A Estrella de Absyntho - Bloco 11 A Trilogia do Exílio · Capítulo 38 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 11

Desceram os amigos de Jorge d'Alvellos

que o tinham deixado no quarto da Avenida

Sao Joao, em companhia de Bruno e Mario

de Alfenas.

E pela escada exigua, subiram ate a parte

inicial da capella

a mortuaria,reservada aos

pensionistas, que a piedade vigilante de Irman

Maria conseguira para O cadaver de Alma.

Dois internos do hospital, risonhos e mocos, sahiam dialogando.

Carlos e Torresvedras penetraram e viram um caixao sob um altar elevado,onde

quatro velas, chorando as suas ultimas lagrimas de cera, se apinhavam ante um Christo de latao. Entre os casticaes, o Christo, na

cruz desmesurada de pau preto, parecia pregado alli,inutilmente,ironicamente, havia

vinte seculos.

Outra mesa sustinha outro caixao, ainda

recoberto pelo panno xadrez da casa funeraria.

Torresvedras abriu o que se achava junto

ao altar.

E numa capa celeste, sobre a roxa tunica,

de olhos apagados e a expressao de quem supplica eternamente, por dores eternas, Alma

d'Alvellos, desapparecida na magreza do proprio corpo invisivel, parecia o cadaver da

Nossa Senhora.

Apenas o nariz se lhe tornara mais adunco, a bo&ca entreabria-se, chorando ihmutavelmente, as maos nao se viam sob a ampla

capa da mae de Jesus.

Um bafio denunciando podridoes iniciadas fez os dois homens recuarem, fechando a

morta. E como viesse Irmay Maria, ataram o

caixao e tomaram as alcas finas, auxiliados

por um negro gordo que guardava os cadaveres e pela figura ensebada e velha do gatopingado solitario do carro.

Fizeram passar o caixao pela abertura

apropriada das grades. Gente vestida de riscadinho, convalescentes idiotizados das enfermarias, paravam vendo. Irmay Maria ficou

compungida a porta do necroterio.

Houve una expectativa resptitosa. E conduzindo-a, a carruagem de segunda classe, no

garbo emplumado dos quatro cavallos, negros

e solidos, no ouro dos arabescos e das columnas, saiu numa apotleose.

Otaxi levando os dois rapazes rolou

atrad.

E logo, hoinens que passavam descobriram-se. Addante, um senhor grisalho parou e

tirou o chapeu. E nas calcadas das ruas, grupos operarios que iam, mocos petulantes, velhos e meninos saudavam tambem.

Carlos,Byron pensava que a morte era

um triumpho: a repudiada de bontem, a so, a

rapariga, ia ali tirada pelo trote possante de

quatro cavallos, num coche preto e doirado, e

todos instingtivamente se descobriam.

O carro funebre rolava nas pedras, o taxi

fungava alray. O dia nublado de Junho apagava as cores e as linhas.

De repente, Torresvedras moveu-se do

seu canto, falou com a voz grossa, pegada na

garganta:

—E agora?

Nao disseram mais nada ate o Cemiterio.

E o coche cantava nas pedras perguntando. E o

taxi fungava atray perguntando.

Carlos Byron comprou uma macaroca ridicula de saudades a porta do Araca.

O florista, descarnado e solicito, ajudou-os

a tirar o caixao, com o gato-pingado velho,

lamentoso, numa sobrecasaca de ministro anglicano.

Na capella alta, com vidros de cores baralhadas, descobriram de novo a morta. Tinha

o grande pescoco torcido pela marcha, a cabeca de cobre fulvo despencada e continuava

a supplica perenne no manto celeste de Nossa Senhora.

As manilhas do caixao cortavam os dedos dos quatro homens na

imensa caminhada. Haviam penetrado por entre arvores

funereas e agora desciam a encosta terrosa

dos mortos sem nome que tem covas alugadas.

Dois sapadores burocraticos, inexpressivos, nos uniformes municipaes, vieram tomar o caixao.

Atiraram-no por cordas ao fundo de uma

exigua aberiura, junto a sepultura esquecida

do avo que se chamara Lucas d'Alvellos. Carlos Byron depositou o maco de saudades sobre o chao removido de fresco. Torresvedras

quig contar os tumulos para saber facilmente

a distancia da primeira alea, mas achou inutil.,

A sahida, depois das gorgetas, o florista

polido e funebre, que acompanhara sempre

os amigos do esculptor, propog:

Se quigerem, eu posso fazer tambem

uma cruz de cimento.

O cadaver nu, de cabelos atados numa

toalha, foi levado, cautelosamente, até a parede do imaginario atelier.

Ele apanhara-lhe o dorso, despencado

em ligeira curva.Um velho felino,barbudo

e de bodca furada, conduzia de costas o cortejo, tomando-a pelas axillas, e um grande

diabo, ossudo, levava as pernas geladas para

sempre.

Depuzeram-na no estrado de pau, inerte

e dura, murcho o ventre acima do triangulo

negro e symbolico.

Depois, comecaram a crucifixao.

Para la, na vastidao respeitosa da sala,

havia estatuas atadas aos punhos para trag,

com retorcimentos fixos, todas recobertas

como imagens em Semana Santa.

E havia amphoras e floras.

Iam crucifical-a na parede nua e branca.

O velho levantando-a pelos inuteis seios, dava ordens impassiveis.

O ouiro batia ja o seu longo prego.

apenas o braco que lhe haviam entregue a

ele, endurecera e resistia, empurrando-o para

trag.

O velho esperava. O outro tinha uma cabeca de furia. Era preciso dominar a consciente resistencia do braco. Aos repelloes o

membro em angulo cedeu, adceitou a linha

re&ta da cruz, num crac-crac de ossos internos. Ele tomou o martello e o prego longo,

bateu a primeira pancada inutil na palma cartilaginosa. E dizia que era preciso haver martyres.

O velho atravessara

vicioriosamente:a

mao que prendia. O outro baixara-se a perfurar os dois pes scbrepostos na mesma agulha

de ferro.

Ele entao bateu. E houve um tinir repetido de acos, apagado pela repulsa de borracha dos membros ankilosados e murchos.

Salpicaram gottas glaciaes como remorsos nos bracos musculosos e nus dos crucificadores.

E a cabeca de frango virou, o corpo suspenso desceu num peso bruto, alargando as

chagas nos pregos e pondo em relevo estrias

de pannos, de nervos, de costellas.

Entao, abriu-se a porta e um esplendido

honem nu, coroado de folhas, appareceu e

gritou como um arauto.

Sangue frio!

Ela permanecia toda estylizada na parede, que ficara como uma cruz de mil bracos...

E Jorge d'Alvellos viu que era o cadaver

de Alma que tinha crucificado para estudar

anatomia... Ela despregou as grandes postas

rachadas, latejantes, viva para ele..

O esculptor abriu os olhos na escuridao de

seu quarto. E percebeu a madrugada neutra

num silencio de vidas egtranhas.

Onde estava ela? Escorregara-lhe dos

bracos afflictos. Onde estava? Levantou-se da

cama num salto. Ela fugira.. .

Atirou-se para a porta: permanecia fechada na noite. Voltou, bateu os angulos desertos, foi ao leito. Pareceu-lhe vel-a ainda. Levantou os lencoes, o colchao: nao estava.

Estava longe. Onde? Na enfermaria. Nao,

mais longe. No necroterio. Nao, mais longe.

Na cova...

Jorge d'Alvellos sentou-se. Viu descer no

escuro, num desequilibrio sobre os hombros

que tinha aconchegados, um mundo bruto e

apagado de formas.

Pensativo, mysanthropo, nervoso, Jorge

d'Alvellos saiu, depois de duas horas da tarde, do seu quarto da Avenida Sao Joao. Estava un tempo inconstante. Havia chovido, agora ficara claro. Uma ponta de sol varava a

cinza do ceu, fazendo brilhar as pocas de lama das ruas, os trilhos dos bondes.

Jorge dirigiu-se lentamente para o Triangulo central de Sao Paulo. Subiu a ladeira ingreme e penetrou de repente, na Praca Antonio Prado. Ia dizendo, comsigo: — o sobrenatural existe dentro de nos. A vida com Deus

é hypocrita, sem Deus é cynica.

Tinham

Passavam homens e mulheres.7

todos no rosto uma estupidez triumphal e

cruel.

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