A Escada - Bloco 25 A Trilogia do Exílio · Capítulo 80 de 87
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A Escada - Bloco 25

Era o sonho sexual.

Lembrava-se da mae, pequenina, gorda,

cheia de bencas no Amazonas torrido, acarinhando-lhe o despertar convulso de artista.

Ela mandara-o pedir protecao uma vez ao ricaco Antunes. Ele saira numa ante-manha

para ter a primeira decepcao rude da vida.

A obra estava ali no vitorioso e tragico

retorno, a obra pequena e gigantesca. Bendito sonho materno! Jorge estremecia na

sombra palpitante.

E beijava Gulnare toda nua.

Tomou o trem para Santos. Iria de novo

a Iha Verde agora como um visitante qualquer.

OSWALD DE ANDRADE

Nas estacoes intermediarias, foi descobrindo toda uma vida de pequeninas existencias, samburas coloridos, vasilhas de leite,

cestas de frutas. Surpreendeu apostolados, a

professora, o lavrador de suburbio.

Chegou quasi noite. Decidiu nao procurar Claro Dutra que perturbaria o seu silencio.

Havia lua no ceu. Foi a Ponta da Praia.

Tomou a lancha de Quim Joao onde os ajudantes o serviram alegremente. Afastaram-se

pelo mar.

O halito das estrelas descia. A lua enervava a terra.

O artista perdia-se no toldo, junto ao

mastro.

a espia-lo

Visoes lunares comecaram

dos rochedos extaticos. Vinha-lhe agora uma

vontade antagonica de refugiar-se na sensualidade que lhe prometia a fragil resistencia de

Vitoria Agonia. Lembrava-se a aproximacao

da ilha das coxas elasticas e brancas enfaixa-

A ESCADA VERMELHA

das nas calcas estreitas de algodao que vira

nos brinquedos.

Os maritimos assoviaram. Uma debil luz

anunciou a velha casa. Chegaram. A cozinha

encheu-se de rumores. As criancas acordaram. O fogo ardeu para o café.

Vitoria Agonia falou-lhe baixinho, saudosa, feliz. Uma sentimentalidade represada

estuou efusiva a lareira no enegrecido quarto.

Jorge saiu so para o luar do ceu benfazejo. As ondas cantavam sob o extase da lua.

Voltou ao chale. Vitoria Agonia pusera

flores silvestres sobre a mesa.

Ficou pensativo, recostado ao leito.E

subito uma crise nervosa acordou nele. Um

frenesi feito de desamparos torcegava-lhe o

corpo ate as unhas, eletrizadas.

O mar longinquo cantava tudo o que

morrera.

OSWALD DE ANDRADE

Voltou para Santos na lancha aparecida

as quatro horas.

A tarde perfumou de luz os morros, esverdeou o mar, esfriou a terra. Tudo enegreceu num pontilhamento de luzes.

Ao subir a serra, sentiu a vida penosa

do coracao, o orgao ha tanto tempo lesado.

Regresou a Sao Paulo, ao Clarim e a Gulnare.

Ela vingara todas as outras.

Um pessimismo mortal invadiu-o. Que

fora ele sempre desde o nascimento? Tinha

A EsCADA VERMELHA

sido aproveitado para todos os interesses

alheios. Tinham-no ludibriado. Tinham-no

despido a pouco e pouco das alegrias da existencia.

A palavra Revolta veio de repente bro

tar-lhe a fonte seca da alma.

Carlos Bairao e a desconhecida tinhan

subido de automovel a Sant'Ana e procurado

o Clarim.

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