A Escada - Bloco 21
A ESCADA VERMELHA
Jorge aquela noite custava a adormecer.
dele a gente simples da ilha?
Que pensava
A sua historia por certo nao comecara na
tarde do desembarque, quando viera trazendo a maleta do Castro. Pressentira na familia
atenta iniludiveis cuidados a aproximacao casual de qualquer barco. Temiam uma surpresa para ele. Supunham-no decerto um criminoso acoitado, um presidiario evadido.
Tinha impetos de falar, explicar a existencia dolorosa que tivera.
Jorge ouviu gritos de comando no mar.
Era um domingo. Uma yole esguia, dirigida
por seis remos ligeiros, afrontara o largo encaminhando-se para a ilha. Uma voz grossa
patronava. Jorge distinguiu os rapazes uniformizados de um clube, musculos ao sol sob
chapeus de pano. Aportaram para descansar.
Recolheram os remos e o grande barco envernizado.
OSWALD DE ANDRADE
Jorge conservou-se quieto no chale. Nao
convinha que alguem soubesse de sua presenca ali. Tinha no intimo vontade de procurar
o contacto estranho daqueles desconhecidos
aportados ao seu refugio. Era moco como
eles, forte como eles, como eles capaz de travessias porfiadas. Mas o destino parecia te-lo
desviado dos caminhos naturais da vida e das
alegrias comuns.
Ouviu um tropel na escada, bateram imperceptivelmente a porta. Era Mariinha. Tinha os olhos liquidos, esgaseados, o vultinho
negro agitado de temores e numa paradisiaca
lingua confusa transmitiu a Jorge um recado terrivel. Que nao descesse, havia gente de
fora na ilha.
Ele sorriu dolorosamente, beijou-lhe a
maozinha alva, tranquilizou-a, fe-la partir.
So, entristeceu-se. Era um foragido. Todos o sabiam. E as criancas se alarmavam
da possibilidade de o verem descoberto e levado.
A ESCADA VERMELHA
Itaipus vivia na sombra. A lua amarela
recolhera-se entre rolos de algodao negro.
Jorge saiu no barco junto com os dois
agregados quietos da ilha. Iam verificar as
redes estendidas a tarde alem do Espinhe.
Uma ardentia inquietava de incendios o
mar grosso. Os remos suspendiam prata li
quida nas pas. Tainhas ligeiras riscavam fogos de Bengala nas ondas. O vento dobrava
barco.
Rodearam os rochedos. Uma linha inter
rompida de pontos acendia-se no fundo, dividindo as aguas. Os homens queixavam-se
daquele fogareu noturno. Os peixes distinguiam a armadilha e espantavam-se. Suspenderam com os remos a trama iluminada num
cauteloso exame. Nos fios gotas de luz estagnavam, cor de estrela. Na noite maritima
o barco dansava. Tiraram duas grandes Qororocas de boca aberta e um pequenino sargo.
Na volta, Jorge veio conversando.
OSWALD DE ANDRADE
Seu Luiz fora marinheiro da fortaleza.
Como pescador virara duas vezes no mar. Era
uma vida de riscos aquela. Tinha pavor dos
tintureiros.
— Bicho malucado, seu moco! Nao respeita embarcacao!
O seu primeiro naufragio fora qu. s# a
morte. Tinha vindo deixar um pratico a bor
do, ai mesmo em frente a ilha e o sudoeste
desgarrara-o do canal. Foi parar na Moela sobre montanhas de agua. Quem o salvara fora o primeiro do farol que tinha seguido o
desastre de binoculo. Pos sangue pela boca
durante quinze dias.
VitoRemavam claridades. Chegaram.
ria Agonia segurava um lampeao no ancoradouro.
Um cicio de morcegos tesourava o silencio noturno. O mar glosava os seus eternos
A ESCADA VERMELHA
barulhos.