A Escada - Bloco 17
Folheara a ilha como quem folheia a Tempestade de Shakespeare. A historia de Elida, a Senhora do Mar de Ibsen, aparecia-lhe no encantamento envolvente das ondas. Aquelas
tres cabecas fulvas e selvagens de meninas
levariam mais tarde para a terra o secreto
compromisso de um noivado funesto com o
mar. Ai! de quem amasse nas cidades empoeiradas uma filha de faroleiro. Chegaria
vingadoura a hora do nauta desconhecido
que reclama os seus direitos pela voz oceanica das recordacoes.
A ESCADA VERMELHA
Os desemhargues matinais dos homens
encapotados da lancha faziam-no viver deliciosos minutos de infancia com Julio Verne
ao lado.
E mesmo Robison Crosue que lhe aparecera sempre caricatural e litografico, com
indios palermas e roupas carnavalescas, retomava direitos de humanidade. O homem
so de De Foe, sem amor e sem gritos, comecava a interessar o homem so que ele era, sem
amor tambem e sem eco para os seus gritos
que amorteciam a pouco e pouco nos barulhos
da agua.
As primeiras semanas do europeu no
desterro verde do continente achado punham-lhe estremecimentos tristes. Como devia ter sido o Brasil inicial para os abandonados que viam perder-se para sempre, nas
ondas crespas, os ultimos panos das ultimas
caravelas. Que adeus devia ter sido o deles
nas noites comecadas.
Essa inquietacao de voltar ao foco hulmano, de tornar ao lar, de rever a simpatia
OSWALD DE ANDRADE
das civilizacoes possuia-o agora numa hipertensao. Era um chamado feito de pedidos lacrimais, de desencontrados gestos, de aflicoes
infantis pelos rochedos.
Ele queria refugiar-se na arte que por
vezes o serenara como um deus. E a santificacao e a calma so eram possiveis na correspondencia entusiastica das compreensoes. O
Brasil que lhe assombrara a infancia, reaparecia-lhe ali naquele simbolo da rocha entregue a todas as ventanias dos ceus, a todas as
tempestades do largo. Ele precisava voltar
aos repousados silencios dos ateliers criadores. Um chamamento invisivel empolgava-o
naquele exilio. Deixaria o pais brutal que lhe
dera o berco hostil. Encaminhar-se-ia para a
gloria humana das lutas e das redencoes, onde suas maos trabalhariam a propria terra.
Jorge saiu para o luar do ceu benfazejo.
A ESCADA VERMELHA
As ondas cantavam na rocha solitaria. Era
um brinquedo de espuma sob o extase vertical da lua. Voltou ao perdido chale. Vitoria
Agonia deixara flores silvestres em cima da
mesa.
Recostou-se ao leito, pensativo.
E subito uma vontade de chorar acordou
nele. Seria la fora o lamento inutil do mar?
Um frenesi feito de desamparos torcia-lhe o
corpo ate as unhas, eletrigava-o.
O mar longinquo cantava para ele tudo o
que morrera.
A ilha era perfeita.Uma Calipso sutil
velava pelos seus dias iguais. Como o inquieto Ulisses, Jorge sentia crescer-lhe no peito
a tosca esperanca das jangadas.