A Escada - Bloco 02 A Trilogia do Exílio · Capítulo 57 de 87
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A Escada - Bloco 02

OSWALD DE ANDRADE

Que te seja benefica a terra iodada em

que estas".

"A tua carta de hontem trouxe um pouco de tranquilidade a esta alma-motor. Chegou ate minha agitacao o silencio claro do

teu quarto e o bocado limpido do ceu que

te cobre.

Falas-me no futuro, logo esperas por

ele, logo ele nao pode falhar.

Estou so no atelier. Sera meio-dia. Vai

la fora ceu azul. E aqui dentro ceu azul.

Sabes que te amo? E' a ultima novidade, a unica que te saberia dizer sem mentir".

"Encontrei esta manha o Ugo. Faloume de seu talento matrimonial. E' feliz porque se casou com a obsessao.

Tem tres filhos de fazer inveja a Casa

de Savoia.

Hontem pensei em ti com exaltada sau-

AESCADAYEKMELH

dade. Nas noites longas sem ti, faz-me companhia a tua sombra augural.

.Tastavella exigiu que voltassemos a sala clara de cafe onde eramos habitues, afim

de renovar com a tua presenca longinqua a

efusao das horas que ai tiveramos juntos.

Mas a tua sombra benefica

nao gosta

do tilintar de risos e de copos. Ela apenas

consente descerrar as asas carinhosas e sutis

na penumbra pensativa do meu deserto eleito. Hontem a noite procurei uma bruxa da

Via Appia, para que com os olhos em Saturno e mergulhada no futuro, me dissesse coisas espantosas. E a megera me anunciou que

havias de morrer crianca. Responde-me que

ela mentiu,herdeira efetiva do anjo que

guardava,rocando as asas enormes pelas cortinas, o meu leito de crianca!"

Toda a vez que te, perco, aumentas de

estranha luz, sobes de impeto no meu cami-

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nho, assombras a minha vida. Nesta persistencia demorada de ocaso, assalta-me de novo

a ideia dolorosa de perder-te... Em todo

por de sol ha um braseiro estinto. E' a morte de um dia.

E o desaparecimento persistente, nitido

e loiro deste grande dia azul de hoje encheme de magda. O teu coracao, Mary Beatriz,

encerra para mim as promessas simples da

vida. Se um ocaso como éste me atingir um

dia pela tua mao salvadora, permanecerei cego como a noite que baixa e mergulhado numa recordacao palpitante de estrelas".

Apagou a lampada eletrica.

O ocaso descera. E ele sentia, na madrugada que azulava a vidraca nua do seu quarto brasileiro, que tinha os dois olhos vasados

A EsCADA VERMELHA

de lagrimas. Descerrou a janela para ver. Fora, entre canticos de galos, as estrelas caiam.

Era assim que Mary Beatriz se destacava

do passado como um gesto. Ela movia-se, andava. Ele permanecia quieto, vendo-a, numa

frialdade contida do animo impavido. O seu

amor revivia num restabelecimento de atitudes amigas e mortas. Voltaram as horas uma

a uma.

Nao podia continuar assim. O horizonte

do campo exaltava sua vida interior. Alma

d'Alvelos jazia confundida no sepulcro novo

de Mary Beatriz.

Despediu-se inesperadamente da familia,

feudal e inutil, que nao mais o pudera absorver. Partia. Voltava a capital.

O trem e o ceu dessas terras, vasto a per-

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der-se, fazendo ressoar as pancadas das porteiras brasilicas na nevoa, o cheiro dos currais

e o mugir das vacas presas, toda a liturgia

camponia das primeiras sociedades terrenas

num pais rescendendo ao banho do diluvio.

E a escravizacao do homem pelo homem.

Estava novamente em Sao Paulo.

Povoou de esbocos um grande atelier

num andar terreo da Liberdade.

Agora que se votara definitivamente ao

internamento das cidades, pensava como podia ter sido diferente a sua vida.

Recordava a invasao das primaveras brasilicas, a-cavalo, esplendido, moco, como podia ter sido.

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