A Estrella de Absyntho - Bloco 06 A Trilogia do Exílio · Capítulo 33 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 06

Houve um enorme silencio.

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Quem é? Por tua mae morta, fala!

Um rapaz.

Como se chama?

Arthur.

Que faz?

Nao sei. Sei apenas que conversa muito bem e-densa muito bem.

-Onde o encontraste?

Na rua.

Jorge sentia um aniquilaCalaram-se.

mento definitivo cortar-lhe a vida.

Como chegaste a ir la?

Tinha o endereco.

E foste procural-o?

Alma nao se

Insultou-a pesadamente.

moveu, olhando o tapete numa fixidez insensivel.

Mas como foi? Como? Porque? Nao

te bastava o teu caften?

- Nunca te trahi com Mauro..

E trahiste-me com outro, agora, quando eu pretendia ligar para sempre a minha

existencia a tua... Perdeste-me... Perdeste-me..

A noite vinha de fora. Alma levantou-se,

ficou toda nua, grande, fulva. Poz um pijama de seda e veid enroscar-se no fundo do

leito.

Uma molle sensualidade quebrava o corpo de Jorge. Deitara-se ao lado da amante

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pohuida. O contacto de uma anca, sob a seda.

interpelou-o.

Um demonio novo, pouco a pouco, ia tomando conta delle, persuadindo-o, convidando-o. Na penumbra tonta, ao seu lado, Alma.

permanecia nua, no pijama, sobre a carne.

Jorge perguntou-lhe:

Como te entregaste?

Ia passando, ele estava a janella, fezme entrar.

—E depois?

Foi mostrar-me o quarto.

Sentamonos ao leito, para conversar. Uma aranha pequenina assustou-me. Ele riu, dizendo: araignée du soir, espoir! E deitou-me.

Jorge, tomado de uma volupia espantosa,

ao ouvir a cynica narrativa, queria minucias, obstinava-se de dentes cerrados.

Foi para mostrar os dessous novos que

te entregaste?

A sua mao, fazendo-se automatica, attingira-lhe o pijama que se rachava frouxamente. Ela deixou-se acariciar, acariciou-o tambem, com as maos longas e brancas. Mas de

um salto Jorge levantou-se, fugindo ao espasmo diabolico que o tomava. E ria agora

num doloroso esgar:

E' a vida!

Veiu de novo, disposto a tortural-a. Cingiu-lhe os seios com as maos numa violencia

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de bruto. Ela gemia, fugindo. Ele atacava,

furioso. Agatanhara-lhe a garganta.

— Pede-me perdao! pede!

Ela recusava-se, gemendo sempre. Pequeninas lagrimas apontaram-lhe aos cilios;

e gritou afinal na sombra, sentindo-se esga.nada:

-Per-dao!

Largou-a e fugiu para o patamar. Descera. Parou um instante a esquina. Depois,

foi-se alquebrado e triste.

Meges passaram-se rapidos sobre a desgraca mortal de Jorge d'Alvellos. Sao Paulo

tumultuava na espectativa das festas do Centenario. Artistas brasileiros, recemchegados

da Europa, armavam ateliers ao seu lado, no

Palacio das Industrias, agora em rapido acabamento.

No pavilhao terreo, alinhavam-se as maquettes do concurso para o Monumento do

Ypiranga. Havia uma pulsacao desconhecida

nos meios artisticos da cidade. Fundavam-se

revistas, lancavam-se nomes, formavam-se

grupos.

Em contraste, a vida de Jorge desnuda-

ra-se. Ele destruira friamente, doidamente, a

martelladas implacaveis, o grupo imenso

das “Amazonas e o Cavallo", depois maqueltes e torsos; atirara para o fundo uma esguia

Vidtoria alada em marmore branco. E no cemiterio de greda partida e gesso espedacado,

deixara apenas ao centro, presa ao gancho

recurvo do cavallete, o motivo palpitante

que arrancara do corpo de Alma para a

"Fonte da Vida". Modificara-o, entretanto.

D'uma espiritualizacao tragica de linhas, tirara effeitos halucinantes, erguera os bracos

para ‘cima em parallelas infinitas, iymmobilizara um rictus poderoso na maxilla, arredondara o craneo sob os cabellos em toalha a figura ficara numa exclamativa postura de

necropole. Dela se derramava um isolamento penetrante e gelado.

Jorge cobrira-a totalmente de pannos. E

apenas, uma manha, quando Alma appareceu

e depois de examinar em silencio a derrocada

do atelier lhe pediu para ver “A Fonte da

Vida', ele sorrindo descobriu a estatua.

Ela quedou-uma hora inteira no divap

de largas flores.

Ela levava os seios para o outro.

Haviam-se despedido hostilmente e Jorguif-a, na noite adcesa da cidade.

Ela ia voltar de-certo a Rua da Boa Morte, por ele ter-se recusado a acompanhala.

Ia voltar...

Qualquer coisa se passaria de

tremendo, qualquer coisa que ja se consumara e que ele queria, por forca, evitar ainda.

Caminhava lepida, levando para o outro

o leite elancado e quente de seu corpo.E por

tudo que se engrenava dentro delle — odios

luminosos, dores assassinas —— coruscava as

vezes uma invasao lubrica e tonta dos sentidos.

Jorge cacava-a com os olhos, na viravolta dos bedcos, egualando o andar e o porte a marcha dos transeuntes de acaso.

E, durante um quarto de hora, viu-a estacar a um canto escuro da Rua das Flores.

Voltava. Nao fora ate la. Uma victoria

irreprimivel cantava dentro do esculptor. Mas

a lutuosa memoria do que se passara invadiu-lhe o animo de cangeira. De que servia,

se ela estivera outras vezes com o outro.

E la ia, sozinha, num convite lascivo a

gula anonyma dos homens que paravam nas

calcadas, a contemplaHa, a querel-a.

Retomara o caminho habitual da casa,

cortara a Praca Joao Mendes.

Um rapaz alto e imberbe, de jaquetao, fez

passos atray della. Depois percebeu Jorge e

parou.

Na Rua da Gloria, um homenzinho que

sahia de uma casa, recuara ao vel-a. E logo

se pog a caminhar, acompanhando-a. Tinha

um chapeu coco, um guarda-chuva e o andar

molle.

Jorge seguia ambos num confiante interesse. Ela nao fora ter com o amante, nao

se deixaria levar assim, agora. Atraz, parecia vir lentamente o rapaz de jaquetao, pela

outra calcada.

Mas Jorge so temia o outro, o que a essas

horas talvez ainda a esperasse.

O homenzinho de chapeu coco afrouxou

os passos a uma esquina, parou, decidiu voltar. Jorge notou que ele tinha os bigodes

para cima.

E ele ia tel-a, sua de novo... ela era a

sua caca, ele a prendera melhor que todos e

era quem lhe construira o ninho inviolavel..

ninguem mais subsistia, ela e ele, na terra

indifferente.

Mas tocaram-lhe no braco. O rapaz de

jaquetao estava parado, indagando delle em

que rendez-vous, por favor... Sem comprehender, o artista perguntou porque.

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Por nada, eu a conheco.

Ante a revolta que fuzilava no interpelado, o outro angustiou-se na voz e na postura.

Nao, cavalheiro. Porque eu nao gosto

de empatar ninguem.

Partira. Jorge percebeu que a cidade toda a conhecia, a.cacava com indiscutiveis direitos. Quis fugir, deixar tudo..

Mas baixou a cabeca. E caminhou para

o ninho quem sabe se dez vezes conspurcado,

mas seu aquela noite.

Ele a principio quigera esquivar-se, fugir. Mas mil argumentos detiveram-no. Como

deixal-é? Para veHa cahir nas maos do outro? Para vel-a prostituir-se definitivamente,

ela, o seu amor, o seu amor?

Seguira-a de novo, semi-doido, e nao a

vira voltar a casa baixa da Rua da Boa Morte. Passara noites inteiras de garoa peneirada nos lampeoes, sob beiraes, a verificar se

alguem surgia para tet-a em casa.

Apenas, uma noite, Camilla viera visital-a. Ela desceu ate o portao, em sandalias,

para despedir-se.

Um soldado de ronda no Lavapes, Hespanhol velhusco, de grossos bigodes, entrou

a conversar com ele e, interrogado, disselhe que da casa visinha sahia as vezes uma

moca francega com um homem e na outra,

entrava sempre, tarde, depois dos theatros,

um rapaz fardado.

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