A Estrella de Absyntho - Bloco 18
Jantaram num desvao do centro, na descoberta interessada de um restaurante que
lembrava ao esculptor casas de pasto de Roma.
Seriam oito horas quando penetraram no
redobrado tumulto da terca-feira gorda.
Automoveis e vehiculos voltavam mais
cedo da Avenida para a celebracao dos prestitos nas ruas centraes. E enrolavam a cidade
num desfile imenso, garboso e lento.
Os dois artistas caminhavam na busca iynocente do maravilhoso que passava nos carros, com toilettes ettranhas, evocativas de sonho, restauradoras de epocas e paiges.
Chegaram ao Largo de Sao Bento. Tomaram pela grande abertura asphaltada da Rua
Libero Badaro.
O corso estendia-se, parado numa subita
syncope; e eles divisaram ate em baixo, longa,: intermina, dobrando esquinas, fazendo
voltas inteiras de quarteiroes, atravancando
os viadugtos, a linha desmesurada de allego-
rias rolantes. Pernas enluvadas sahiam de
saias curtas de setim; sobre capotas altas, Colombinas de gaze fechavam, num recorte, O
encosto dos torpedos arfantes; bouquets de
pierrots e pierrettes ornavam pontas de taxis.
E os dois amigos seguiram, bebendo pelos
olhos a sugcessao de carros, automoveis, caminhoes, que faziam a exhibicao processional,
sem mascara, da urbe cosmopolita e millionaria.
Subiram. As vias publicas estavam tomadas pelo glorioso desfile: era toda uma colleccao viftoriosa e intermina de seletcionados na
forte vida da America, que se mostrava assim
no deshabille da noite tropical. Os mocos cultivados no esporte, atilados no comercio; as
mocas lindas, esbeltas, com os olhios avivados,
as faces pallidas, as bogcas carnosas, offerecendo risos, revelavam a mocidade apurada
em um seculo de investida migratoria por populacoes heterogeneas, vindas bater alli, num
grande sonho, de todas as partes do globo.
A's vezes, a suburra passava, a pe, bamboleando em musicas nacionaes, o fundo perdido das sedugcoes creoulas de umbigadas e
contactos.
As mocas, de cima dos carros, olhavam
imperturbaveis, apparentando ignorar o convite lascivo dos maxixes espasmodicos. As
suas maes tinham sido possuidas no rendezyous dos cafezaes ,alinhados e verdes. na sombra das officinas, na agglomeracao dos corticos cidadinos, no alarido das terceiras classes
de paquetes, em travessias atlanticas...
Elas tambem saberiam entregar-se, bel
los animaes, impassiveis, a espera do macho
que viria. Pre?entindo em cada homem rapado e agil, um irmao de destino e de passado
transcontinental, elas promettiam nos olhos
inteligentes, nos sorrisos alvos, nos contactos
de carnes solidas, pernas elasticas, seios duros, pelles de seda, fazer a fecundacao vigtoriosa do futuro, num aperfeicoamento de raca
eleita.
O Brasil velho tainbem passava —
eram
mascaras avulsos, encalistrados nos trajes de
roca, ponches melancolicos cor de fumo, chapeloes tristes de palhinha... Eram no paig
flagellado, ronceiro e bisonho, representantes
desmoralizados duma tentativa punga de esthetica e duma suggestao vaiada de nacionalidade. Acoitavam-se num e outro cavalo
feio, a sombra dos grandes caminhoes ou perdiam-se na indifferenca accentuada da multidao que rodava. A's vezes, juntavam-se em
caravanas lyricas, animando-se entao na marcha e arrastando empoy rebotalhos de racas
vencidas, de povos que desappareciam —
la iam esmoendo uma demonstracao de mu-
sica primitiva e ululante; ou caminhavam nos-talgicos, de passo malandro e sentimental; recompondo serenatas inuteis de antigo interior.
Menina, se eu te pedisse
Um beijinho so de amo..
Jorge pensava dando expansao ao seu instingto de charge:
Foram os treponemas civilizados de
Wilde que escreveram as melhores replicas
de Salome. Nestes versinhos collaboraram de
certo o ankilostomo e o baratao barbeiro.
O desfile continuava con chapeus de mago, sacerdotisas, rainhas, Vinicius bellos e togados como no Quo Vadis' dos theatros.
Passava de novo a suburra gingando.
E ficava em redor do prestito suave, o
povo contente e agcommodado, limpo, capaz,
amanha, de trepar tambem aos toldos feericos coin tunicas e dominos.
Jorge d'Alvellos mergulhou os pes numa
poca de lama. Houve risos em torno Um trecho do passeio havia-se quebrado naquelle
ponto e tinham-no conduzido para alli, num
attrape-nigaud idiota de carnaval. O artista
procurou Torresvedras: ele havia desapparecido na multidao.
Jorge d'Alvellos sentiu-se subitamente
contrariado. Acolheu-se numa grande timidez
por ter ficado so, a um canto de esquina. Perto delle, marmanjos brincavam. Reuniam do
chao macos fofos de serpentinas e jogavamnos uns nos outros. Um guarda magro, de cara
angulosa, sob o capacete londrino, investiu. E
como um dos folioes escapasse por traz de
Jorge, o soldado tomando o esculptor pelo moleque, reprehendeu-o, rude, ameacou-o de prisao.
Ao lado, um homem murmurou um nao
foi élle timido, vendo o esculptor calar-se.
Jorge tinha perdido toda a serenidade bem
humorada. Num subito suor, vira grades de
xadrez.
Foi aos encontroes, certo de que nao acharia mais Torresvedras, certo de que se despejariam de novo sobre élle cornucopias de humilhacoes, de reveges, de maus tratos.
Parara na Rua Direita. Os Bandeirantes
de Momo vinham pelo Viadudto. Longe ainda,
as cornetas annunciavam o prestito.
Jorge ficou num aperto de gente. Ia vel-o.
o desconhecido,o homem que lhe aniquilara
a existencia, sorrindo e gingando. Era ele de
certo quem dirigia o prestito, como dirigira a
sua vida com Alma, as trombetadas.
Num clarao de fachos, entreviam-se na
distancia confusas allegorias. O povo coalhacalcadas: familias defendendo
nas
va-se
creancas, mulatas gordas contendo negrinhos
espevitados. Por detrat do esculptor, um sujeito alto, de fraque, nariz grande e pince-nez
tinha um jornal aberto na mao e lia para duas
filhas ,altas tambem, com paletots vermelhos
de malha.
"O Carnaval. Estupendo carro-chefe.
Carro que ostenta,no meio de magnifica projegcao de luzes e de radiante aureola luminosa, o symbolo da folia, do gozo esfusiante, da
inebriante loucura carnavalesca".
Calara-se satisfeito. Jorge pensou que devia ser um funccionario publico,annexo a
qualquer departamento informativo.
Os clarins haviam cessado. Agora, chegavam ate alli, sons rachados de um maxixe de
banda. sinuoso, repinicado, com uma zoada
meuda de pratos, de caracaxas e de bombos.
Approximava-se o prestito mais e mais. Parou.
Distinguia-se ja a comissao de frcnte, toda
de branco sobre cavallos brancos. A musica.
requebrou num subito frenesi de trombones
rebolantes como ancas - e cessou. Da multidao, das janellas entrelacadas de fios coloridos que se partiam ao vento, gritavam :
- Bis! Bis!
Jorge disse comsigo: —— As grandes coisas:
nao se bisam.
O prestito continuava a sua marcha pomposa. O esculptor fora fortemente empurrado.
para traz, por um magote de pessoas que tomavam o passeio de assalto. Numa antia, empurrou, varou com os hombros.
Havia de
vef-b...
E sorridentes, discretos como o outro, barbeados como o outro, bellos como o outro, tirando o chapeu, num meneio gentil, os directores da carnavalada passaram. Ele nao estava. Antes, estava: desdobrara-se, multiplicara-se em seis, em dez, em doze cusparadas
serenas sobre a pobre honra posthuma de
Jorge.
Vieram os musicos, enrolados de instrumentos, com cahecas monstruosas de papelao
jogadas as costas, montando burros ordeiros,
burros capazes de pedir perdao para passar...