A Estrella de Absyntho - Bloco 08 A Trilogia do Exílio · Capítulo 35 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 08

Depois de um silencio longo que Jorge

procurou manter, Bruno despediu-se com o

seu ar deseinpenado & altaneiro. Jorge rodou

de novo sozinho pelo quarto,foi ate o seu

pequeno hureau, abriu-o. E debrucou-se alli

sobre folhas de papel, a escrever uma carta

a Alma.

Fumou um cigarro, depois levantou-se.

Sentia-se inquieto, incapaz de dormir. Tirou

o pijama, vestiu-se de novo, saiu.

Uma forca chamava-o para o canto escuro do Lavapés. Que faria Alma a essas horas? Ehle nao tinha chave, iria entretanto ate

la, rondar, perscrutar.

As ruas estavam molhadas, Jorge beirou

Teatro Municipal no asphalto luzente.

Deixando o bar, grupos elegantes de noctambulos paravam e riam com grandes chapeus.

Era mais de uma hora da madrugada.

Ele tomou sem pressa pelo velho Viadugto. Um auto passou. No centro, havia o ultimo borborinho dos cafés adcegos. Tylburis

claudicavam vazios. O Largo da Sé parecia

dormir, junto a Cathedral, num silencio de

ruinas em folha.

Pela Rua da Gloria, caminhavam deante

delle dois mocos conversando. Ele percebeu

que vinham de um teatro, discutiam a Viuva

Alegre. Jorge pensou em Roma, nas noites

que tivera com Mary Beatriz. Onde estaria

ela?

Jorge d'Alvellos parou. Estava na esqwina da Rua Scuvero, atravancada pelo movimento de pedras e de terra. Uma valeta longa subia a ladeira ate o fim. Nem um soldado, nem um transeunte... Jorge beirou o sobrado, procurando sustar o ruido dos passos

na areia molhada do passeio.

Pareceu-lhe

que havia luz em cima. Depois de um minuto, voltou. A luz era no quarto de Alma, ela

talvez estivesse agcordada. Ou entao... uma

lancinante suspeita suffocava-o. Pensou em

fugir para nao verificar. Estacou em baixo,

no Lavapes deserto: Longe, cortou a rua uma

silhueta encapotada de guarda, com passadas regulares. Jorge juntou-se nervoso a um

tronco. Mas, se fosse assim, ele saberia agir,

pularia o fragil portao,subiria cautelosamente ao patamar e,surprehendendo-a com o ou-

tro, acabal-o-ia a tiros. Chegou-se ainda, procurando para sempre mais perto. Foi escutar

de novo o silencio da esquina. E impulsivo,

resoluto, agil, subiu as grades velhas, passou

uma perna, parou espiando para fora... Apenas a lanterna vermelha fitava-o entre montoes de terra.

Deixou-se cahir justo a um canteiro de

terra. A casa parecia dormir: nenhum ruido

vinha della. Caminhou entre folhas humidas.

E receioso, subiu os degraus, carcomidos, estacando, ouvindo.

Estendera a cabeca ate a janella. A cortina larga defendia o interior, agcezo. Apenas

por uma fresta, viu o desalinho do quarto.

Sobre um tamborete, ficara sentado, de bracos para cima, um macaco caricatural, de

panno.

Percebeu num susto que a vidraca estava

aberta. Veiu-lhe uma momentanea afflicao;

depois, empurrou de vagar.

Soergueu a cortina esticada: ela estava

descoberta no leito. Nem sequer se despira.

Parecia resolvida no luto do filo, onde transpareciam entre rosaceas as coxas violentas

emergindo do monogramma das ligas.

Cavalgou o peitoril. Penetrara... Tocou

desastradamente num movel, houve um baque de caixa cahida.

Alma suspirou qualquer coisa por entre

os dentes cerrados. E ficou tudo quieto de

novo.

No toucador, estava junto a botelha de

crystal esvasiada, a garrafa de absyntho, bojuda e aberla. Ela tinha bebido tudo, depois

que ele partira; apenas o copo guardava um

resto de droga opalina, fazendo sobrenadar

uma mosca morta.

De palpebras tombadas, ela murmurou

de novo alguma coisa, um nome talvez. Entao, num movimento, Jorge apagou a luz,

Do escuro, foram sahindo, pouco a pouco, as formas dos quadros, das cortinas, da

cama.

Alma repetia numa ternura fatigada duas

syllabas confusas. Ele passou-lhe a mao pela

testa glacial.

Como que animada, ela suspirou:

Comprehendes... sou tua...

Jorge, gelado, inteiricado, escutava na

sombra... Ela entreabriu os labios grossos

e disse:

-Vem!

Tomara-a pelos bracos carnudos no escuro do leito. Uma volupia sinistra enlacouos. De seios tesos, a bocca ululante, ela absorvia-o todo.

E na noite de corpos unidos, solucou:

Ar-thur..

-73—

Sugado de gozo ate a espinha, ele qui

retirar-se, fugir, mas ela atracou-o, cataleptica, solucante..

: Jorge levantara-se atordoado; Alma continuava no filo, estirada, morta. Ele entao

recompo? nervosamente o leito, galgou de novo a janella descerrada, desceu, espiou por

cima do portao, saltou num subito medo e

partiu pela madrugada das ruas.

Na manha demorada, Alma appareceu no

quarto da Avenida Sao Joao, risonha e esbelta. Tinha os olhos enfaixados no luto das

olheiras.

Passaste bem a noite, lindo?

Jorge nao respondeu. Ela moveu-se pelos

tapetes, foi a janella, sob o cloche de palha

rustica, dizendo:

Nao dormi nada.

Sentou-se. O esculptor continuava calado,

olhando-a, no grosso pijama.

-- Passei uma noite de farra..

Onde?

Por aí, com Camilla.

E depois de um silencio:

Preciso de cem mil reis..

Para que?

Para pagar uma divida de honra.

Jorge espreguicou-se, ela insistiu:

Podes dar-me?

Tens divida de honra?

Fiz hontem a primeira.

Como?

No jogo.

Sonhaste.

Nao. Fui a Ponte-Grande jogar. Acabou-se o dinheiro que tinha. Camilla emprestou-me.

Onde isso?

Numa casa..

Foste a Ponte-Grande?

Fui...

Quando? A que horas?

Depois da meia-noite, a hora do jogo.

Mas onde?

Numa casa em que ia as vezes, quando era honesta e tomava ether...

Aborrece-te? Nao encontrei ninguem... Voltei so.

-Andas de novo sozinha pelas ruas, a

noite?

Que mal ha nisso? Nao te trahi..

isto é, sabes, trahi-te esta noite...

Jorge passara, naquelle instante de dialogo, por todos os horrores de que vinha tendo longa reprise. A sua credulidade excessiva,imutavel,atavica talvez,talvez volunta-

ria, feita de Andia de artista, seduzido pelo

delirio do absurdo, nao oppunha argumentos

a prantasia perversa de Alma.

.Acreditava

que' de fadto ela tivesse sahido. Entretanto,

tinha a consciencia do que fizera as mesmas

horas — a escalada, o encontro della, bebeda

e irrequieta no leito...

-Sei que me trahiste..

Levantara-se, andou pelo quarto, depois

estirou-se sobre os lencoes, disposto a ficar.

Mas a sua imaginacao inquietada trabalhava.

Perguntou de repente:

Com quem me trahiste?

Ela sorriu:

Queres que te conte?

Quero.

Com um principe.

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