A Escada - Bloco 10
OSWALD DE ANDRADE
Tomando-a pelo braco, saia com ela no
borborinho das ruas. Oprimia-lhe a mao enluvada no escuro dos cinemas.
Na tarde cenografica, tomaram um automovel. Copacabana abria um imprevisto
mundo de aguias verdes, rolando sob o ceu finito e igual.
Na direcao da Gavea, o oceano liquido
e verde beirava ilhas imoveis. No fundo da
terra, os morros da cidade erguiam cubismos
negros, volumes majestaticos, enormes. O
auto corria para eles pela faixa lisa e branca,
numa ansia de soterramentos.
O artista deitou a cabeca farta ao colo
suave da amante imprevista. E dialogaram
A EsCADA VERMELHA
ante a festa muda do mar brasilico e da terra
brasilica.
Nora falou como quem fala para a nua
natureza. O homem forte ouvia-a. Sentia-lhe
G sentimento estuante e suplice nos olhos lindos sob o chapeu lilas. As suas maos tocavamno tremulamente, num carinho impulsivo.
Os yolumes montanhosos pareciam deslocar-se sobre eles, oscilar.
O mar beirava as ilhas quietas.
A mulher falava, falava.
E, estabeleceu-se em Jorge, ante o cenario ireal,uma subita transposicao para dantescos mundos, onde a miseria humana igualasse, pela poesia e pela dor, os recortes assombrosos das selvas e a grandeza silente do horizonte maritimo.
Estaria vivo ao lado da desconhecida ou
a morte os acoitara ja em terras olimpicas
para julgamentos e definicoes, para irreveladas noticias do que tinham sido?
eudiuaoh
OSWALD DE ANDRADE
Voltaram a Sao Paulo. A cidade barulhava numa festa de relogios sonoros. Cinco horas. Jorge jantaria com ela. Ia conhecer o palacete onde morava so.
Uma mulata veio abrir. A patroa saira.
Jorge depo o chapeu de feltro, penetrou numa saleta penumbrosa e odorante.
A noite caira. De olhos cerrados, a cabeca pendida num encosto de poltrona, Jorge
sentia uma vaga preguica amolecer-lhe o corpo cansado.
Aquilo tudo podia ser seu.
Nora chegou num halo branco. E ao recebe-lo ali, ria toda, tocada de felicidade nervosa.
Foram jantar. Ela voltou do quarto de
cabelos refeitos e labios avermelhados.
E, enquanto a mulata servia os pratos ligeiros, ela lhe relatava a vida dos ultimos dias.
Aquelas rosas de acafrao tinham-lhe sido
A ESCADA VERMELHA
mandadas por um amigo milionario que regressara dos Estados Unidos.
Mandara-lhe um anel.
——-E essa pulseira?
Era um aro simples de cabelo de elefante
que ela trazia sempre ao braco esquerdo.
Foi o meu amor que morreu.
Era casado?
Com outra.
Silenciaram. A noite la fora dobrara as
estrelas.
—-Tens fotografias dele?
-- So uma.
Trouxe um retrato. Depo-lo na sala silenciosa.
A expressao de Nora pedia que o artista
continuasse a ronda emocional. Trouxe um
cofre minusculo de bronze. E de dentro saiu
uma carteira de couro monogramada na ponta, depois um cachimbo usado. E, num laco
hranco, uma mecha pequenina, timida, de
cabelos lugidios.
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Olha como o cabelo dele era lindo, fofinho!