A Escada - Bloco 02
OSWALD DE ANDRADE
Que te seja benefica a terra iodada em
que estas".
"A tua carta de hontem trouxe um pouco de tranquilidade a esta alma-motor. Chegou ate minha agitacao o silencio claro do
teu quarto e o bocado limpido do ceu que
te cobre.
Falas-me no futuro, logo esperas por
ele, logo ele nao pode falhar.
Estou so no atelier. Sera meio-dia. Vai
la fora ceu azul. E aqui dentro ceu azul.
Sabes que te amo? E' a ultima novidade, a unica que te saberia dizer sem mentir".
"Encontrei esta manha o Ugo. Faloume de seu talento matrimonial. E' feliz porque se casou com a obsessao.
Tem tres filhos de fazer inveja a Casa
de Savoia.
Hontem pensei em ti com exaltada sau-
AESCADAYEKMELH
dade. Nas noites longas sem ti, faz-me companhia a tua sombra augural.
.Tastavella exigiu que voltassemos a sala clara de cafe onde eramos habitues, afim
de renovar com a tua presenca longinqua a
efusao das horas que ai tiveramos juntos.
Mas a tua sombra benefica
nao gosta
do tilintar de risos e de copos. Ela apenas
consente descerrar as asas carinhosas e sutis
na penumbra pensativa do meu deserto eleito. Hontem a noite procurei uma bruxa da
Via Appia, para que com os olhos em Saturno e mergulhada no futuro, me dissesse coisas espantosas. E a megera me anunciou que
havias de morrer crianca. Responde-me que
ela mentiu,herdeira efetiva do anjo que
guardava,rocando as asas enormes pelas cortinas, o meu leito de crianca!"
Toda a vez que te, perco, aumentas de
estranha luz, sobes de impeto no meu cami-
OSWALD DE ANDRADE
nho, assombras a minha vida. Nesta persistencia demorada de ocaso, assalta-me de novo
a ideia dolorosa de perder-te... Em todo
por de sol ha um braseiro estinto. E' a morte de um dia.
E o desaparecimento persistente, nitido
e loiro deste grande dia azul de hoje encheme de magda. O teu coracao, Mary Beatriz,
encerra para mim as promessas simples da
vida. Se um ocaso como éste me atingir um
dia pela tua mao salvadora, permanecerei cego como a noite que baixa e mergulhado numa recordacao palpitante de estrelas".
Apagou a lampada eletrica.
O ocaso descera. E ele sentia, na madrugada que azulava a vidraca nua do seu quarto brasileiro, que tinha os dois olhos vasados
A EsCADA VERMELHA
de lagrimas. Descerrou a janela para ver. Fora, entre canticos de galos, as estrelas caiam.
Era assim que Mary Beatriz se destacava
do passado como um gesto. Ela movia-se, andava. Ele permanecia quieto, vendo-a, numa
frialdade contida do animo impavido. O seu
amor revivia num restabelecimento de atitudes amigas e mortas. Voltaram as horas uma
a uma.
Nao podia continuar assim. O horizonte
do campo exaltava sua vida interior. Alma
d'Alvelos jazia confundida no sepulcro novo
de Mary Beatriz.
Despediu-se inesperadamente da familia,
feudal e inutil, que nao mais o pudera absorver. Partia. Voltava a capital.
O trem e o ceu dessas terras, vasto a per-
OSWALD DE ANDRADE
der-se, fazendo ressoar as pancadas das porteiras brasilicas na nevoa, o cheiro dos currais
e o mugir das vacas presas, toda a liturgia
camponia das primeiras sociedades terrenas
num pais rescendendo ao banho do diluvio.
E a escravizacao do homem pelo homem.
Estava novamente em Sao Paulo.
Povoou de esbocos um grande atelier
num andar terreo da Liberdade.
Agora que se votara definitivamente ao
internamento das cidades, pensava como podia ter sido diferente a sua vida.
Recordava a invasao das primaveras brasilicas, a-cavalo, esplendido, moco, como podia ter sido.