Os Condemnados - Bloco 09 A Trilogia do Exílio · Capítulo 9 de 87
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Os Condemnados - Bloco 09

Ante o espelho quadrado que servia para a toilette improvisada dos seus dias, achava-se macerado

como um suave peregrino. E repetia fitando Bauldelaire:

L'amoureux pantelant, incliné sur sa belle,

A l'air d'un moribond caressant son tonbeau.

Quando percebia Alma, num procurado encontro, sentia cem trombones funerarios tocarem-lhe

aos ouvidos escancarados. Tinha um sincero pasmo

pela coragem lendaria de Othello. Se fizesse uum

ele!

fim de drama como

Vinha-lhe uma sensacao de frio no peito. Queimavam-se-lhe as pernas. Tinha uma dor pHysica de

cicatriz aberta no coracao. Lagrimas corriam a-toa e

brutalidades estrangulavam-se-lhe nos punhos.

Alma trouxera um charuto havano para o velho

Iucas. Mauro tomou-o.

E o telegrapfista abordou-a resolutanente de

novo, numa aurea tarde do bairro populoso.

Dagoberto Lessa, andando com Joao, encontrara-a de vestido ligeiro, sapatos de pelica branca,

num canotier insolente e manifestara por ela

culto apaixonado e cynico.

De modo que nao fora difficil, para o namorado,

por conviva no festim de imaginacao

tet-b

que se

offerecia continuadamente, com um possivel futuro,

fulvo e ridente, onde entrava resignado o necessario

de pouca vergonha. O grande assumpto de ambos

era elya. Joao mentia ao ortro, desviando para horigontes lyricos, a historia da sua perdicao. Repetia-lhe os antigos dialogos. E contava-lhe como

esar-de tudo, animando o deserto notturno

amava

dos viadudtos.

O velho esperava que a neta viesse. Ela promettera assistir a entrada do ayno. novo, em casa,

deante das imagens antigas acompanhando o terco,

como nos anos passados.

Num cortico vizinho, haviam improvisado uma

orthestra de negros.

O avo, tendo o cao deitado ali, rezou sozinho

O rosario precatorio, com o moleque de olhos brancos, escutando, ante uma vela vacillante.

Na cidade extensa, as fabricas aynunciaram sonoramente qute a crosta velha do ayino se despegava

da terra juvenil. Os mil apitos cantaram, cantaram.

O velho imprecava, o moleque respondia devagar,

o cao adormecera da melopea religiosa.

Sao José, de dentro do velho oratorio, olhava

impassivel, tendo o menino ao collo

omuindo simplificado em azul nas maos polpudas, com una cruz

em cima.

La fora, tocava a orchestra melancolica de

negros.

Alima ficara tomando champagne na casa

D. Rosaura. Saiu a-toa pelas ruas encantadas de

movinento nogturno.

Na esperanca do ayno melhor, um bar do

Triangulo atravancava-se de gente feliz. Ela sentou-se a uma mesa esquiva.

Ficou deante de um calice, ouvindo a muisica

emocional, na noite ruidosa.

A seu lado, em outra mesa, un moco sordido

discutia com uum velho ponteagudo, de olhos canalhas. Subito, o velho piscou para ell

A madrugada cidadina escoava-se. Foi para casa

num taxi. Encontrou tudo escuro e fechado.

O Lobao é uma vela apagada no altar da

inteNligencia humana.

Joao do Carmo desfranziu a carranca sentimental, sorriu. Estavam na confusao ruidosa da

noite de janeiro de uma taverna central.

Sob as luzes espirradas, Dagoberto Lessa parecia mais calvo no contraste dos pontudos bigodes

ruivos. Valorizava-o um imperturbavel ar serio.

E, de dentro de Joao, vinha por vezes uma

insensata vontade de acariciatb.

O Lobao, o Telles Aguilar e o Pinto Pé de

Anjo recusam-se a subir ao segundo andar da inteligencia humana. Tem medo de que desabe o

elevador.

O garcon achegara-se, com o guardanapo sob o

braco de alpaca, num grande aspecto afarado.

Cognac! gritou o disilludlido. E voce?

Kirsch... para evocar.

Outro dia, reli o Jardin d'Epicure e quebrei

a caneta. Prefiro escrever um volume sobre estru-

livro como esse! A res-pon-sa-bi-li-da-de! Que seria

de meus filhos? Voce sabe que tenho cincoenta.

Houve um silencio, no barulho. E o homem

continuou:

Nasci para fazer a grande arte, mas resolvi

fazer a pequena. Vou so responder a enquetes.

calice sobre calice e o palrador

Emborcaram

chegou ao caminho ensombrado das confidencias.

- O triste, o tragico de tudo é que me casei

por ainor! Tinha vinte aynos e prendi-me pelos primeiros ollhos que me chamaram a artencao, sem indagar se eles diziam: “somos intelligentes"

mos compassivos", "soimos idiotas". A creatura

pobre como o Lobao. E quando pretendi tirar.

faiscas da alma, nada! Escuro como o cerebro de

um tenente de cavallaria.

E depois de um tempo, consolando-se:

Emfiny essa historia do meu casamento foi

imbecil, mas foi de artista, de grande artista, foi

que nem a historia de Jean Sebastien Bach.

Esvasjou mais yim calice de um trago e sorriul

com um sorriso plysico de musculos relaxados. E

como recrudescesse em torno a balburdia do bar,

largou da bogca uum insulto grosseiro e collegtivo.

Depois, fitando no outro os grandes olhos serios:

- Joao, aqui nesta sala ha cincoenta homens,

quarenta e nove sao infames! O que resta sou eu

ou é voce...

Voltou ao casamento, discutiu mulheres e, de

repente, lembrou-se de Alma.

—- Essa sim! E' a unica! Se fosse conmigo... Do

thesouiro de Creso que tens, tiras duzentos reis e te

contentas! Eu me extremaria, me arruinaria. Porque

afceito tudo, o tragico e o comico, com dignidade.

Desejo, em amor, apenas isto — o sacrificio integral

do meu proprio individuo. Imagina, Joao, fazer chorar sobre o meu desastre todos: os empregados dos

bancos e das confeitarias, as senhoras caseiras e as

horizontaes...

Deante do outro que se crucificava na cadeira.

O calvo proseguiu, as bracadas, o seu sermao de lagrimas.

Estou gravida, sim..

Ela

a estacara com o tapa teso, as duias maos

mantendo as temporas, chammejante e imovel.

Esta cabeca que ja é tao dolorida!

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