A Estrella de Absyntho - Bloco 18 A Trilogia do Exílio · Capítulo 45 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 18

Jantaram num desvao do centro, na descoberta interessada de um restaurante que

lembrava ao esculptor casas de pasto de Roma.

Seriam oito horas quando penetraram no

redobrado tumulto da terca-feira gorda.

Automoveis e vehiculos voltavam mais

cedo da Avenida para a celebracao dos prestitos nas ruas centraes. E enrolavam a cidade

num desfile imenso, garboso e lento.

Os dois artistas caminhavam na busca iynocente do maravilhoso que passava nos carros, com toilettes ettranhas, evocativas de sonho, restauradoras de epocas e paiges.

Chegaram ao Largo de Sao Bento. Tomaram pela grande abertura asphaltada da Rua

Libero Badaro.

O corso estendia-se, parado numa subita

syncope; e eles divisaram ate em baixo, longa,: intermina, dobrando esquinas, fazendo

voltas inteiras de quarteiroes, atravancando

os viadugtos, a linha desmesurada de allego-

rias rolantes. Pernas enluvadas sahiam de

saias curtas de setim; sobre capotas altas, Colombinas de gaze fechavam, num recorte, O

encosto dos torpedos arfantes; bouquets de

pierrots e pierrettes ornavam pontas de taxis.

E os dois amigos seguiram, bebendo pelos

olhos a sugcessao de carros, automoveis, caminhoes, que faziam a exhibicao processional,

sem mascara, da urbe cosmopolita e millionaria.

Subiram. As vias publicas estavam tomadas pelo glorioso desfile: era toda uma colleccao viftoriosa e intermina de seletcionados na

forte vida da America, que se mostrava assim

no deshabille da noite tropical. Os mocos cultivados no esporte, atilados no comercio; as

mocas lindas, esbeltas, com os olhios avivados,

as faces pallidas, as bogcas carnosas, offerecendo risos, revelavam a mocidade apurada

em um seculo de investida migratoria por populacoes heterogeneas, vindas bater alli, num

grande sonho, de todas as partes do globo.

A's vezes, a suburra passava, a pe, bamboleando em musicas nacionaes, o fundo perdido das sedugcoes creoulas de umbigadas e

contactos.

As mocas, de cima dos carros, olhavam

imperturbaveis, apparentando ignorar o convite lascivo dos maxixes espasmodicos. As

suas maes tinham sido possuidas no rendezyous dos cafezaes ,alinhados e verdes. na sombra das officinas, na agglomeracao dos corticos cidadinos, no alarido das terceiras classes

de paquetes, em travessias atlanticas...

Elas tambem saberiam entregar-se, bel

los animaes, impassiveis, a espera do macho

que viria. Pre?entindo em cada homem rapado e agil, um irmao de destino e de passado

transcontinental, elas promettiam nos olhos

inteligentes, nos sorrisos alvos, nos contactos

de carnes solidas, pernas elasticas, seios duros, pelles de seda, fazer a fecundacao vigtoriosa do futuro, num aperfeicoamento de raca

eleita.

O Brasil velho tainbem passava —

eram

mascaras avulsos, encalistrados nos trajes de

roca, ponches melancolicos cor de fumo, chapeloes tristes de palhinha... Eram no paig

flagellado, ronceiro e bisonho, representantes

desmoralizados duma tentativa punga de esthetica e duma suggestao vaiada de nacionalidade. Acoitavam-se num e outro cavalo

feio, a sombra dos grandes caminhoes ou perdiam-se na indifferenca accentuada da multidao que rodava. A's vezes, juntavam-se em

caravanas lyricas, animando-se entao na marcha e arrastando empoy rebotalhos de racas

vencidas, de povos que desappareciam —

la iam esmoendo uma demonstracao de mu-

sica primitiva e ululante; ou caminhavam nos-talgicos, de passo malandro e sentimental; recompondo serenatas inuteis de antigo interior.

Menina, se eu te pedisse

Um beijinho so de amo..

Jorge pensava dando expansao ao seu instingto de charge:

Foram os treponemas civilizados de

Wilde que escreveram as melhores replicas

de Salome. Nestes versinhos collaboraram de

certo o ankilostomo e o baratao barbeiro.

O desfile continuava con chapeus de mago, sacerdotisas, rainhas, Vinicius bellos e togados como no Quo Vadis' dos theatros.

Passava de novo a suburra gingando.

E ficava em redor do prestito suave, o

povo contente e agcommodado, limpo, capaz,

amanha, de trepar tambem aos toldos feericos coin tunicas e dominos.

Jorge d'Alvellos mergulhou os pes numa

poca de lama. Houve risos em torno Um trecho do passeio havia-se quebrado naquelle

ponto e tinham-no conduzido para alli, num

attrape-nigaud idiota de carnaval. O artista

procurou Torresvedras: ele havia desapparecido na multidao.

Jorge d'Alvellos sentiu-se subitamente

contrariado. Acolheu-se numa grande timidez

por ter ficado so, a um canto de esquina. Perto delle, marmanjos brincavam. Reuniam do

chao macos fofos de serpentinas e jogavamnos uns nos outros. Um guarda magro, de cara

angulosa, sob o capacete londrino, investiu. E

como um dos folioes escapasse por traz de

Jorge, o soldado tomando o esculptor pelo moleque, reprehendeu-o, rude, ameacou-o de prisao.

Ao lado, um homem murmurou um nao

foi élle timido, vendo o esculptor calar-se.

Jorge tinha perdido toda a serenidade bem

humorada. Num subito suor, vira grades de

xadrez.

Foi aos encontroes, certo de que nao acharia mais Torresvedras, certo de que se despejariam de novo sobre élle cornucopias de humilhacoes, de reveges, de maus tratos.

Parara na Rua Direita. Os Bandeirantes

de Momo vinham pelo Viadudto. Longe ainda,

as cornetas annunciavam o prestito.

Jorge ficou num aperto de gente. Ia vel-o.

o desconhecido,o homem que lhe aniquilara

a existencia, sorrindo e gingando. Era ele de

certo quem dirigia o prestito, como dirigira a

sua vida com Alma, as trombetadas.

Num clarao de fachos, entreviam-se na

distancia confusas allegorias. O povo coalhacalcadas: familias defendendo

nas

va-se

creancas, mulatas gordas contendo negrinhos

espevitados. Por detrat do esculptor, um sujeito alto, de fraque, nariz grande e pince-nez

tinha um jornal aberto na mao e lia para duas

filhas ,altas tambem, com paletots vermelhos

de malha.

"O Carnaval. Estupendo carro-chefe.

Carro que ostenta,no meio de magnifica projegcao de luzes e de radiante aureola luminosa, o symbolo da folia, do gozo esfusiante, da

inebriante loucura carnavalesca".

Calara-se satisfeito. Jorge pensou que devia ser um funccionario publico,annexo a

qualquer departamento informativo.

Os clarins haviam cessado. Agora, chegavam ate alli, sons rachados de um maxixe de

banda. sinuoso, repinicado, com uma zoada

meuda de pratos, de caracaxas e de bombos.

Approximava-se o prestito mais e mais. Parou.

Distinguia-se ja a comissao de frcnte, toda

de branco sobre cavallos brancos. A musica.

requebrou num subito frenesi de trombones

rebolantes como ancas - e cessou. Da multidao, das janellas entrelacadas de fios coloridos que se partiam ao vento, gritavam :

- Bis! Bis!

Jorge disse comsigo: —— As grandes coisas:

nao se bisam.

O prestito continuava a sua marcha pomposa. O esculptor fora fortemente empurrado.

para traz, por um magote de pessoas que tomavam o passeio de assalto. Numa antia, empurrou, varou com os hombros.

Havia de

vef-b...

E sorridentes, discretos como o outro, barbeados como o outro, bellos como o outro, tirando o chapeu, num meneio gentil, os directores da carnavalada passaram. Ele nao estava. Antes, estava: desdobrara-se, multiplicara-se em seis, em dez, em doze cusparadas

serenas sobre a pobre honra posthuma de

Jorge.

Vieram os musicos, enrolados de instrumentos, com cahecas monstruosas de papelao

jogadas as costas, montando burros ordeiros,

burros capazes de pedir perdao para passar...

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