A Estrella de Absyntho - Bloco 08
Depois de um silencio longo que Jorge
procurou manter, Bruno despediu-se com o
seu ar deseinpenado & altaneiro. Jorge rodou
de novo sozinho pelo quarto,foi ate o seu
pequeno hureau, abriu-o. E debrucou-se alli
sobre folhas de papel, a escrever uma carta
a Alma.
Fumou um cigarro, depois levantou-se.
Sentia-se inquieto, incapaz de dormir. Tirou
o pijama, vestiu-se de novo, saiu.
Uma forca chamava-o para o canto escuro do Lavapés. Que faria Alma a essas horas? Ehle nao tinha chave, iria entretanto ate
la, rondar, perscrutar.
As ruas estavam molhadas, Jorge beirou
Teatro Municipal no asphalto luzente.
Deixando o bar, grupos elegantes de noctambulos paravam e riam com grandes chapeus.
Era mais de uma hora da madrugada.
Ele tomou sem pressa pelo velho Viadugto. Um auto passou. No centro, havia o ultimo borborinho dos cafés adcegos. Tylburis
claudicavam vazios. O Largo da Sé parecia
dormir, junto a Cathedral, num silencio de
ruinas em folha.
Pela Rua da Gloria, caminhavam deante
delle dois mocos conversando. Ele percebeu
que vinham de um teatro, discutiam a Viuva
Alegre. Jorge pensou em Roma, nas noites
que tivera com Mary Beatriz. Onde estaria
ela?
Jorge d'Alvellos parou. Estava na esqwina da Rua Scuvero, atravancada pelo movimento de pedras e de terra. Uma valeta longa subia a ladeira ate o fim. Nem um soldado, nem um transeunte... Jorge beirou o sobrado, procurando sustar o ruido dos passos
na areia molhada do passeio.
Pareceu-lhe
que havia luz em cima. Depois de um minuto, voltou. A luz era no quarto de Alma, ela
talvez estivesse agcordada. Ou entao... uma
lancinante suspeita suffocava-o. Pensou em
fugir para nao verificar. Estacou em baixo,
no Lavapes deserto: Longe, cortou a rua uma
silhueta encapotada de guarda, com passadas regulares. Jorge juntou-se nervoso a um
tronco. Mas, se fosse assim, ele saberia agir,
pularia o fragil portao,subiria cautelosamente ao patamar e,surprehendendo-a com o ou-
tro, acabal-o-ia a tiros. Chegou-se ainda, procurando para sempre mais perto. Foi escutar
de novo o silencio da esquina. E impulsivo,
resoluto, agil, subiu as grades velhas, passou
uma perna, parou espiando para fora... Apenas a lanterna vermelha fitava-o entre montoes de terra.
Deixou-se cahir justo a um canteiro de
terra. A casa parecia dormir: nenhum ruido
vinha della. Caminhou entre folhas humidas.
E receioso, subiu os degraus, carcomidos, estacando, ouvindo.
Estendera a cabeca ate a janella. A cortina larga defendia o interior, agcezo. Apenas
por uma fresta, viu o desalinho do quarto.
Sobre um tamborete, ficara sentado, de bracos para cima, um macaco caricatural, de
panno.
Percebeu num susto que a vidraca estava
aberta. Veiu-lhe uma momentanea afflicao;
depois, empurrou de vagar.
Soergueu a cortina esticada: ela estava
descoberta no leito. Nem sequer se despira.
Parecia resolvida no luto do filo, onde transpareciam entre rosaceas as coxas violentas
emergindo do monogramma das ligas.
Cavalgou o peitoril. Penetrara... Tocou
desastradamente num movel, houve um baque de caixa cahida.
Alma suspirou qualquer coisa por entre
os dentes cerrados. E ficou tudo quieto de
novo.
No toucador, estava junto a botelha de
crystal esvasiada, a garrafa de absyntho, bojuda e aberla. Ela tinha bebido tudo, depois
que ele partira; apenas o copo guardava um
resto de droga opalina, fazendo sobrenadar
uma mosca morta.
De palpebras tombadas, ela murmurou
de novo alguma coisa, um nome talvez. Entao, num movimento, Jorge apagou a luz,
Do escuro, foram sahindo, pouco a pouco, as formas dos quadros, das cortinas, da
cama.
Alma repetia numa ternura fatigada duas
syllabas confusas. Ele passou-lhe a mao pela
testa glacial.
Como que animada, ela suspirou:
Comprehendes... sou tua...
Jorge, gelado, inteiricado, escutava na
sombra... Ela entreabriu os labios grossos
e disse:
-Vem!
Tomara-a pelos bracos carnudos no escuro do leito. Uma volupia sinistra enlacouos. De seios tesos, a bocca ululante, ela absorvia-o todo.
E na noite de corpos unidos, solucou:
Ar-thur..
-73—
Sugado de gozo ate a espinha, ele qui
retirar-se, fugir, mas ela atracou-o, cataleptica, solucante..
: Jorge levantara-se atordoado; Alma continuava no filo, estirada, morta. Ele entao
recompo? nervosamente o leito, galgou de novo a janella descerrada, desceu, espiou por
cima do portao, saltou num subito medo e
partiu pela madrugada das ruas.
Na manha demorada, Alma appareceu no
quarto da Avenida Sao Joao, risonha e esbelta. Tinha os olhos enfaixados no luto das
olheiras.
Passaste bem a noite, lindo?
Jorge nao respondeu. Ela moveu-se pelos
tapetes, foi a janella, sob o cloche de palha
rustica, dizendo:
Nao dormi nada.
Sentou-se. O esculptor continuava calado,
olhando-a, no grosso pijama.
-- Passei uma noite de farra..
Onde?
Por aí, com Camilla.
E depois de um silencio:
Preciso de cem mil reis..
Para que?
Para pagar uma divida de honra.
Jorge espreguicou-se, ela insistiu:
Podes dar-me?
Tens divida de honra?
Fiz hontem a primeira.
Como?
No jogo.
Sonhaste.
Nao. Fui a Ponte-Grande jogar. Acabou-se o dinheiro que tinha. Camilla emprestou-me.
Onde isso?
Numa casa..
Foste a Ponte-Grande?
Fui...
Quando? A que horas?
Depois da meia-noite, a hora do jogo.
Mas onde?
Numa casa em que ia as vezes, quando era honesta e tomava ether...
Aborrece-te? Nao encontrei ninguem... Voltei so.
-Andas de novo sozinha pelas ruas, a
noite?
Que mal ha nisso? Nao te trahi..
isto é, sabes, trahi-te esta noite...
Jorge passara, naquelle instante de dialogo, por todos os horrores de que vinha tendo longa reprise. A sua credulidade excessiva,imutavel,atavica talvez,talvez volunta-
ria, feita de Andia de artista, seduzido pelo
delirio do absurdo, nao oppunha argumentos
a prantasia perversa de Alma.
.Acreditava
que' de fadto ela tivesse sahido. Entretanto,
tinha a consciencia do que fizera as mesmas
horas — a escalada, o encontro della, bebeda
e irrequieta no leito...
-Sei que me trahiste..
Levantara-se, andou pelo quarto, depois
estirou-se sobre os lencoes, disposto a ficar.
Mas a sua imaginacao inquietada trabalhava.
Perguntou de repente:
Com quem me trahiste?
Ela sorriu:
Queres que te conte?
Quero.
Com um principe.