A Escada - Bloco 01
Na madrugada de inverno que retardava
o sol, Jorge D'Alvelos acordou no abandono
de seu quarto.
La dentro a familia dormia indiferente a
sua magua, estranha, apenas compassiva. Ficou pensando em de novo partir.
Levantou-se embrulhado no seu velho
pijama escoces, donde os botoes de alamares
se despregavam. Foi ate a grande mala, repositorio ambulante de sua vida. Retirou do
fundo um album fanado de cartas e pos-se a
rele-lo sobre o leito de ferro que se desconjuntava na latea penumbra.
"Tenho medo de que uma explicacao arrepie ou pelo menos desoriente a nossa carreira sentimental. Que pena!
oCordinnol
QSWALDDE ANDRAE
"Eramos tao feitos um para o outro!
Chegamos atraves de tanto brinquedo a nos
amar tanto!"
"Vida da gente.
Sera possivel que se possa amar tanto
assim? As vezes tenho odio de ti, sinto vontade de te fazer morrer.
Mas de repente chega uma carta tua,
bela como esta que veio, amorosa, suplicante.
Amo-te. Dir-te-ia agora um milhao. de
vezes sem cessar, os meus olhios abrasados nas
tuas aureas pupilas, a minha vida dependendo da tua boca, do arfar do teu seio, da queixa
do teu corpo. Minha Mary Beatriz, és o doce
guia! O contrasenso mais lindo que a logica
da vida podia ter criado. Acreditaria hoje
em Deus por tua causa.
Basta de besteira. O nosso futuro tera
que ser combinado algebricamente, friamente. Um futuro de rabona e vestido branco.
ESCADA
Choraram os olhos de cigana. Que importa? O senhor quis que eles chorassem
para que os pudesse beijar mais lindos no
encontro. Quis que a sua boneca de cabelos
fartos e negros sofresse para ter depois no
noivado excelente a delicia da cura entre bracos amorosos"
"Meu enlouquecimento.
Imagina a vida partir-se e afastar-se da
gente!
Sinto um sofrimento que chega a paradoxal surpresa de ser um ser despedacado
e vago que se sobressalta e chora longe de
A existencia nesta terra mortal é bem
isso — a busca de uma coisa que esta em
nos e longe de nos, uma imagem ideal do
nosso eu, um ceu sonhado ou perdido".
"Que saudade me punge! O amor assim,
OsCondereb
OSWALD DE~ANDRADE
como eu o tenho, é um cancro de cuja dor
se vive.
Ainda agora no atelier escurecido de
estatuas, vendo entrar a noite pelos olhos
loiros das janelas, senti a ferida bendita
roer-me o fundo intimo do peito. E a tua
imagem e
exaltou-me em febre, fulminoume em palida sincope, atordoou-me como
um apelo de Deus. Oh! Miss Incrivel como
te fizeste amarl O ano termina. O ano que
comecou em Maio, lembras-te? A sala da exposicao internacional, a sala onde nos achamos. Depois, fui esperar-te no nosso primeiro andar. Estavas linda, carnuda, de labios
molhados... se me lembro! E mentiste para me contar os teus receios. Pela primeira
vez nas asas da tua fantasia, levantavas a
verdade dos teus vinte anos doentes.
Talvez fosse o primeiro dia do meu
amor por ti esse pedaco de Maio batido de
sol e cavalgado de nuvens. Passaram-se seis
meses e hoje amo-te assim. Se em cada um
A ESCADA
dos dias que se foram, sem temor, me apunhalaste a cruz da tua eleicao".
"Amor, amor lindo.
Como preciso te falar, dizer coisas incriveis. Como é urgente enlacarmo-nos numa
mesma vida, numa provisoria eternidade!"
"Meu tragico enlevo.
Estas doente e longe de mim. O mal
que pisa baixo quer empolgar-te nas suas
maos enluvadas. Tu que és a minha resurreicao.
Lembras-te daquele dia em que visitamos juntos a Madona del Giglio, no porto
onde barcos encalhavam?
Depois de atravessarmos os atoleiros
verdes da margem, nos beijamos ante o sagrado refugio e o rio calmo e grande na paisagem violenta.