os teus caminhos...
No corredor matinal, Irman Maria interpelou-o.
Escute, Senhor.Porque nao chama
um padre?
Ela morre?
Nao digo isso. Tenho visto outras assim
se salvarem.
Assim... nesse estado?
Nesse estado.
Mas o doutor me falou em peritonite...
Ela esta passando mal, precisa de
conforto. Consinta que eu traga o nosso capehlao, um padre velho..
Amanha, respondeu Jorge, abstragto.
A noite passou-se na mesma desesperanca. Ele dormiu como sempre, na polé de uma
cadeira exigua.
Irman Maria veid muito cedo. A temperatura continuava alta. Os vomitos reappareceram. Reappareceram as dores fulgurantes
e os solucos. A respiracao era intercadente,
oscillada.
Jorge, que acompanhara a freira até o
corredor, disse-lhe:
—- Traga o padre, mas avise-o de que nao
a assuste.
O doutor appareceu as nove horas. O capellao edoso, muito limpo na sua estreita sotaina, seguia-o.
Trouxe-lhe um amigo, disse o medico
a enferma.
Ela sorriu, vendo o sacerdote que se
adeantava, falando:
Minha filha... vae sarar logo... Esta
melhor?
Assim... murmurou ela.
Entao. Coragem! proseguiu ele sentando-se a caheceira do leito. Isto vae passar..
O medico apressado, no seu grande avental, afastou-se. Alma continuava a sorrir meigamente para o confessor. Jorge deixou-os,
seguiu o doutor, interrogando-o. Tinham sahido para o corredor.
So um milagre..
Esta perdida?
E' a minha opiniao. Nao pudemos debellar a peritonite. Houve ruptura das trompas na queda. Avisou a familia?
Flla nao tem familia.
Esperemos um milagre, disse o medico
despedindo-se.
Jorge voltou. Percebeu que Alma se confessava. Um soluco longo convulsionou-o todo. Atravessou vivanente a passagem entre os
leitos a approximou-se numa violencia de
choro.
O padre absolvia a doente reanimada, segurando-lhe a mao. Com passos vacillantes,
Jorge ajoelhou-se junto a cama. E dilacerado
de dor intima, com a voz cortada, pediu perdao. O padre procurava levantal-o, contelo,
mas ele insistiu num tumulto de lagrimas:
— Perdao! Eu quero que ela me perdoe.
Tinha a mascara, torturada, franzida, lavada de pranto. Alma olhava-o comovida,
sorrindo.
Nao, meu filho, disse energico o padre. Jesus perdoou tudo, basta!
Jorge debrucou-se sobre a mao de Alma:
ela acariciou-o sem forcas. E ele ficou alli,
chorando aos pes do sacerdote.
A peritonite progredira, frustrando a drenagem laparatomica. Jorge, desilludido, num
enlouquecimento, esperava ainda um milagre.
Toda a sua fé infantil voltara. Deus podia tudo, podia tambem resuscital-a da comecada
agonia, extinguir-lhe a febre maldidta, reter
aqueles espantosos vomitos inuteis.
Fazia
promessas doidas, surprehendentes.
Senhor de Pirapora! Esculpirei o vosso nilagre para a Sala das Gracas! Subirei de
joelhos o vosso altar carregando-a!
A freira veiu accordal-o do seu canto. Ele
olhou-a com olhos vagos, assustados, sem comprehender.
Ela havia trazido uma vela de cera ja
gasta por outros agonizantes e um pequenino
livro prelo de oracoes.
Seriam dez horas da manha. A luz era
doirada e azul. O medico ordenara que se
abrisse a janella proxima para o jardim cheio
de arvores. La fora o ceu alto faiscava.
A enfermeira approximou-se e logo depois o padre appareceu. Entao, no silencio que
cortava a respiracao oppressa no leito, a voz
de Irman Maria ergueu-se numa fieira de
preces.
Duas lagrimas isoladas correram pela face agonica. E, de novo, a voz pertinaz e cantante da freira elevou-se na gloria matinal
que enchia a sala.
Era uma ladainha que o padre acompanhava e, na distancia, as convalescentes repetiam:
Santa Mae de Deus
orae por ela!
Santa Maria Magdalena
orae por ela!
A litania resoava:, era um supremo appello aos santos pontifices, aos confessores,
aos monges e eremitas. Subito, mudou:
-Sede propicio! Perdoae-lhe Senhor!
Por vosso nascimento! Por vossa cruz e paixao!
A angustia dyspneica parecia crescer na
cama, alongar-se, affligtiva, suffocante.
A freira accendeu a vela benta, chamou
Jorge que se atirara de brucos na sua cadeira. Ele veiu tropego, collocou o cirio na mao
desfallecida de Alma, e, de joelhos, seguiu as
oracoes.
A freira, eredta, apostolica, exclamava:
"Parti deste mundo, alma christa! Em
nome de Deus padre omnipotente,que vos
criou;.em nome de Jesus, filho de Deus yivo
que por vos padeceu; em nome do Espirito
Santo que se diffundiu em vos; em nome dos
Thronos e Dominacoes; em nome dos Principados ep Potestades; em nome dos Cherubins
e Seraphins...
Jorge d'Alvellos nao se reteve mais. Apertando frouxamente o cirio na mao do seu
amor agonizante, solucou. Eram dois haustos
de respiracao violenta, incontida, que o tomavam, uniformes, isochronos,coino se um
braco invisivel e de ferro o sacudisse implacavelmente pelo peito! Percebeu atraves da
cortina de lagrimas, ao seu lado, os circums-
tantes. Ehes permaneciam extagticos como
modelos, em composicao esculptural, para um
grupo da Desgraca.
Alma entrara em agonia. Com os olhos
imobilizados para sempre, da garganta saHiam-lhe sons enrouquecidos e surdos..
Houve um ligeiro tumulto. O padre erguera-se, approximara-se. E de pé, engrandecido no quadro comecou:
Kyrie Eleison!
Christe Eleison!
Kyrie Eleison!
A doente agitava-se. Teve uma primeira
conloreao dolorosa de mascara.
Vas espiritualis!
Rosa mystica!
Turris Ehurnea!
Domus Aurea!
Foederis Arca!
Janua Coeli!
Janua Coeli!
Ela morria. Teve uma contorsao mais
dolorosa.
- Janua Coeli! clamou de novo o sacerdote, no silencio horrivel, de bracos erguidos,
nervosos, como a sacudir gonzos invisiveis.
E ela acalmou-se de repente. Partiu na
diregcao da Porta que o padre fizera estremecer e abrir-se, emquanio carrilhoes a seguil-a cantavam a gloria de Deus na manha.
Pelos vidros do taxi parado, Carlos Byron
que vinha com Torresvedras, viu o chauffeur
e o guarda vermelho e rapado do largo portao
dos fundos da Santa Casa se disputarem sem
resultado. Gritou com raiva, pela janella, que
era para o enterro.
O homem gesticulou justificativas e abriu
lentamente, desvendando no terreiro, junto ao
necroterio, dorsos negros e luzidios de cavallos emplumados e um carro con doirados no
oblongo da caixa.