Os Condemnados - Bloco 06
O homem moreno e flacido, de bigodes bem
tratados, sorria depois da gelada posse, dando-lhe a
nota brilhante.
Cuide de se. Nao entregue a eWe tuido qe
ganha!
Aquele interesse fazia-rhe subir um asco segco
garganta. Olhava o interlocutor com vontade de
cuspir-lhe no rosto cynico todas as cobras que a fae vestia-se sem pensar na filhinha
ziam engulir. Ele
de dez aynos que se phantasiara de Camponefa da
Hollanda para o uiltimo baile do Internacional. Ia
contar ao clube avido que possuira a menina ruiva,
comimentar-lhe os seios redondos e brancos que apenas entrevira sob a camiseta pudica.
Ela
ficava a espera de outro, entre as demais
astladas, quieta, tetrica, na sua juventude doirada.
O caften vinha, risonho, pallido das noitadas.
Ela dava-lhe tudo - a vida e a lama: os beijos que
eram seus, que guardara so para 'ele, inviolados aos
labios de acaso que a tinham siyffocado, e o dinheiro,
o dinheiro a bessa que lhe punha uma aureola de
super-humanidade entre os seus irmaos aduncos de
seita :
E's uim felizardo! E's um felizardo!
Nos dias mornos da casa suspeita, entre reposteiros, Alma perdia-se as vezes em pensar no qlie fariam a essas horas no sobrado antigo, o avo
deshonrado e o moleque e o cao. O velho Lucas nao
salia mais, tinha uma vergonha infantil dos vizinhos
maldizentes. Uma tarde, elfa chorou. Perguntou-lhe
uma mulher compassiva a razao daquelas lagrimas.
Elas vem. E' preciso pot-as para fora.
OSCONDEM
INADOS
contacto diario com o nauseabundo typo de
calva integral no sorriso, no couro, na alma e na
vida — o repulsivo gogador morto das migalhas da
existencia e das sobras do amor, o burgueg do dinheiro, sem
educacao e sem vergonha, posto de
balandrau na coimica procissao tragica dos gozos da
terra, foi formando em Alma uim desvio de dolorido
cynismo. Pensavam que ela
era como as outras e
tivessem razao. No
talvez
impeneemtanto,
da sua candura, subiam as vezes
traveis
reservas
faiscas doidas.
Aquele dia, entrara na casa, posando desde a
porta um olho clinico de entendedor, um medico de
cranco chato que parecia apertar chatos pensamentos.
Apresentaram-na
humiapresentacao
numa
lhante
a unica a que ela tinha direito. E ele
disse :
Conheco-a de fama.
Ela ficou offegante no seu canto. Era conhecida de fama...'O velho Lucas, o cao, o moleque,
telegrapfhista, todos morreriam de syncope, um atra
do outro, se ouvissem.
O homem sentou-se numa seguranca de bonzo
que adivinha thronos.por todas as banquetas onde
se pagam bebidas. Fez vir chartreuse, fez vir benedictine, fez vir pippermint.
Ela era forcada a servir-se com as outras, em
redor do senhor momentaneo do ambiente.'Aceitou
sem gestos o calice cor de losna e provou.
E a mulher gorda, em quem a presenca do freexcelYente adcendera, entre rugas, os olhos
glleg
avaros, pof-se a repetir o elogio gravado na sua
pobre cabeca de quarenta aynos daquela vida bebeda.
E' de fazer inveja!
Porque? sorriu com dois dentes na bogca
trevosa o amarello calvo.
Porque todos a querem.
Eu nao faco questao.
Examinava-a.
Oh! as humilhacoes da vida, as humilhacoes que
precipitam em vontades de chorar a. circulacao ja
doente do ser convulso e magDado. Ela sabia que
nao valia nada, sabia por Mauro. Mas aquelye homem
tambem nao valia nada, era um nojento bem vestido,
como um cadaver.
O calvo analysava-a. Disse duas pilheffas grosseiras. As mulheres riram aftenciosas. Levantol-se.
Concentrara o seu exame parvo na figura ruiva, de
cabeca baixada. Nao teve a uiltima coragem, a de
dizer alto que a queria. Salfin para a saleta. E dlapi
a pouco, D. Rosaura voltava para buscat-.
Nao vou.
Houve uma estupefafcao na sala das vendidas.
A discussao em voz alta cresceu. Nuuma indignacao
surpresa, a caftina saiu e voltou.
Da até quinhentos mil reis.
Nao vouu!
E nessa noite, na Luz, Mauro reurgiu para atirar-lhe ao rosto, com toda a sua raiva de cocaina,
um sapato americano, depois de a ter garganteado
nos lencoes.
) avo conduziu-a machucada e livida ate junto
do oratdrio extatico.
E ela poz-se a pensar em Mauro: como ele era
lindo, como tinha razao contra os outros!
Na sua garconniere de cretone bulgaro, o medico
de calva chata comentava com gente de sua classe
bem posta.
Quem a vendeu foi o avo. Tive-a Hontem
depois de muita fita. Agora o velho e o outro repartem os lucros.
Plou! Plou! Um pedaco de pau na torrente da
vida.
Joao do Carmo conhecia quasR toda a verdade.
F, viera-lhe, num agcesso de lancinante despeito, a
decisao de possuifa sem amor. Ser Don Juan por
OS CONDEYNADOS
desastre sentimental era a sua excusa, o seu programma.
Pos-se a provocar encontros
Alna, na
com
volta habitual da cidade. Elya tivera um arrepio intimo, ao veto pela primeira vez. Voltara o rosto
bruscamente, instingtivamente, fugindo & fulminacao
daquelles pobres olhos trahidos.
Elye saudara-a com 'a velha palheta, amareya
das garoas, num sorriso onde ia todo o seu espfacelamento.
Regressara sobre os proprios passos para veff
entrar: queria que ela o presentisse ainda, o cumprimentasse ainda.
Mas Alma fugia como uma ave baleada. Bateu
O portao, entrol.
Em cima, no balcao de jasmins, nem signal
de vida.
Joao esperou anoitecer, rondando para ca e para
la... Achava absurdo que ela tivesse passado incolume pela sua suggestao amorosa e constante.
Na rua, claudicou longamente, com moleques
, uma carroca de reclamo de circo.
atras,
ATRILOGIADO EXILIO
enovelHada
Abordou-a afinal. E tagteando a
tragedia, como quem tene uma explosao suffocante,
falou vagamente da verdade.
Ela se mantinha niuma aytitude de reserva e
dissimulacao, recostada, muito fulva, rescendendo a
Yvonette, nas velhas grades do jardim. Parecia ter
O rosto martyrigado e maior.
Desviara-se, por uma convencaa piedosa de
ambos, a vida do asylo de D. Rosaura. Ela parecia
sensibilizada. Pugera-se a sonhar.
E, no intimo do telegraphista, cresceu de subito
uma magda profunda contra aquele portao, em que
O outro a seduzira.