A Estrella de Absyntho - Bloco 20
Era a sua obra, desconhecida, da cidade indifferente, que applaudia la em cima os monstrengos trepidantes de papelao pintado, nos
carros grotescos.
Jorge procurou a esphinge de gesso que
permaliecia & cabeceira do divan, levantando,
no plaro do socco, uma velha lampada romana. Agcendeu. A esphinge ficou dourada no
rosto, enigmatica, terrivel. E a luz levantou
sombras por detraz das estatuas crescidas no
atelier.
Houve pelo quarto uma expectativa.
O artista sentou-se. Nao temia o phantasma escorregadio que nao ousava enfrental
senao nos momentos de via-sacra voluntaria,
pelo calvario que Deus lhe instituira. O incubo nao o levaria ao suicidio. Mas,num desanimo resignado, sentia que ia morrer, hoje
talvez, amanha... debaixo das rodas de uma
carroca de rua, perdido nas suas lucubracoes
de predestinado,ou entao na fatalidade de
uma subita paragem do estafado maquinario
interior. Morreria, devia morrer..
Olhou o atelier que palpitava, a noite, nas
horas de silencio, toda uma vida inesperada
de relevos que falavam, de sombras que se
moviain. As estatuas, a luz morta da lampada,
decuplicavam de aecao mysteriosa, de sublime egoismo, de divinizado amor-proprio. O
homem deixara de existir naqueHa officina
de creaturas alvas e grandes. O torso enorme
do Fauno revirava-se, o joelho em angulo agudo, erguendo a nympha espedacada, num desencadeamento de forcas homericas.
E a greda modelada parecia falar e denunciar mysterios de outra vida.
La fora, Sao Paulo rumorejava nos ultimos instantes do carnaval.
Jorge d'Alvellos na sua magnanimidade
de artista nao se queixava da cidade que o
nao soubera comphehender e salvar. Era pre-
ciso haver sacrificados como ele e como Alma, desastrados geniaes, estupendos, que fizessem a gloria sangrenta de metropole atordoante, como outrora fora necessario haver
martyres e santos para solidificar-se na planicie callosa de Piratininga, o villarejo de indios e jesuitas.
Nayuelle momento de lugubre expiacao,
sentia que da sua historia e da historia de
Alma, jorrava a certeza de que Sao Paulo era
a nova America, na sua significacao alta, possante e lyrica.
A lembranca de Alma voltou-lhe como
uma queimadura.
Apagou a luz com um sopro. E uma paz
de cemiterio desceu sobre as estatuas.
Deitara-se ao divan. O revolver gelado
pesava-lhe na mao. E pensou de repente que
seria facil acabar com a vida. Apenas puxar
o gatilho daquella arma... Se o fizesse!
Encostou o canno ao coracao sobre a roupa, como a ensaiar. E divagava:— Se o fizesse... que diriam? que haviam de pensar?
Habituado ao escuro incerto da sala, viu
o braco de séda,recurvo contra o peito, em
posicao de apontar. E fatalisado, imovel,
olhou a mao: estava dobrada sobre a arma,
de dedos encarquilhados. Parecia de cera e
de panno — mao de cadaver, mao de suicida.
155—
Houve uma luz e um baque mecanico na
noite. Uma surprega azeda na bogca... Comecara qualquer coisa a gottejar-lhe entre a carne e a camisa. Era sangue, quis adcender a
luz, verificar... Mas a sua cabeca sahia de se
mesmo para realizar no escuro solucos circumcentricos, desenrolando-se numa espiral
monstruosa e levando numa acrobacia gelada
o divak e os grupos quietos.
Estava deitado.
Moveu as pernas numa afflicao de viver.
Torresvedras agcordou quarta-feira, as
quatro horas da tarde. Ergueu-se dando o
dia por perdido. E na solidao em que morava
numa travessa da Gloria, esperou a noite chegar para sahir.
Um vendedor de jornaes passou, gritanComprou uma folha vespertina. Desdodo.
brou-a a janella e leu de repente: "Madrugada de cinzas - Um eatranho suicidio'.
Fora no Palacio das Industrias. O musico
comia as lertras com os olhos. "Na ante-manha, circurhdado de lampadas esguias, o portento Florentino envolvia-se num grande manteau... pierrot de seda e alvaiade"... O no-
me!... queria saber o nome ... "o soldado que
ouvira o tiro apitou arrebatado" "em decubito
dorsal, os pes voltados para uma estatua quebrada... Era ele... Quis rasgar o jornal que
se negava a confirmar tudo... E leu no fim:
"Pierrot que ora repousava tranquillo no marmore do necroterio nao era mais que um esculptor brasileiro, de nome Jorge d'Alvellos,
com trinta e dois apnos de edade, recemchegado de Roma. O motivo do tragico desatino
foram amores contrariados".
O folhetim policial da gazeta paulista nao
dissera a verdade lancinante que foi para Carlos Byron e Bruno de Alfenas encontrarem,
ainda morno no seu pierrot de aluguel, o cor-po hirto de Jorge.
Estavam na Rotisserie, em pleno jazzluzes e tacas de champagne,
band, entre
colombinas,
dominos,
perfeitas,
casacas
brilhantes,
quando
sala
correu
que
houvera um suicidio no Palacio das Industrias. Quem trazia a noticia era a propria autoridade policial que tomara conhecimento
do fadto. Chamado ao hotel. para verificar
uma queixa de furto, entre um licor e a pres-
posto, agitado
oseu
de partir
para
carnaval,
longa
naquella
terca-feira
contara o oqcorrido: nao pudera levar medico nenhum ao Palacio das Industrias, pois
tanto o legista como o da assistencia tinham
tomado. momentos,antes de resoar o aviso
de crime no telephone do gabinele, rumos
differentes e longinquos. Nao fora necessario.
Vendo o pierrot largado e sem pulso e da ferida goltejar o sangue quasi negro, fizera reinmmediatamente ao necroterio da
colhelHo
Centrai.
Saltando para a Cadillac que com eles
fizera o corso, Carlos Byron e Bruno de Alaquelle num torero de seda, o trifenas cornio largo de veludo e o rabicho; este num
domino negro fechado de alto a baixo — fizeram voar a maquina possante pelas ruas
onde os ultimosp
dispersavam, e
populares
chegaram num pulo ao edificio aberto e illuminado da Secretaria da Justica, no largo
do Palacio. Homens despreocupados, fumando, enfermeiros de avental e um cabo sentado
ao fundo, nao lhes souberam explicar quem
era o morto. A autoridade estava momentaneamente ogcupada. Disseram-lhes que podiam ir ao necroterio entrando pelo portao
de ambulancias a esquerda.
As duas phantasias correram, procuraram o caminho, enveredaram por ele. Era um
corredor de pedra, descendo para o fundo,
entre paredes alvas. Desembocaram num comeco de patamar aberto para a madrugada.
Havia nehlina nos focos de luz. Uma escada desapparecia a direita, estreita, longa,
intermina; e la embaixo, no escuro, o Braz
panoramico faiscava. Eles foram devorando
os degraus, Bruno levantava nas maos crispadas o domino embaracante. Carlos Byron
procurou inutilmente no escuro vago da Varzea a massa informe do Palacio das Industrias. Desceram um novo trecho da escada,
maior que o primeiro — e acharam-se numa
entrada aberta de estrebaria. Investiram procurando. Um soldado moreno em mangas de
camisa. entre dois cavalos suados, gritou com
eles. Explicaram-se. O homem indicou-lhes,
ao fundo, uma especie de garage haixa, fechada por um portao. Foram indo. Havia sentinellas de pé. Num cubiculo que tinha ogivas
verdes
escancaradas divisaram, sobre uma
mesa de marmore, um caixao aberto de zinco.