Os Condemnados - Bloco 06 A Trilogia do Exílio · Capítulo 6 de 87
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Os Condemnados - Bloco 06

O homem moreno e flacido, de bigodes bem

tratados, sorria depois da gelada posse, dando-lhe a

nota brilhante.

Cuide de se. Nao entregue a eWe tuido qe

ganha!

Aquele interesse fazia-rhe subir um asco segco

garganta. Olhava o interlocutor com vontade de

cuspir-lhe no rosto cynico todas as cobras que a fae vestia-se sem pensar na filhinha

ziam engulir. Ele

de dez aynos que se phantasiara de Camponefa da

Hollanda para o uiltimo baile do Internacional. Ia

contar ao clube avido que possuira a menina ruiva,

comimentar-lhe os seios redondos e brancos que apenas entrevira sob a camiseta pudica.

Ela

ficava a espera de outro, entre as demais

astladas, quieta, tetrica, na sua juventude doirada.

O caften vinha, risonho, pallido das noitadas.

Ela dava-lhe tudo - a vida e a lama: os beijos que

eram seus, que guardara so para 'ele, inviolados aos

labios de acaso que a tinham siyffocado, e o dinheiro,

o dinheiro a bessa que lhe punha uma aureola de

super-humanidade entre os seus irmaos aduncos de

seita :

E's uim felizardo! E's um felizardo!

Nos dias mornos da casa suspeita, entre reposteiros, Alma perdia-se as vezes em pensar no qlie fariam a essas horas no sobrado antigo, o avo

deshonrado e o moleque e o cao. O velho Lucas nao

salia mais, tinha uma vergonha infantil dos vizinhos

maldizentes. Uma tarde, elfa chorou. Perguntou-lhe

uma mulher compassiva a razao daquelas lagrimas.

Elas vem. E' preciso pot-as para fora.

OSCONDEM

INADOS

contacto diario com o nauseabundo typo de

calva integral no sorriso, no couro, na alma e na

vida — o repulsivo gogador morto das migalhas da

existencia e das sobras do amor, o burgueg do dinheiro, sem

educacao e sem vergonha, posto de

balandrau na coimica procissao tragica dos gozos da

terra, foi formando em Alma uim desvio de dolorido

cynismo. Pensavam que ela

era como as outras e

tivessem razao. No

talvez

impeneemtanto,

da sua candura, subiam as vezes

traveis

reservas

faiscas doidas.

Aquele dia, entrara na casa, posando desde a

porta um olho clinico de entendedor, um medico de

cranco chato que parecia apertar chatos pensamentos.

Apresentaram-na

humiapresentacao

numa

lhante

a unica a que ela tinha direito. E ele

disse :

Conheco-a de fama.

Ela ficou offegante no seu canto. Era conhecida de fama...'O velho Lucas, o cao, o moleque,

telegrapfhista, todos morreriam de syncope, um atra

do outro, se ouvissem.

O homem sentou-se numa seguranca de bonzo

que adivinha thronos.por todas as banquetas onde

se pagam bebidas. Fez vir chartreuse, fez vir benedictine, fez vir pippermint.

Ela era forcada a servir-se com as outras, em

redor do senhor momentaneo do ambiente.'Aceitou

sem gestos o calice cor de losna e provou.

E a mulher gorda, em quem a presenca do freexcelYente adcendera, entre rugas, os olhos

glleg

avaros, pof-se a repetir o elogio gravado na sua

pobre cabeca de quarenta aynos daquela vida bebeda.

E' de fazer inveja!

Porque? sorriu com dois dentes na bogca

trevosa o amarello calvo.

Porque todos a querem.

Eu nao faco questao.

Examinava-a.

Oh! as humilhacoes da vida, as humilhacoes que

precipitam em vontades de chorar a. circulacao ja

doente do ser convulso e magDado. Ela sabia que

nao valia nada, sabia por Mauro. Mas aquelye homem

tambem nao valia nada, era um nojento bem vestido,

como um cadaver.

O calvo analysava-a. Disse duas pilheffas grosseiras. As mulheres riram aftenciosas. Levantol-se.

Concentrara o seu exame parvo na figura ruiva, de

cabeca baixada. Nao teve a uiltima coragem, a de

dizer alto que a queria. Salfin para a saleta. E dlapi

a pouco, D. Rosaura voltava para buscat-.

Nao vou.

Houve uma estupefafcao na sala das vendidas.

A discussao em voz alta cresceu. Nuuma indignacao

surpresa, a caftina saiu e voltou.

Da até quinhentos mil reis.

Nao vouu!

E nessa noite, na Luz, Mauro reurgiu para atirar-lhe ao rosto, com toda a sua raiva de cocaina,

um sapato americano, depois de a ter garganteado

nos lencoes.

) avo conduziu-a machucada e livida ate junto

do oratdrio extatico.

E ela poz-se a pensar em Mauro: como ele era

lindo, como tinha razao contra os outros!

Na sua garconniere de cretone bulgaro, o medico

de calva chata comentava com gente de sua classe

bem posta.

Quem a vendeu foi o avo. Tive-a Hontem

depois de muita fita. Agora o velho e o outro repartem os lucros.

Plou! Plou! Um pedaco de pau na torrente da

vida.

Joao do Carmo conhecia quasR toda a verdade.

F, viera-lhe, num agcesso de lancinante despeito, a

decisao de possuifa sem amor. Ser Don Juan por

OS CONDEYNADOS

desastre sentimental era a sua excusa, o seu programma.

Pos-se a provocar encontros

Alna, na

com

volta habitual da cidade. Elya tivera um arrepio intimo, ao veto pela primeira vez. Voltara o rosto

bruscamente, instingtivamente, fugindo & fulminacao

daquelles pobres olhos trahidos.

Elye saudara-a com 'a velha palheta, amareya

das garoas, num sorriso onde ia todo o seu espfacelamento.

Regressara sobre os proprios passos para veff

entrar: queria que ela o presentisse ainda, o cumprimentasse ainda.

Mas Alma fugia como uma ave baleada. Bateu

O portao, entrol.

Em cima, no balcao de jasmins, nem signal

de vida.

Joao esperou anoitecer, rondando para ca e para

la... Achava absurdo que ela tivesse passado incolume pela sua suggestao amorosa e constante.

Na rua, claudicou longamente, com moleques

, uma carroca de reclamo de circo.

atras,

ATRILOGIADO EXILIO

enovelHada

Abordou-a afinal. E tagteando a

tragedia, como quem tene uma explosao suffocante,

falou vagamente da verdade.

Ela se mantinha niuma aytitude de reserva e

dissimulacao, recostada, muito fulva, rescendendo a

Yvonette, nas velhas grades do jardim. Parecia ter

O rosto martyrigado e maior.

Desviara-se, por uma convencaa piedosa de

ambos, a vida do asylo de D. Rosaura. Ela parecia

sensibilizada. Pugera-se a sonhar.

E, no intimo do telegraphista, cresceu de subito

uma magda profunda contra aquele portao, em que

O outro a seduzira.

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