A Estrella de Absyntho - Bloco 20 A Trilogia do Exílio · Capítulo 47 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 20

Era a sua obra, desconhecida, da cidade indifferente, que applaudia la em cima os monstrengos trepidantes de papelao pintado, nos

carros grotescos.

Jorge procurou a esphinge de gesso que

permaliecia & cabeceira do divan, levantando,

no plaro do socco, uma velha lampada romana. Agcendeu. A esphinge ficou dourada no

rosto, enigmatica, terrivel. E a luz levantou

sombras por detraz das estatuas crescidas no

atelier.

Houve pelo quarto uma expectativa.

O artista sentou-se. Nao temia o phantasma escorregadio que nao ousava enfrental

senao nos momentos de via-sacra voluntaria,

pelo calvario que Deus lhe instituira. O incubo nao o levaria ao suicidio. Mas,num desanimo resignado, sentia que ia morrer, hoje

talvez, amanha... debaixo das rodas de uma

carroca de rua, perdido nas suas lucubracoes

de predestinado,ou entao na fatalidade de

uma subita paragem do estafado maquinario

interior. Morreria, devia morrer..

Olhou o atelier que palpitava, a noite, nas

horas de silencio, toda uma vida inesperada

de relevos que falavam, de sombras que se

moviain. As estatuas, a luz morta da lampada,

decuplicavam de aecao mysteriosa, de sublime egoismo, de divinizado amor-proprio. O

homem deixara de existir naqueHa officina

de creaturas alvas e grandes. O torso enorme

do Fauno revirava-se, o joelho em angulo agudo, erguendo a nympha espedacada, num desencadeamento de forcas homericas.

E a greda modelada parecia falar e denunciar mysterios de outra vida.

La fora, Sao Paulo rumorejava nos ultimos instantes do carnaval.

Jorge d'Alvellos na sua magnanimidade

de artista nao se queixava da cidade que o

nao soubera comphehender e salvar. Era pre-

ciso haver sacrificados como ele e como Alma, desastrados geniaes, estupendos, que fizessem a gloria sangrenta de metropole atordoante, como outrora fora necessario haver

martyres e santos para solidificar-se na planicie callosa de Piratininga, o villarejo de indios e jesuitas.

Nayuelle momento de lugubre expiacao,

sentia que da sua historia e da historia de

Alma, jorrava a certeza de que Sao Paulo era

a nova America, na sua significacao alta, possante e lyrica.

A lembranca de Alma voltou-lhe como

uma queimadura.

Apagou a luz com um sopro. E uma paz

de cemiterio desceu sobre as estatuas.

Deitara-se ao divan. O revolver gelado

pesava-lhe na mao. E pensou de repente que

seria facil acabar com a vida. Apenas puxar

o gatilho daquella arma... Se o fizesse!

Encostou o canno ao coracao sobre a roupa, como a ensaiar. E divagava:— Se o fizesse... que diriam? que haviam de pensar?

Habituado ao escuro incerto da sala, viu

o braco de séda,recurvo contra o peito, em

posicao de apontar. E fatalisado, imovel,

olhou a mao: estava dobrada sobre a arma,

de dedos encarquilhados. Parecia de cera e

de panno — mao de cadaver, mao de suicida.

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Houve uma luz e um baque mecanico na

noite. Uma surprega azeda na bogca... Comecara qualquer coisa a gottejar-lhe entre a carne e a camisa. Era sangue, quis adcender a

luz, verificar... Mas a sua cabeca sahia de se

mesmo para realizar no escuro solucos circumcentricos, desenrolando-se numa espiral

monstruosa e levando numa acrobacia gelada

o divak e os grupos quietos.

Estava deitado.

Moveu as pernas numa afflicao de viver.

Torresvedras agcordou quarta-feira, as

quatro horas da tarde. Ergueu-se dando o

dia por perdido. E na solidao em que morava

numa travessa da Gloria, esperou a noite chegar para sahir.

Um vendedor de jornaes passou, gritanComprou uma folha vespertina. Desdodo.

brou-a a janella e leu de repente: "Madrugada de cinzas - Um eatranho suicidio'.

Fora no Palacio das Industrias. O musico

comia as lertras com os olhos. "Na ante-manha, circurhdado de lampadas esguias, o portento Florentino envolvia-se num grande manteau... pierrot de seda e alvaiade"... O no-

me!... queria saber o nome ... "o soldado que

ouvira o tiro apitou arrebatado" "em decubito

dorsal, os pes voltados para uma estatua quebrada... Era ele... Quis rasgar o jornal que

se negava a confirmar tudo... E leu no fim:

"Pierrot que ora repousava tranquillo no marmore do necroterio nao era mais que um esculptor brasileiro, de nome Jorge d'Alvellos,

com trinta e dois apnos de edade, recemchegado de Roma. O motivo do tragico desatino

foram amores contrariados".

O folhetim policial da gazeta paulista nao

dissera a verdade lancinante que foi para Carlos Byron e Bruno de Alfenas encontrarem,

ainda morno no seu pierrot de aluguel, o cor-po hirto de Jorge.

Estavam na Rotisserie, em pleno jazzluzes e tacas de champagne,

band, entre

colombinas,

dominos,

perfeitas,

casacas

brilhantes,

quando

sala

correu

que

houvera um suicidio no Palacio das Industrias. Quem trazia a noticia era a propria autoridade policial que tomara conhecimento

do fadto. Chamado ao hotel. para verificar

uma queixa de furto, entre um licor e a pres-

posto, agitado

oseu

de partir

para

carnaval,

longa

naquella

terca-feira

contara o oqcorrido: nao pudera levar medico nenhum ao Palacio das Industrias, pois

tanto o legista como o da assistencia tinham

tomado. momentos,antes de resoar o aviso

de crime no telephone do gabinele, rumos

differentes e longinquos. Nao fora necessario.

Vendo o pierrot largado e sem pulso e da ferida goltejar o sangue quasi negro, fizera reinmmediatamente ao necroterio da

colhelHo

Centrai.

Saltando para a Cadillac que com eles

fizera o corso, Carlos Byron e Bruno de Alaquelle num torero de seda, o trifenas cornio largo de veludo e o rabicho; este num

domino negro fechado de alto a baixo — fizeram voar a maquina possante pelas ruas

onde os ultimosp

dispersavam, e

populares

chegaram num pulo ao edificio aberto e illuminado da Secretaria da Justica, no largo

do Palacio. Homens despreocupados, fumando, enfermeiros de avental e um cabo sentado

ao fundo, nao lhes souberam explicar quem

era o morto. A autoridade estava momentaneamente ogcupada. Disseram-lhes que podiam ir ao necroterio entrando pelo portao

de ambulancias a esquerda.

As duas phantasias correram, procuraram o caminho, enveredaram por ele. Era um

corredor de pedra, descendo para o fundo,

entre paredes alvas. Desembocaram num comeco de patamar aberto para a madrugada.

Havia nehlina nos focos de luz. Uma escada desapparecia a direita, estreita, longa,

intermina; e la embaixo, no escuro, o Braz

panoramico faiscava. Eles foram devorando

os degraus, Bruno levantava nas maos crispadas o domino embaracante. Carlos Byron

procurou inutilmente no escuro vago da Varzea a massa informe do Palacio das Industrias. Desceram um novo trecho da escada,

maior que o primeiro — e acharam-se numa

entrada aberta de estrebaria. Investiram procurando. Um soldado moreno em mangas de

camisa. entre dois cavalos suados, gritou com

eles. Explicaram-se. O homem indicou-lhes,

ao fundo, uma especie de garage haixa, fechada por um portao. Foram indo. Havia sentinellas de pé. Num cubiculo que tinha ogivas

verdes

escancaradas divisaram, sobre uma

mesa de marmore, um caixao aberto de zinco.

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