Os Condemnados - Bloco 17
La dentro, Alma empolgava-se no rigor clinico
das prescripcoes.
Mingaus complicados, medidas eruditas de farinha, num vidro proprio com leite contado e puro,
toda uma diligente combinacao de fortificantes naturaes, ogcupava agora a cozinha pequena e negra.
Num estonteamento ruivo, de cabelYos despenteados, e numa desenvoltura de toilette que revoltava
Joao e adcendia os olhos mortos do official de policia, Alma corria pela casa, levando panellas, trazendo
caldos, pondo leite a ferver. A sua belleza era esplendida, dadivosa, naquela
semi-nudez. A maternidade completara-a. No vestido leve, tinha as pernas rolicas e perfeitas, as ancas curvas e cheias, os
seios retesos.
Uma manha, fez m estardalhaco lyrico de choros, de gritos, de risos.
OSCONDEI
NADOS
Acompanhado pela bogcorra aberta da mulher
baixinha, de chino, egpelo cao artigo, ela fez entrar
no quarto o telegrarhista surpreso e contente de ser
lembrado.
Veja o meu barriguinha de angu!
Levantava nos bracos tontos um niu rolico de
carne tenra, capaz de fazer inveja ao mais gordo
Sao Joao de estampa.
Inventara uma lingua nova, passava horas a
construitfa no tete-a-tete dos beijos com o pequienino
ser de olhos espantados.
No vocabulario angelico, a colherzinha que o
salvara, despejando-lhe no bico o remedio do vidro
grande, assumira enorme importancia. Era uma colherzinha de D. Genoveva, oxidada pelo uso. Chamava-se a Calala. O Baubau era o cao bobo do
avo. E a boneca velha e desengoncada, de cabellos hirsutos e olhos vesgos, qule ela salvara da
infancia, fora baptisada de Neca Caleluda.
EWe ia fazer dez meses afinal. O tempo pasespeptaculo. Estava rijo como um pesaraniim
queno deus. Mas a cabeca enrugava-se-lhe as vezes,
sob o peso de tristezas obscuras. A mae assusta.
va-se, gritando. Ele choramigava sentidamente.
E vinha a reconciliacao num diluvio de beijos,
de carinhos, de balbucios.
Trocava-lhe os pannos molhados, continuadamente, nas noites calmas.
descompasso de sacrificios, que
Queria, num
ele sujasse sobre ela, inundasse-lhe de pipi a face,
a bogca... Que importava? Era o seu reizinho.
Na data natalicia do velho avo, vestiu-se elegantemente, pela primeira vez. Foi ao cemiterio levar
flores e, ante o tumulo raso, teve uma crise silenciosa de lagrimas. Joao do Carmo acompanhava-a,
de fraque, na manha paulista.
Passados os meses de incerta e doentia existencia, conquistado o primeiro ahno vigtorioso da
vida, Luquinhas levantou a cabeca e o corpo sobre
as pernas rolicas. E solehne, modelar, em meio de
corredor calado, deu um grito.
noite. Nao a deixava
Fazia-lhe maroteiras
dormir num continuo rolar de perninhas e bracos
e risos. Cansavam-se afinal, bons amigos. Elya deitava-o, cobria-o.
Apagava a luz. E, na sombra, cresciam e
flugtuavam para os olhinhos espertos, o Hymalaia
dos travesseiros maternos, a Calala, o bico sugcu-
RILOGIA DO EXILIO
lento da mamadeira, o navio que era a cama. E de
redor, todos os bichos.
O Carnaval veiw e foi. O Baubau do velho Iulcas morreu latindo debaixo de uum caminhao festivo que levava phantasias.
Na noite gelada de Sao Joao, depois da solehnidade do baptismo, que fora pela manha, na Luz,
com Joao do' Carmo, grave, segurando a vela paranymphal, e D. Genoveva e o capitao luzido, Seu
Julinno trouxe, para um choro cohmemorativo, caras macilentas de serenatistas.
Um alvorogo estrugia na cozinha — choros, risos,
zera uma travessura. Alma erguia-o num arrebatamento, como se dez maos avidas e espertas o quipicas pela casa. Sobre a fulva cabeca que ria, ele
era Rolando, era Sao Jorge, era o General Osorio.
Depois de uma inacabada serie de tombos macios, descobrira a vida, num trepidar de passinhos
incertos.
Para erguer-se, punha para o alto o corpinho
a mostra, depois, num esforco, endireitava-se. Estava em pé!
E achara o corredor, a porta, o mndo.
Agora, descobria-se a se mesmo. Verificara
num pasmo que a cabeca mexia, a perninha dobrava,
as maos batiam. E tinha dedos duros, grandes,
sempre molhados.
A's vezes, estacava no corredor sobre a velha
passadeira e gritava numa verificacao de ouvidos at
tentos. O eco rompia o encantado silencio dos seus
olhos pasmados e redondos. Numa surprega edenica,
constatara a propria voz. E ficava escutando-a.
Sumia como um rato arisco. Estava aqui, ani,
desapparecia.
Iam encontrat-o
trepado no caixote de sabao
da cozinha ou afogando, no banheiro vasio, a desgrenhada Neca Caleluda.
Na sala, D. Genoveva, de oculos, ria, pedalando
a maChina de costura.
Melancolias comecaram, no enitanto, a baixar
sobre aquela imovel paz.
Alma sentia nervos. Batia em Luquinhas que,
com a denticao, tinha impertinencias e raivas. Fal-
tava-lhe a alegria physiologica, que da o amor physiologico. Aborrecia-a, nas longas horas semanaes,
aquele obstinado romantismo, sem ultimo agto, do
seu melancolico “pequeno".
s comecou a comer e a falar. Por
Luquinhas
manhas inteiras, lambusava-se de pao molhado numa
grande caneca de café com leite.
Mae e filho passavam as tardes na horta exigua dos fundos.
Na magdada visita d'aquela noite, Alma pedin a Joao do Carmo que nao voltasse mais. Para
viver, bastava-ihe a costura que tinha, com D. Genoveva.
Ele saiu, chocado d'aquela ingratidao. No
profundo
O intimo, promettia a se mesmo desforras
sensacionaes do destino.
Mas, deixando a creanca com D. Genoveva,
appareceu, na tarde seguinte, no desbotado quarto
da Avenida Tiradentes.