A Escada - Bloco 17 A Trilogia do Exílio · Capítulo 72 de 87
Obra Menu

A Escada - Bloco 17

Folheara a ilha como quem folheia a Tempestade de Shakespeare. A historia de Elida, a Senhora do Mar de Ibsen, aparecia-lhe no encantamento envolvente das ondas. Aquelas

tres cabecas fulvas e selvagens de meninas

levariam mais tarde para a terra o secreto

compromisso de um noivado funesto com o

mar. Ai! de quem amasse nas cidades empoeiradas uma filha de faroleiro. Chegaria

vingadoura a hora do nauta desconhecido

que reclama os seus direitos pela voz oceanica das recordacoes.

A ESCADA VERMELHA

Os desemhargues matinais dos homens

encapotados da lancha faziam-no viver deliciosos minutos de infancia com Julio Verne

ao lado.

E mesmo Robison Crosue que lhe aparecera sempre caricatural e litografico, com

indios palermas e roupas carnavalescas, retomava direitos de humanidade. O homem

so de De Foe, sem amor e sem gritos, comecava a interessar o homem so que ele era, sem

amor tambem e sem eco para os seus gritos

que amorteciam a pouco e pouco nos barulhos

da agua.

As primeiras semanas do europeu no

desterro verde do continente achado punham-lhe estremecimentos tristes. Como devia ter sido o Brasil inicial para os abandonados que viam perder-se para sempre, nas

ondas crespas, os ultimos panos das ultimas

caravelas. Que adeus devia ter sido o deles

nas noites comecadas.

Essa inquietacao de voltar ao foco hulmano, de tornar ao lar, de rever a simpatia

OSWALD DE ANDRADE

das civilizacoes possuia-o agora numa hipertensao. Era um chamado feito de pedidos lacrimais, de desencontrados gestos, de aflicoes

infantis pelos rochedos.

Ele queria refugiar-se na arte que por

vezes o serenara como um deus. E a santificacao e a calma so eram possiveis na correspondencia entusiastica das compreensoes. O

Brasil que lhe assombrara a infancia, reaparecia-lhe ali naquele simbolo da rocha entregue a todas as ventanias dos ceus, a todas as

tempestades do largo. Ele precisava voltar

aos repousados silencios dos ateliers criadores. Um chamamento invisivel empolgava-o

naquele exilio. Deixaria o pais brutal que lhe

dera o berco hostil. Encaminhar-se-ia para a

gloria humana das lutas e das redencoes, onde suas maos trabalhariam a propria terra.

Jorge saiu para o luar do ceu benfazejo.

A ESCADA VERMELHA

As ondas cantavam na rocha solitaria. Era

um brinquedo de espuma sob o extase vertical da lua. Voltou ao perdido chale. Vitoria

Agonia deixara flores silvestres em cima da

mesa.

Recostou-se ao leito, pensativo.

E subito uma vontade de chorar acordou

nele. Seria la fora o lamento inutil do mar?

Um frenesi feito de desamparos torcia-lhe o

corpo ate as unhas, eletrigava-o.

O mar longinquo cantava para ele tudo o

que morrera.

A ilha era perfeita.Uma Calipso sutil

velava pelos seus dias iguais. Como o inquieto Ulisses, Jorge sentia crescer-lhe no peito

a tosca esperanca das jangadas.

1/1
Menu

Fazer anotação