A Escada - Bloco 22 A Trilogia do Exílio · Capítulo 77 de 87
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A Escada - Bloco 22

Longe, canhoneava nas pedras, perto chapinhava no barco parado e sob o sono

das arvores escorria monotonias de agua va'sada.

Jorge acordara na sua cama de presidio,

foi perscrutar a solidao pela janela aberta na

noite.

Uma semana se tinha escoado inteira sem

a vinda de ninguem. Ficara ate tarde sentado

a um banco da casa, olhando escancaradamente, como quem espera o clarao longinguo do ceu de Santos.

Deitou-se de novo. Mas subito ouviu silvos. A natureza clareava indecisa. Foi ver. A

Marina"arfava chegando na ante-manha. Na

coberta a silhueta vigorosa de Quim Joao.

Saudou o marinheiro com o braco. E o homem gritou-lhe que trazia boa nova.

—O dr. Claro mandou dizer que foi

ludo favoravel em Sao Paulo.

Jorge desceu numa grata efusao de surpresa. Era livre como o outro que lhe anun-

OSWALD DE ANDRADE

ciava a vida, como os homens da barca e os

outros da terra!

Foram tomar cafe no pavilhao com a fanha um grande navio da Mala Real Inglesa

Jorge propo& ir com ele na lancha. Numa inocencia queria experimentar a capacidade de

movimentos que ganhara.

Vieram para o rochedo. O sol nao aparecera ainda sobre os morros de arvores.

Uma melancolia divina irigava o ceu matinal.

Passaram barcos de pesca no mar que deixa

ra de ser o mar de exilio.

Ficaram conversando. O pratico narrava o encontro de gente nua, por praias abandonadas, em cabanas, pedindo a Deus a fartura dos naufragios.

Subito destacou-se da ponta rochosa uma

proa possante. Houve uma correria retinida

de apitos. Jorge apanhou do chao o chapeu

largo e seguiu aos saltos o pratico. Atravessaram o pontilhao, pularam para a lancha que

manobrava. Quim Joao tomou a direcao.

A ESCADA VERMELHA

Jorge ficara de pe,junto ao mastro onde a

bandeirola flutuava. E foram aos pinotes, aos

mergulhos, pelo mar encrespado. O transatlantico aproximava-se, assumiu pouco a pouco um aspecto de torre monstruosa. Jorge teve

impressao de ser esmagado sob a proa negra

e violenta que avancava. Quim Joao gritava

ordens.

Do navio, apinhado de gente curiosa, pendia a escada de corda. O pratico esguelou

qualquer coisa em ingles. Responderam.

A lancha bateu na nave imensa.

Num pulo agil, o pratico apanhou a escada que passava. Ficou no ar. A lancha destacara-se parada. O ajudante manobrou. Veio

vindo, enquanto ja longe o navio formidavel singrava para a alegria do porto, entregue a Quim Joao.

A liberdade era assim — o melhor dos

dons, o mnis suave.

OSWALD DE ANDRADE

Uma borboleta de ouro, dansarina livre

dos matos, brincou nas pedras, nos caminhos.

Seu Luiz ia tambem deixar a ilha. Nao

podia ficar naquele silencio onde nada o entretinha. Uma nostalgia parava-o longas horas, fitando a terra longinqua. Seu Luiz tivera mulher e tivera uma filhinha.

Nao mais o artista sonharia na rocha,

solitaria, ao luar frouxo das estrelas. Pressentia a chegada alvicareira de Bairao ou de Claro Dutra para busca-lo.

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