A Escada - Bloco 10 A Trilogia do Exílio · Capítulo 65 de 87
Obra Menu

A Escada - Bloco 10

OSWALD DE ANDRADE

Tomando-a pelo braco, saia com ela no

borborinho das ruas. Oprimia-lhe a mao enluvada no escuro dos cinemas.

Na tarde cenografica, tomaram um automovel. Copacabana abria um imprevisto

mundo de aguias verdes, rolando sob o ceu finito e igual.

Na direcao da Gavea, o oceano liquido

e verde beirava ilhas imoveis. No fundo da

terra, os morros da cidade erguiam cubismos

negros, volumes majestaticos, enormes. O

auto corria para eles pela faixa lisa e branca,

numa ansia de soterramentos.

O artista deitou a cabeca farta ao colo

suave da amante imprevista. E dialogaram

A EsCADA VERMELHA

ante a festa muda do mar brasilico e da terra

brasilica.

Nora falou como quem fala para a nua

natureza. O homem forte ouvia-a. Sentia-lhe

G sentimento estuante e suplice nos olhos lindos sob o chapeu lilas. As suas maos tocavamno tremulamente, num carinho impulsivo.

Os yolumes montanhosos pareciam deslocar-se sobre eles, oscilar.

O mar beirava as ilhas quietas.

A mulher falava, falava.

E, estabeleceu-se em Jorge, ante o cenario ireal,uma subita transposicao para dantescos mundos, onde a miseria humana igualasse, pela poesia e pela dor, os recortes assombrosos das selvas e a grandeza silente do horizonte maritimo.

Estaria vivo ao lado da desconhecida ou

a morte os acoitara ja em terras olimpicas

para julgamentos e definicoes, para irreveladas noticias do que tinham sido?

eudiuaoh

OSWALD DE ANDRADE

Voltaram a Sao Paulo. A cidade barulhava numa festa de relogios sonoros. Cinco horas. Jorge jantaria com ela. Ia conhecer o palacete onde morava so.

Uma mulata veio abrir. A patroa saira.

Jorge depo o chapeu de feltro, penetrou numa saleta penumbrosa e odorante.

A noite caira. De olhos cerrados, a cabeca pendida num encosto de poltrona, Jorge

sentia uma vaga preguica amolecer-lhe o corpo cansado.

Aquilo tudo podia ser seu.

Nora chegou num halo branco. E ao recebe-lo ali, ria toda, tocada de felicidade nervosa.

Foram jantar. Ela voltou do quarto de

cabelos refeitos e labios avermelhados.

E, enquanto a mulata servia os pratos ligeiros, ela lhe relatava a vida dos ultimos dias.

Aquelas rosas de acafrao tinham-lhe sido

A ESCADA VERMELHA

mandadas por um amigo milionario que regressara dos Estados Unidos.

Mandara-lhe um anel.

——-E essa pulseira?

Era um aro simples de cabelo de elefante

que ela trazia sempre ao braco esquerdo.

Foi o meu amor que morreu.

Era casado?

Com outra.

Silenciaram. A noite la fora dobrara as

estrelas.

—-Tens fotografias dele?

-- So uma.

Trouxe um retrato. Depo-lo na sala silenciosa.

A expressao de Nora pedia que o artista

continuasse a ronda emocional. Trouxe um

cofre minusculo de bronze. E de dentro saiu

uma carteira de couro monogramada na ponta, depois um cachimbo usado. E, num laco

hranco, uma mecha pequenina, timida, de

cabelos lugidios.

OSWALD DE ANDRADE

Olha como o cabelo dele era lindo, fofinho!

1/1
Menu

Fazer anotação