Os Condemnados - Bloco 17 A Trilogia do Exílio · Capítulo 17 de 87
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Os Condemnados - Bloco 17

La dentro, Alma empolgava-se no rigor clinico

das prescripcoes.

Mingaus complicados, medidas eruditas de farinha, num vidro proprio com leite contado e puro,

toda uma diligente combinacao de fortificantes naturaes, ogcupava agora a cozinha pequena e negra.

Num estonteamento ruivo, de cabelYos despenteados, e numa desenvoltura de toilette que revoltava

Joao e adcendia os olhos mortos do official de policia, Alma corria pela casa, levando panellas, trazendo

caldos, pondo leite a ferver. A sua belleza era esplendida, dadivosa, naquela

semi-nudez. A maternidade completara-a. No vestido leve, tinha as pernas rolicas e perfeitas, as ancas curvas e cheias, os

seios retesos.

Uma manha, fez m estardalhaco lyrico de choros, de gritos, de risos.

OSCONDEI

NADOS

Acompanhado pela bogcorra aberta da mulher

baixinha, de chino, egpelo cao artigo, ela fez entrar

no quarto o telegrarhista surpreso e contente de ser

lembrado.

Veja o meu barriguinha de angu!

Levantava nos bracos tontos um niu rolico de

carne tenra, capaz de fazer inveja ao mais gordo

Sao Joao de estampa.

Inventara uma lingua nova, passava horas a

construitfa no tete-a-tete dos beijos com o pequienino

ser de olhos espantados.

No vocabulario angelico, a colherzinha que o

salvara, despejando-lhe no bico o remedio do vidro

grande, assumira enorme importancia. Era uma colherzinha de D. Genoveva, oxidada pelo uso. Chamava-se a Calala. O Baubau era o cao bobo do

avo. E a boneca velha e desengoncada, de cabellos hirsutos e olhos vesgos, qule ela salvara da

infancia, fora baptisada de Neca Caleluda.

EWe ia fazer dez meses afinal. O tempo pasespeptaculo. Estava rijo como um pesaraniim

queno deus. Mas a cabeca enrugava-se-lhe as vezes,

sob o peso de tristezas obscuras. A mae assusta.

va-se, gritando. Ele choramigava sentidamente.

E vinha a reconciliacao num diluvio de beijos,

de carinhos, de balbucios.

Trocava-lhe os pannos molhados, continuadamente, nas noites calmas.

descompasso de sacrificios, que

Queria, num

ele sujasse sobre ela, inundasse-lhe de pipi a face,

a bogca... Que importava? Era o seu reizinho.

Na data natalicia do velho avo, vestiu-se elegantemente, pela primeira vez. Foi ao cemiterio levar

flores e, ante o tumulo raso, teve uma crise silenciosa de lagrimas. Joao do Carmo acompanhava-a,

de fraque, na manha paulista.

Passados os meses de incerta e doentia existencia, conquistado o primeiro ahno vigtorioso da

vida, Luquinhas levantou a cabeca e o corpo sobre

as pernas rolicas. E solehne, modelar, em meio de

corredor calado, deu um grito.

noite. Nao a deixava

Fazia-lhe maroteiras

dormir num continuo rolar de perninhas e bracos

e risos. Cansavam-se afinal, bons amigos. Elya deitava-o, cobria-o.

Apagava a luz. E, na sombra, cresciam e

flugtuavam para os olhinhos espertos, o Hymalaia

dos travesseiros maternos, a Calala, o bico sugcu-

RILOGIA DO EXILIO

lento da mamadeira, o navio que era a cama. E de

redor, todos os bichos.

O Carnaval veiw e foi. O Baubau do velho Iulcas morreu latindo debaixo de uum caminhao festivo que levava phantasias.

Na noite gelada de Sao Joao, depois da solehnidade do baptismo, que fora pela manha, na Luz,

com Joao do' Carmo, grave, segurando a vela paranymphal, e D. Genoveva e o capitao luzido, Seu

Julinno trouxe, para um choro cohmemorativo, caras macilentas de serenatistas.

Um alvorogo estrugia na cozinha — choros, risos,

zera uma travessura. Alma erguia-o num arrebatamento, como se dez maos avidas e espertas o quipicas pela casa. Sobre a fulva cabeca que ria, ele

era Rolando, era Sao Jorge, era o General Osorio.

Depois de uma inacabada serie de tombos macios, descobrira a vida, num trepidar de passinhos

incertos.

Para erguer-se, punha para o alto o corpinho

a mostra, depois, num esforco, endireitava-se. Estava em pé!

E achara o corredor, a porta, o mndo.

Agora, descobria-se a se mesmo. Verificara

num pasmo que a cabeca mexia, a perninha dobrava,

as maos batiam. E tinha dedos duros, grandes,

sempre molhados.

A's vezes, estacava no corredor sobre a velha

passadeira e gritava numa verificacao de ouvidos at

tentos. O eco rompia o encantado silencio dos seus

olhos pasmados e redondos. Numa surprega edenica,

constatara a propria voz. E ficava escutando-a.

Sumia como um rato arisco. Estava aqui, ani,

desapparecia.

Iam encontrat-o

trepado no caixote de sabao

da cozinha ou afogando, no banheiro vasio, a desgrenhada Neca Caleluda.

Na sala, D. Genoveva, de oculos, ria, pedalando

a maChina de costura.

Melancolias comecaram, no enitanto, a baixar

sobre aquela imovel paz.

Alma sentia nervos. Batia em Luquinhas que,

com a denticao, tinha impertinencias e raivas. Fal-

tava-lhe a alegria physiologica, que da o amor physiologico. Aborrecia-a, nas longas horas semanaes,

aquele obstinado romantismo, sem ultimo agto, do

seu melancolico “pequeno".

s comecou a comer e a falar. Por

Luquinhas

manhas inteiras, lambusava-se de pao molhado numa

grande caneca de café com leite.

Mae e filho passavam as tardes na horta exigua dos fundos.

Na magdada visita d'aquela noite, Alma pedin a Joao do Carmo que nao voltasse mais. Para

viver, bastava-ihe a costura que tinha, com D. Genoveva.

Ele saiu, chocado d'aquela ingratidao. No

profundo

O intimo, promettia a se mesmo desforras

sensacionaes do destino.

Mas, deixando a creanca com D. Genoveva,

appareceu, na tarde seguinte, no desbotado quarto

da Avenida Tiradentes.

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