A Estrella de Absyntho - Bloco 10 A Trilogia do Exílio · Capítulo 37 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 10

Ele te fara sombra com Suas azas e tu

esperaras debaixo de Suas pennas. As Suas

verdades te cercarao como um escudo e nao

te perturbarao os temores nogturnos, nem a

selta que voa de dia, nem o ar contagioso que

anda nas trevas, nem o encontro do demonio

meridiano..."

Houve uma pausa: A doente reabriu os

olhos marinhos,liquidos de lagrimas.A oracao continuou calorosa, no desespero crescenfe de Jorge, entrecortada nos labios frouxos

de Alma.

"O mal nao chegara para ti. O flagello estara longe de tua casa, porque, em

feu favor, ele mandou os Seus anjos que te

guardarao em todos os teus caminhos...

No corredor matinal, Irman Maria interpelou-o.

Escute, Senhor.Porque nao chama

um padre?

Ela morre?

Nao digo isso. Tenho visto outras assim

se salvarem.

Assim... nesse estado?

Nesse estado.

Mas o doutor me falou em peritonite...

Ela esta passando mal, precisa de

conforto. Consinta que eu traga o nosso capehlao, um padre velho..

Amanha, respondeu Jorge, abstragto.

A noite passou-se na mesma desesperanca. Ele dormiu como sempre, na polé de uma

cadeira exigua.

Irman Maria veid muito cedo. A temperatura continuava alta. Os vomitos reappareceram. Reappareceram as dores fulgurantes

e os solucos. A respiracao era intercadente,

oscillada.

Jorge, que acompanhara a freira até o

corredor, disse-lhe:

—- Traga o padre, mas avise-o de que nao

a assuste.

O doutor appareceu as nove horas. O capellao edoso, muito limpo na sua estreita sotaina, seguia-o.

Trouxe-lhe um amigo, disse o medico

a enferma.

Ela sorriu, vendo o sacerdote que se

adeantava, falando:

Minha filha... vae sarar logo... Esta

melhor?

Assim... murmurou ela.

Entao. Coragem! proseguiu ele sentando-se a caheceira do leito. Isto vae passar..

O medico apressado, no seu grande avental, afastou-se. Alma continuava a sorrir meigamente para o confessor. Jorge deixou-os,

seguiu o doutor, interrogando-o. Tinham sahido para o corredor.

So um milagre..

Esta perdida?

E' a minha opiniao. Nao pudemos debellar a peritonite. Houve ruptura das trompas na queda. Avisou a familia?

Flla nao tem familia.

Esperemos um milagre, disse o medico

despedindo-se.

Jorge voltou. Percebeu que Alma se confessava. Um soluco longo convulsionou-o todo. Atravessou vivanente a passagem entre os

leitos a approximou-se numa violencia de

choro.

O padre absolvia a doente reanimada, segurando-lhe a mao. Com passos vacillantes,

Jorge ajoelhou-se junto a cama. E dilacerado

de dor intima, com a voz cortada, pediu perdao. O padre procurava levantal-o, contelo,

mas ele insistiu num tumulto de lagrimas:

— Perdao! Eu quero que ela me perdoe.

Tinha a mascara, torturada, franzida, lavada de pranto. Alma olhava-o comovida,

sorrindo.

Nao, meu filho, disse energico o padre. Jesus perdoou tudo, basta!

Jorge debrucou-se sobre a mao de Alma:

ela acariciou-o sem forcas. E ele ficou alli,

chorando aos pes do sacerdote.

A peritonite progredira, frustrando a drenagem laparatomica. Jorge, desilludido, num

enlouquecimento, esperava ainda um milagre.

Toda a sua fé infantil voltara. Deus podia tudo, podia tambem resuscital-a da comecada

agonia, extinguir-lhe a febre maldidta, reter

aqueles espantosos vomitos inuteis.

Fazia

promessas doidas, surprehendentes.

Senhor de Pirapora! Esculpirei o vosso nilagre para a Sala das Gracas! Subirei de

joelhos o vosso altar carregando-a!

A freira veiu accordal-o do seu canto. Ele

olhou-a com olhos vagos, assustados, sem comprehender.

Ela havia trazido uma vela de cera ja

gasta por outros agonizantes e um pequenino

livro prelo de oracoes.

Seriam dez horas da manha. A luz era

doirada e azul. O medico ordenara que se

abrisse a janella proxima para o jardim cheio

de arvores. La fora o ceu alto faiscava.

A enfermeira approximou-se e logo depois o padre appareceu. Entao, no silencio que

cortava a respiracao oppressa no leito, a voz

de Irman Maria ergueu-se numa fieira de

preces.

Duas lagrimas isoladas correram pela face agonica. E, de novo, a voz pertinaz e cantante da freira elevou-se na gloria matinal

que enchia a sala.

Era uma ladainha que o padre acompanhava e, na distancia, as convalescentes repetiam:

Santa Mae de Deus

orae por ela!

Santa Maria Magdalena

orae por ela!

A litania resoava:, era um supremo appello aos santos pontifices, aos confessores,

aos monges e eremitas. Subito, mudou:

-Sede propicio! Perdoae-lhe Senhor!

Por vosso nascimento! Por vossa cruz e paixao!

A angustia dyspneica parecia crescer na

cama, alongar-se, affligtiva, suffocante.

A freira accendeu a vela benta, chamou

Jorge que se atirara de brucos na sua cadeira. Ele veiu tropego, collocou o cirio na mao

desfallecida de Alma, e, de joelhos, seguiu as

oracoes.

A freira, eredta, apostolica, exclamava:

"Parti deste mundo, alma christa! Em

nome de Deus padre omnipotente,que vos

criou;.em nome de Jesus, filho de Deus yivo

que por vos padeceu; em nome do Espirito

Santo que se diffundiu em vos; em nome dos

Thronos e Dominacoes; em nome dos Principados ep Potestades; em nome dos Cherubins

e Seraphins...

Jorge d'Alvellos nao se reteve mais. Apertando frouxamente o cirio na mao do seu

amor agonizante, solucou. Eram dois haustos

de respiracao violenta, incontida, que o tomavam, uniformes, isochronos,coino se um

braco invisivel e de ferro o sacudisse implacavelmente pelo peito! Percebeu atraves da

cortina de lagrimas, ao seu lado, os circums-

tantes. Ehes permaneciam extagticos como

modelos, em composicao esculptural, para um

grupo da Desgraca.

Alma entrara em agonia. Com os olhos

imobilizados para sempre, da garganta saHiam-lhe sons enrouquecidos e surdos..

Houve um ligeiro tumulto. O padre erguera-se, approximara-se. E de pé, engrandecido no quadro comecou:

Kyrie Eleison!

Christe Eleison!

Kyrie Eleison!

A doente agitava-se. Teve uma primeira

conloreao dolorosa de mascara.

Vas espiritualis!

Rosa mystica!

Turris Ehurnea!

Domus Aurea!

Foederis Arca!

Janua Coeli!

Janua Coeli!

Ela morria. Teve uma contorsao mais

dolorosa.

- Janua Coeli! clamou de novo o sacerdote, no silencio horrivel, de bracos erguidos,

nervosos, como a sacudir gonzos invisiveis.

E ela acalmou-se de repente. Partiu na

diregcao da Porta que o padre fizera estremecer e abrir-se, emquanio carrilhoes a seguil-a cantavam a gloria de Deus na manha.

Pelos vidros do taxi parado, Carlos Byron

que vinha com Torresvedras, viu o chauffeur

e o guarda vermelho e rapado do largo portao

dos fundos da Santa Casa se disputarem sem

resultado. Gritou com raiva, pela janella, que

era para o enterro.

O homem gesticulou justificativas e abriu

lentamente, desvendando no terreiro, junto ao

necroterio, dorsos negros e luzidios de cavallos emplumados e um carro con doirados no

oblongo da caixa.

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