A Escada - Bloco 21 A Trilogia do Exílio · Capítulo 76 de 87
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A Escada - Bloco 21

A ESCADA VERMELHA

Jorge aquela noite custava a adormecer.

dele a gente simples da ilha?

Que pensava

A sua historia por certo nao comecara na

tarde do desembarque, quando viera trazendo a maleta do Castro. Pressentira na familia

atenta iniludiveis cuidados a aproximacao casual de qualquer barco. Temiam uma surpresa para ele. Supunham-no decerto um criminoso acoitado, um presidiario evadido.

Tinha impetos de falar, explicar a existencia dolorosa que tivera.

Jorge ouviu gritos de comando no mar.

Era um domingo. Uma yole esguia, dirigida

por seis remos ligeiros, afrontara o largo encaminhando-se para a ilha. Uma voz grossa

patronava. Jorge distinguiu os rapazes uniformizados de um clube, musculos ao sol sob

chapeus de pano. Aportaram para descansar.

Recolheram os remos e o grande barco envernizado.

OSWALD DE ANDRADE

Jorge conservou-se quieto no chale. Nao

convinha que alguem soubesse de sua presenca ali. Tinha no intimo vontade de procurar

o contacto estranho daqueles desconhecidos

aportados ao seu refugio. Era moco como

eles, forte como eles, como eles capaz de travessias porfiadas. Mas o destino parecia te-lo

desviado dos caminhos naturais da vida e das

alegrias comuns.

Ouviu um tropel na escada, bateram imperceptivelmente a porta. Era Mariinha. Tinha os olhos liquidos, esgaseados, o vultinho

negro agitado de temores e numa paradisiaca

lingua confusa transmitiu a Jorge um recado terrivel. Que nao descesse, havia gente de

fora na ilha.

Ele sorriu dolorosamente, beijou-lhe a

maozinha alva, tranquilizou-a, fe-la partir.

So, entristeceu-se. Era um foragido. Todos o sabiam. E as criancas se alarmavam

da possibilidade de o verem descoberto e levado.

A ESCADA VERMELHA

Itaipus vivia na sombra. A lua amarela

recolhera-se entre rolos de algodao negro.

Jorge saiu no barco junto com os dois

agregados quietos da ilha. Iam verificar as

redes estendidas a tarde alem do Espinhe.

Uma ardentia inquietava de incendios o

mar grosso. Os remos suspendiam prata li

quida nas pas. Tainhas ligeiras riscavam fogos de Bengala nas ondas. O vento dobrava

barco.

Rodearam os rochedos. Uma linha inter

rompida de pontos acendia-se no fundo, dividindo as aguas. Os homens queixavam-se

daquele fogareu noturno. Os peixes distinguiam a armadilha e espantavam-se. Suspenderam com os remos a trama iluminada num

cauteloso exame. Nos fios gotas de luz estagnavam, cor de estrela. Na noite maritima

o barco dansava. Tiraram duas grandes Qororocas de boca aberta e um pequenino sargo.

Na volta, Jorge veio conversando.

OSWALD DE ANDRADE

Seu Luiz fora marinheiro da fortaleza.

Como pescador virara duas vezes no mar. Era

uma vida de riscos aquela. Tinha pavor dos

tintureiros.

— Bicho malucado, seu moco! Nao respeita embarcacao!

O seu primeiro naufragio fora qu. s# a

morte. Tinha vindo deixar um pratico a bor

do, ai mesmo em frente a ilha e o sudoeste

desgarrara-o do canal. Foi parar na Moela sobre montanhas de agua. Quem o salvara fora o primeiro do farol que tinha seguido o

desastre de binoculo. Pos sangue pela boca

durante quinze dias.

VitoRemavam claridades. Chegaram.

ria Agonia segurava um lampeao no ancoradouro.

Um cicio de morcegos tesourava o silencio noturno. O mar glosava os seus eternos

A ESCADA VERMELHA

barulhos.

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