A Escada - Bloco 03 A Trilogia do Exílio · Capítulo 58 de 87
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A Escada - Bloco 03

Um passaro cantava. Um passaro azul bicava uma folha de arvore imensa e quieta.E

o sol e a estrada.

A ESCADA VERMELHA

Tinha saido dentro da noite. Fora ao centro, perdera-se nos bairros banais. E como

por todas as pessoas que encontrava, visse a

alegria inconciente e sem vergonha da vida,

teve o impeto de estacar todas, uma a uma,

e perguntar-lhes se nao tinham chorado um

dia e paralisar a desprevenida festa das calcadas e dissolver os ajuntamentos divertidos,

ir de homem a homem, de mulher a mulher,

evocando: — Nao te lembras mais, ele! ela!

Dizer aos que sorriam:— Escuta, nunca sofreste? Nunca perdeste aquela

a qule

amavas?

E de sua dor ver nascerem milhares de

dores anonimas... E ir assim pelas ruas

abrindo um sequito imenso de maceracoes.

Mario de Alfenas levou-a a um cabare

para distrai-lo.

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Geracoes sucediam-se nos velhos ambientes de deboche.

Jorge nao conhecia ninguem. Mario

apresentou-o ao engenheiro Bandeira, ossudo e grisalho. Reconciliara-se com a Lucy

da Pensao Chiquita e pagava champanhe

aquela noite.

Mostraram ao artista um mago estranho

da cidade.

Era um sujeito entroncado que parecia

ter sido achatado propositalmente por qualquer dedo sobrenatural.

Lia o destino nas maos e conversava com

os astros no sereno das noites cidadinas.

Contava que pusera o Antenor Lima na panela.

Vao ver como ele rebenta.

Na galhofa da orquestra volteava o espasmo convulso dos tangos. Havia contatos

de carnes brancas e rostos gravados de calvarios.

Uma mulher de cabelos curtos veio sentar-se a mesa, ao lado de Lucy, insignifican

A ESCADA VERMELHA

te, grudada ao engenheiro que se embebedava numa intima festividade.

Mario de Alfenas, muito serio, confessou,a Jorge, que tinha tambem um caso, uma

dansarina do Apolo.

O mago conhecia-a. Fizeram-lhe o necrologio timido.

criatura

Chamava-se Arlete. Era

uma

de bons sentimentos.

engenheiro de repente perguntou a

roda se Lucy nao era uma mulher ideal.

O champanhe decrecia nos copos.

Um bebedo, levantou-se e dirigiu a orquestra, de pe, com os bracos incertos e pesados.

Corpos uniam-se nos maxixes.

E o amor estuava, suplicante como ante

cs portais fechados de um templo.

O mago esquecera os olhos pequeninos

na fumarada azul da sala. Obstinava-se numa

face de pesquisa quieta.

O escultor interrogou-o.

Estou vendo Cristo Nosso Senhor.

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Sairam na madrugada avancada. Despediram-se.

Jorge veio so pelas ruas.

As fabricas anunciavam o fim da noite.

um apito espevitava-se no azul ferrete, passavam os primeiros bondes acesos, uma velha mendiga vomitava de fome, sentada a

soleira de uma

igreja escura, cornetas de

quartel acordavam a cidade.

E Cristo subia do teto do dancing, alto,

espedtral para o ninho das auroras.

Um grupo de rapazes e velhotes tinha

invadido o atelier.

Viera, trazido pela admiracao incansavel de Carlos Bairao.

Era um ajuntamento de partidos pelo

meio, de semi-homens supremos que ensaia-

A ESCADA VERMELHA

vam, numa incapacidade lancinante, atingir

“os estados superiores

que chamavam

da terra". Intitulavam-se os artistas da cidade.

Alguns ja maduros, aceitos em rodas

pasmas, outros na angustia de lutas incompreendidas, aumentadas pelas miserias de

seus lares convulsos, os, demais boemios imprecisos, revoltados a-toa, todos sob o incubo de maldicoes e desastres.

Ante as modelagens, pararam na elevacao religiosa dos compreendidos.

Eles, que constituiam o beaterio da arte,

escapados tristes do mundo, para um fundo

limoso de estesia sacrista, que eram na terra

brutal e indiferente o apostolado macilento

da oracao das artes lividas e saiam em bichas processionais, de opa macerada, levando a lamparina de suas almas medrosas atras

dos desviados andores e das pequenas adoracoes, —— eles ali se enchiam de uma magaada

conciencia de sua utilidade humana, e no

choque das proprias confusoes, que lhes tra-zia a afirmacao daquela vitoria de homem,

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fundiam-se como escravizados numa integracao final.

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