A Escada - Bloco 22
Longe, canhoneava nas pedras, perto chapinhava no barco parado e sob o sono
das arvores escorria monotonias de agua va'sada.
Jorge acordara na sua cama de presidio,
foi perscrutar a solidao pela janela aberta na
noite.
Uma semana se tinha escoado inteira sem
a vinda de ninguem. Ficara ate tarde sentado
a um banco da casa, olhando escancaradamente, como quem espera o clarao longinguo do ceu de Santos.
Deitou-se de novo. Mas subito ouviu silvos. A natureza clareava indecisa. Foi ver. A
Marina"arfava chegando na ante-manha. Na
coberta a silhueta vigorosa de Quim Joao.
Saudou o marinheiro com o braco. E o homem gritou-lhe que trazia boa nova.
—O dr. Claro mandou dizer que foi
ludo favoravel em Sao Paulo.
Jorge desceu numa grata efusao de surpresa. Era livre como o outro que lhe anun-
OSWALD DE ANDRADE
ciava a vida, como os homens da barca e os
outros da terra!
Foram tomar cafe no pavilhao com a fanha um grande navio da Mala Real Inglesa
Jorge propo& ir com ele na lancha. Numa inocencia queria experimentar a capacidade de
movimentos que ganhara.
Vieram para o rochedo. O sol nao aparecera ainda sobre os morros de arvores.
Uma melancolia divina irigava o ceu matinal.
Passaram barcos de pesca no mar que deixa
ra de ser o mar de exilio.
Ficaram conversando. O pratico narrava o encontro de gente nua, por praias abandonadas, em cabanas, pedindo a Deus a fartura dos naufragios.
Subito destacou-se da ponta rochosa uma
proa possante. Houve uma correria retinida
de apitos. Jorge apanhou do chao o chapeu
largo e seguiu aos saltos o pratico. Atravessaram o pontilhao, pularam para a lancha que
manobrava. Quim Joao tomou a direcao.
A ESCADA VERMELHA
Jorge ficara de pe,junto ao mastro onde a
bandeirola flutuava. E foram aos pinotes, aos
mergulhos, pelo mar encrespado. O transatlantico aproximava-se, assumiu pouco a pouco um aspecto de torre monstruosa. Jorge teve
impressao de ser esmagado sob a proa negra
e violenta que avancava. Quim Joao gritava
ordens.
Do navio, apinhado de gente curiosa, pendia a escada de corda. O pratico esguelou
qualquer coisa em ingles. Responderam.
A lancha bateu na nave imensa.
Num pulo agil, o pratico apanhou a escada que passava. Ficou no ar. A lancha destacara-se parada. O ajudante manobrou. Veio
vindo, enquanto ja longe o navio formidavel singrava para a alegria do porto, entregue a Quim Joao.
A liberdade era assim — o melhor dos
dons, o mnis suave.
OSWALD DE ANDRADE
Uma borboleta de ouro, dansarina livre
dos matos, brincou nas pedras, nos caminhos.
Seu Luiz ia tambem deixar a ilha. Nao
podia ficar naquele silencio onde nada o entretinha. Uma nostalgia parava-o longas horas, fitando a terra longinqua. Seu Luiz tivera mulher e tivera uma filhinha.
Nao mais o artista sonharia na rocha,
solitaria, ao luar frouxo das estrelas. Pressentia a chegada alvicareira de Bairao ou de Claro Dutra para busca-lo.