A Estrella de Absyntho - Bloco 06
Houve um enorme silencio.
—55—
Quem é? Por tua mae morta, fala!
Um rapaz.
Como se chama?
Arthur.
Que faz?
Nao sei. Sei apenas que conversa muito bem e-densa muito bem.
-Onde o encontraste?
Na rua.
Jorge sentia um aniquilaCalaram-se.
mento definitivo cortar-lhe a vida.
Como chegaste a ir la?
Tinha o endereco.
E foste procural-o?
Alma nao se
Insultou-a pesadamente.
moveu, olhando o tapete numa fixidez insensivel.
Mas como foi? Como? Porque? Nao
te bastava o teu caften?
- Nunca te trahi com Mauro..
E trahiste-me com outro, agora, quando eu pretendia ligar para sempre a minha
existencia a tua... Perdeste-me... Perdeste-me..
A noite vinha de fora. Alma levantou-se,
ficou toda nua, grande, fulva. Poz um pijama de seda e veid enroscar-se no fundo do
leito.
Uma molle sensualidade quebrava o corpo de Jorge. Deitara-se ao lado da amante
56—
pohuida. O contacto de uma anca, sob a seda.
interpelou-o.
Um demonio novo, pouco a pouco, ia tomando conta delle, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma.
permanecia nua, no pijama, sobre a carne.
Jorge perguntou-lhe:
Como te entregaste?
Ia passando, ele estava a janella, fezme entrar.
—E depois?
Foi mostrar-me o quarto.
Sentamonos ao leito, para conversar. Uma aranha pequenina assustou-me. Ele riu, dizendo: araignée du soir, espoir! E deitou-me.
Jorge, tomado de uma volupia espantosa,
ao ouvir a cynica narrativa, queria minucias, obstinava-se de dentes cerrados.
Foi para mostrar os dessous novos que
te entregaste?
A sua mao, fazendo-se automatica, attingira-lhe o pijama que se rachava frouxamente. Ela deixou-se acariciar, acariciou-o tambem, com as maos longas e brancas. Mas de
um salto Jorge levantou-se, fugindo ao espasmo diabolico que o tomava. E ria agora
num doloroso esgar:
E' a vida!
Veiu de novo, disposto a tortural-a. Cingiu-lhe os seios com as maos numa violencia
57—
de bruto. Ela gemia, fugindo. Ele atacava,
furioso. Agatanhara-lhe a garganta.
— Pede-me perdao! pede!
Ela recusava-se, gemendo sempre. Pequeninas lagrimas apontaram-lhe aos cilios;
e gritou afinal na sombra, sentindo-se esga.nada:
-Per-dao!
Largou-a e fugiu para o patamar. Descera. Parou um instante a esquina. Depois,
foi-se alquebrado e triste.
Meges passaram-se rapidos sobre a desgraca mortal de Jorge d'Alvellos. Sao Paulo
tumultuava na espectativa das festas do Centenario. Artistas brasileiros, recemchegados
da Europa, armavam ateliers ao seu lado, no
Palacio das Industrias, agora em rapido acabamento.
No pavilhao terreo, alinhavam-se as maquettes do concurso para o Monumento do
Ypiranga. Havia uma pulsacao desconhecida
nos meios artisticos da cidade. Fundavam-se
revistas, lancavam-se nomes, formavam-se
grupos.
Em contraste, a vida de Jorge desnuda-
ra-se. Ele destruira friamente, doidamente, a
martelladas implacaveis, o grupo imenso
das “Amazonas e o Cavallo", depois maqueltes e torsos; atirara para o fundo uma esguia
Vidtoria alada em marmore branco. E no cemiterio de greda partida e gesso espedacado,
deixara apenas ao centro, presa ao gancho
recurvo do cavallete, o motivo palpitante
que arrancara do corpo de Alma para a
"Fonte da Vida". Modificara-o, entretanto.
D'uma espiritualizacao tragica de linhas, tirara effeitos halucinantes, erguera os bracos
para ‘cima em parallelas infinitas, iymmobilizara um rictus poderoso na maxilla, arredondara o craneo sob os cabellos em toalha a figura ficara numa exclamativa postura de
necropole. Dela se derramava um isolamento penetrante e gelado.
Jorge cobrira-a totalmente de pannos. E
apenas, uma manha, quando Alma appareceu
e depois de examinar em silencio a derrocada
do atelier lhe pediu para ver “A Fonte da
Vida', ele sorrindo descobriu a estatua.
Ela quedou-uma hora inteira no divap
de largas flores.
Ela levava os seios para o outro.
Haviam-se despedido hostilmente e Jorguif-a, na noite adcesa da cidade.
Ela ia voltar de-certo a Rua da Boa Morte, por ele ter-se recusado a acompanhala.
Ia voltar...
Qualquer coisa se passaria de
tremendo, qualquer coisa que ja se consumara e que ele queria, por forca, evitar ainda.
Caminhava lepida, levando para o outro
o leite elancado e quente de seu corpo.E por
tudo que se engrenava dentro delle — odios
luminosos, dores assassinas —— coruscava as
vezes uma invasao lubrica e tonta dos sentidos.
Jorge cacava-a com os olhos, na viravolta dos bedcos, egualando o andar e o porte a marcha dos transeuntes de acaso.
E, durante um quarto de hora, viu-a estacar a um canto escuro da Rua das Flores.
Voltava. Nao fora ate la. Uma victoria
irreprimivel cantava dentro do esculptor. Mas
a lutuosa memoria do que se passara invadiu-lhe o animo de cangeira. De que servia,
se ela estivera outras vezes com o outro.
E la ia, sozinha, num convite lascivo a
gula anonyma dos homens que paravam nas
calcadas, a contemplaHa, a querel-a.
Retomara o caminho habitual da casa,
cortara a Praca Joao Mendes.
Um rapaz alto e imberbe, de jaquetao, fez
passos atray della. Depois percebeu Jorge e
parou.
Na Rua da Gloria, um homenzinho que
sahia de uma casa, recuara ao vel-a. E logo
se pog a caminhar, acompanhando-a. Tinha
um chapeu coco, um guarda-chuva e o andar
molle.
Jorge seguia ambos num confiante interesse. Ela nao fora ter com o amante, nao
se deixaria levar assim, agora. Atraz, parecia vir lentamente o rapaz de jaquetao, pela
outra calcada.
Mas Jorge so temia o outro, o que a essas
horas talvez ainda a esperasse.
O homenzinho de chapeu coco afrouxou
os passos a uma esquina, parou, decidiu voltar. Jorge notou que ele tinha os bigodes
para cima.
E ele ia tel-a, sua de novo... ela era a
sua caca, ele a prendera melhor que todos e
era quem lhe construira o ninho inviolavel..
ninguem mais subsistia, ela e ele, na terra
indifferente.
Mas tocaram-lhe no braco. O rapaz de
jaquetao estava parado, indagando delle em
que rendez-vous, por favor... Sem comprehender, o artista perguntou porque.
61—
Por nada, eu a conheco.
Ante a revolta que fuzilava no interpelado, o outro angustiou-se na voz e na postura.
Nao, cavalheiro. Porque eu nao gosto
de empatar ninguem.
Partira. Jorge percebeu que a cidade toda a conhecia, a.cacava com indiscutiveis direitos. Quis fugir, deixar tudo..
Mas baixou a cabeca. E caminhou para
o ninho quem sabe se dez vezes conspurcado,
mas seu aquela noite.
Ele a principio quigera esquivar-se, fugir. Mas mil argumentos detiveram-no. Como
deixal-é? Para veHa cahir nas maos do outro? Para vel-a prostituir-se definitivamente,
ela, o seu amor, o seu amor?
Seguira-a de novo, semi-doido, e nao a
vira voltar a casa baixa da Rua da Boa Morte. Passara noites inteiras de garoa peneirada nos lampeoes, sob beiraes, a verificar se
alguem surgia para tet-a em casa.
Apenas, uma noite, Camilla viera visital-a. Ela desceu ate o portao, em sandalias,
para despedir-se.
Um soldado de ronda no Lavapes, Hespanhol velhusco, de grossos bigodes, entrou
a conversar com ele e, interrogado, disselhe que da casa visinha sahia as vezes uma
moca francega com um homem e na outra,
entrava sempre, tarde, depois dos theatros,
um rapaz fardado.