Os Condemnados - Bloco 27
E, no dia inimigo, percebeu que sua vida caminhava para um desastre.
Nao artingira a finalidade procurada na longa
espectativa do seu amor.
) em que corriam os seus dias
O desequilibrio
annunciava-lhe uma especie de exame final, em que
seria fatalmente reprovado.
Nao corpreyendia os gastos de Alma, a sua
despega crescente.
Agcordara tarde ao lado della. E deixou-se
ficar no quarto por arrumar. Queria falar-lhe, expor-lhe tudo, dizer-lhe a sua dor e a sua revolta.
Alma cantarolava um tango, num vestido inteirico de lay, sobre sandalias altas. Dispunha objeftos
e moveis, num atarantado carinho. Iria ao outro
dia, com Camilla e Arthur, ao Alto da Serra.
Expulsou-o estouvadanente do leito. Ele vestiu-se.
Depois comecou, timido, incerto... Queria falar-ihe. Pediu-lhe que fossem ao Jardim da Luz.
Ela repeliu a ideia. Falasse a
mesmo no quarto
que precisava arranjar.
Ele pos o chapeu e sakiu so.
Para dar-lhe roupa branca, tomou a maxima
resolucao de seus dias.
Ia desfazer-se da uinica lembranca materna que
tinha. Era uma joia antiga.
Esperou que Alma nao estivesse. Foi ao fundo
de sua velha mala. Procurou, desembrulhou cautelosamente. Derramou-se de uma flor de ouro um
chuveiro de minusculos diamantes. Uma emocao
estrangulou-o de joelhos.
Foi ao Monte de Soccorro. Dariam, pela jbia,
quinhentos, talvez seiscentos mil réis...
Esperou que um dos cubiculos abertos, cnde
uma mulher negociava, se desogcupasse.
Um velhote enrugado veiw tomar-lhe o objefto.
Levou-o sem exame, lancou-o a uma minuscula
balanca de precisao. Ia pesar o seu destino. Talvez
mara cincoenta grammas insignificantes. A balanca
virou. Ele pesava aquillo tambem.. .
Nas tardes effusivas de sol, deixando de ir ao
clubcdo rio, entrava debordante, pedindo uma compensacao, ao menos, para a sua existencia desmantelada - o amcr que ela lhe devia.
Passou a esperar, deante de seus gestos incoKerentes, com uma serenidade de suicida, que o destino o rebentasse num Gltimo choque.
Nao tinham mais contactos.
E ela, sentindo-o obstinado e etranho, comecoul a soffrer.
Resolveu contar-lhe que fora boa como élye
e credula e mais o que sabia do mundo e mais como
os outros lhe haviam destrocado as risadas as uiltimas innccencias.
Uma manha, disse-lhe beijando-o, que nao podia
viver sem o sell amor.
A noite, voltaram-lhe as dores do incommodo
antigo. Eye ficou afcordado ate treg horas da madrugada, renovando-lhe compressas de agua fria
sabre o doloroso ventre.
martyrio acalmou-se. Estavam no escuro:
Joao, sentado a uma cadeira, esperando, insopine e
humilde. Ela pediu-lhe que agcendesse a luz. EMe
obedeceu, sorrindo:
Queres me ver..
E ela num carinho novo, disse :
-- Nao preciso de luz para te ver...
gadora felicidade que lhe sorria.
seu coracao estuou tao forte que nao quis
quando podia,
de longe, nas ruas.
E viu-a uma tarde passear no Jardin Publico
com outro homeim. Era um desconhecido, vigoroso
e claro.
Deixara de espional-os, por entre arvores
moitas, numa canGeira nervosa.
Voltou ao bar perdido do Braz.
No crepusculo do bairro, velhos sujeitos dansantes entravam. Havia calcas brancas e pelicas suspeitas.
Reviu, na parede fronteira, a Fstacao da
Luz.
Ao seu lado, o inhmenso orchestrao de campainhas guinchava uma valsa. Era a alma varia e
imprevista, desencontrada e musical do bairro pobre,
onde a suia vida se destrocara.
O orchestrao calou-se. Ele leu insistentemente
um reclamo num espelho.
Sentiu um desenlace descer. Tocavam-no dos
ultimos redugtos da esperanca. Nao possuia
nais
nada, nunca possuira nada. Um desconforto phv
sico dobrava-o. Toda a sua finalidade fora aquelya
mulher. Amara-a numa teimosia epica, atraves de
todos os revetes, de todas as lagrimas, de todos os
desconfortos. Acreditara sempre nella.
Pagou a humilde despega. Sabinu pelas ruas
escuras e frias.
Um nojo indizivel envolvia-lhe os passos automaticos. Revia o caminho enganoso que trilhara.
O sentimento de repulsa dominava-o, inflexivel e
definitivo. Nao havia mais remedio, nunca houvera
remedio para aquele amor..
A figura de Alma passou, demoniaca, num meiodia de luz, os dentes perfeitos, engastados até o
fundo nas gengivas de romay. As araras decorativas
punham gritos finaes nos dias morrentes...
Reagiu. Uma imperativa mao afastava-o de
novos contactos, de novas explicacoes, de novas
mentiras.
Como? A molhada noite de relampagos apagados num instante... E a cidade armada em capela
mortuaria, com as carrocas nos viadugtos...
O labyrintho de Creta so tinha uma sahida, so
uma porta. E na desvairada Paulicea, as 'carrocas
rodando nos viadugtos, silhuetados em aco pelos relampagos curtos... Silencio! Um homem vae morrer,
voluntariamente, vigtoriosamente...
E as carrocas nos viaduytos...
La em baixo, um gato humano miou esfrangaihado.
Os embucados que passam nas pontes a essas
horas, espiaram.
Um relampago silhuetou em aco o viadugto e
O suicida estendido e calado.
Dez horas... onze horas... Alma quase dormia.
Jorge d'Alvellos, seu primo esculptor, chegara
da Europa. Reconhecera-o nos Correios, ouvindo-lhe
o nome estranho que um outro dizia. Passeara com
ele para contar-lhe a vida. Agora, apresental-o-ia
a Joao... Que demora na noite... Ela quasi dormia...
Na distancia, um cao ladrava: bai... bau... bal..
Na manha do Tiete, o club de natacao içou a
sua bandeirola, triangular e vermelha, a meio-pau.