A Escada - Bloco 01 A Trilogia do Exílio · Capítulo 56 de 87
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A Escada - Bloco 01

Na madrugada de inverno que retardava

o sol, Jorge D'Alvelos acordou no abandono

de seu quarto.

La dentro a familia dormia indiferente a

sua magua, estranha, apenas compassiva. Ficou pensando em de novo partir.

Levantou-se embrulhado no seu velho

pijama escoces, donde os botoes de alamares

se despregavam. Foi ate a grande mala, repositorio ambulante de sua vida. Retirou do

fundo um album fanado de cartas e pos-se a

rele-lo sobre o leito de ferro que se desconjuntava na latea penumbra.

"Tenho medo de que uma explicacao arrepie ou pelo menos desoriente a nossa carreira sentimental. Que pena!

oCordinnol

QSWALDDE ANDRAE

"Eramos tao feitos um para o outro!

Chegamos atraves de tanto brinquedo a nos

amar tanto!"

"Vida da gente.

Sera possivel que se possa amar tanto

assim? As vezes tenho odio de ti, sinto vontade de te fazer morrer.

Mas de repente chega uma carta tua,

bela como esta que veio, amorosa, suplicante.

Amo-te. Dir-te-ia agora um milhao. de

vezes sem cessar, os meus olhios abrasados nas

tuas aureas pupilas, a minha vida dependendo da tua boca, do arfar do teu seio, da queixa

do teu corpo. Minha Mary Beatriz, és o doce

guia! O contrasenso mais lindo que a logica

da vida podia ter criado. Acreditaria hoje

em Deus por tua causa.

Basta de besteira. O nosso futuro tera

que ser combinado algebricamente, friamente. Um futuro de rabona e vestido branco.

ESCADA

Choraram os olhos de cigana. Que importa? O senhor quis que eles chorassem

para que os pudesse beijar mais lindos no

encontro. Quis que a sua boneca de cabelos

fartos e negros sofresse para ter depois no

noivado excelente a delicia da cura entre bracos amorosos"

"Meu enlouquecimento.

Imagina a vida partir-se e afastar-se da

gente!

Sinto um sofrimento que chega a paradoxal surpresa de ser um ser despedacado

e vago que se sobressalta e chora longe de

A existencia nesta terra mortal é bem

isso — a busca de uma coisa que esta em

nos e longe de nos, uma imagem ideal do

nosso eu, um ceu sonhado ou perdido".

"Que saudade me punge! O amor assim,

OsCondereb

OSWALD DE~ANDRADE

como eu o tenho, é um cancro de cuja dor

se vive.

Ainda agora no atelier escurecido de

estatuas, vendo entrar a noite pelos olhos

loiros das janelas, senti a ferida bendita

roer-me o fundo intimo do peito. E a tua

imagem e

exaltou-me em febre, fulminoume em palida sincope, atordoou-me como

um apelo de Deus. Oh! Miss Incrivel como

te fizeste amarl O ano termina. O ano que

comecou em Maio, lembras-te? A sala da exposicao internacional, a sala onde nos achamos. Depois, fui esperar-te no nosso primeiro andar. Estavas linda, carnuda, de labios

molhados... se me lembro! E mentiste para me contar os teus receios. Pela primeira

vez nas asas da tua fantasia, levantavas a

verdade dos teus vinte anos doentes.

Talvez fosse o primeiro dia do meu

amor por ti esse pedaco de Maio batido de

sol e cavalgado de nuvens. Passaram-se seis

meses e hoje amo-te assim. Se em cada um

A ESCADA

dos dias que se foram, sem temor, me apunhalaste a cruz da tua eleicao".

"Amor, amor lindo.

Como preciso te falar, dizer coisas incriveis. Como é urgente enlacarmo-nos numa

mesma vida, numa provisoria eternidade!"

"Meu tragico enlevo.

Estas doente e longe de mim. O mal

que pisa baixo quer empolgar-te nas suas

maos enluvadas. Tu que és a minha resurreicao.

Lembras-te daquele dia em que visitamos juntos a Madona del Giglio, no porto

onde barcos encalhavam?

Depois de atravessarmos os atoleiros

verdes da margem, nos beijamos ante o sagrado refugio e o rio calmo e grande na paisagem violenta.

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