A Escada - Bloco 03
Um passaro cantava. Um passaro azul bicava uma folha de arvore imensa e quieta.E
o sol e a estrada.
A ESCADA VERMELHA
Tinha saido dentro da noite. Fora ao centro, perdera-se nos bairros banais. E como
por todas as pessoas que encontrava, visse a
alegria inconciente e sem vergonha da vida,
teve o impeto de estacar todas, uma a uma,
e perguntar-lhes se nao tinham chorado um
dia e paralisar a desprevenida festa das calcadas e dissolver os ajuntamentos divertidos,
ir de homem a homem, de mulher a mulher,
evocando: — Nao te lembras mais, ele! ela!
Dizer aos que sorriam:— Escuta, nunca sofreste? Nunca perdeste aquela
a qule
amavas?
E de sua dor ver nascerem milhares de
dores anonimas... E ir assim pelas ruas
abrindo um sequito imenso de maceracoes.
Mario de Alfenas levou-a a um cabare
para distrai-lo.
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Geracoes sucediam-se nos velhos ambientes de deboche.
Jorge nao conhecia ninguem. Mario
apresentou-o ao engenheiro Bandeira, ossudo e grisalho. Reconciliara-se com a Lucy
da Pensao Chiquita e pagava champanhe
aquela noite.
Mostraram ao artista um mago estranho
da cidade.
Era um sujeito entroncado que parecia
ter sido achatado propositalmente por qualquer dedo sobrenatural.
Lia o destino nas maos e conversava com
os astros no sereno das noites cidadinas.
Contava que pusera o Antenor Lima na panela.
Vao ver como ele rebenta.
Na galhofa da orquestra volteava o espasmo convulso dos tangos. Havia contatos
de carnes brancas e rostos gravados de calvarios.
Uma mulher de cabelos curtos veio sentar-se a mesa, ao lado de Lucy, insignifican
A ESCADA VERMELHA
te, grudada ao engenheiro que se embebedava numa intima festividade.
Mario de Alfenas, muito serio, confessou,a Jorge, que tinha tambem um caso, uma
dansarina do Apolo.
O mago conhecia-a. Fizeram-lhe o necrologio timido.
criatura
Chamava-se Arlete. Era
uma
de bons sentimentos.
engenheiro de repente perguntou a
roda se Lucy nao era uma mulher ideal.
O champanhe decrecia nos copos.
Um bebedo, levantou-se e dirigiu a orquestra, de pe, com os bracos incertos e pesados.
Corpos uniam-se nos maxixes.
E o amor estuava, suplicante como ante
cs portais fechados de um templo.
O mago esquecera os olhos pequeninos
na fumarada azul da sala. Obstinava-se numa
face de pesquisa quieta.
O escultor interrogou-o.
Estou vendo Cristo Nosso Senhor.
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Sairam na madrugada avancada. Despediram-se.
Jorge veio so pelas ruas.
As fabricas anunciavam o fim da noite.
um apito espevitava-se no azul ferrete, passavam os primeiros bondes acesos, uma velha mendiga vomitava de fome, sentada a
soleira de uma
igreja escura, cornetas de
quartel acordavam a cidade.
E Cristo subia do teto do dancing, alto,
espedtral para o ninho das auroras.
Um grupo de rapazes e velhotes tinha
invadido o atelier.
Viera, trazido pela admiracao incansavel de Carlos Bairao.
Era um ajuntamento de partidos pelo
meio, de semi-homens supremos que ensaia-
A ESCADA VERMELHA
vam, numa incapacidade lancinante, atingir
“os estados superiores
que chamavam
da terra". Intitulavam-se os artistas da cidade.
Alguns ja maduros, aceitos em rodas
pasmas, outros na angustia de lutas incompreendidas, aumentadas pelas miserias de
seus lares convulsos, os, demais boemios imprecisos, revoltados a-toa, todos sob o incubo de maldicoes e desastres.
Ante as modelagens, pararam na elevacao religiosa dos compreendidos.
Eles, que constituiam o beaterio da arte,
escapados tristes do mundo, para um fundo
limoso de estesia sacrista, que eram na terra
brutal e indiferente o apostolado macilento
da oracao das artes lividas e saiam em bichas processionais, de opa macerada, levando a lamparina de suas almas medrosas atras
dos desviados andores e das pequenas adoracoes, —— eles ali se enchiam de uma magaada
conciencia de sua utilidade humana, e no
choque das proprias confusoes, que lhes tra-zia a afirmacao daquela vitoria de homem,
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fundiam-se como escravizados numa integracao final.