A Escada - Bloco 31 A Trilogia do Exílio · Capítulo 86 de 87
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A Escada - Bloco 31

Sabia

que os pequeno-burgueses, orientados para o

marxismo como ele, por um acidente, so po-

A ESCADA VERMELHA

deriam seguir a reboque do proletariado como

antes tinham vivido nas aguas do capitalismo.

Faltava-lhe isto a perseguicao politica!

Preso como comunista na praca publica

emocional de um primeiro de Maio no Braz.

fora solto depois de passar duas noites agitadas e insones com dez camaradas num carcere

sordido.

Os amigos tinham interviydo. Mas a repressao continuava. A Ordem Social que permitia a subversao ativa feita pelos grupos burgueses, agucada na luta dos interesses imperialistas, que permitia as organizacoes conspirativas regionais e a existencia daninha dos

grupos anarcoides, era um castelo montado

contra o espectro de Marx e de Engels.

OSWALD DE ANDRADE

Um tir

sinistro, avinhado, com uma

bengala grossa na mao, procurara-o numa

reuniao dos Operarios Graficos.

Avisado, ele conseguira escapar pela escada, logo depois do homem sair. Queriam

atira-lo como agitador no presidio maritimo

de uma ilha ou no exilio hostil de qualquer

porto sul-americano.

Na noite rumorosa e comum de Sao Paulo, com radios, alto-falantes, ajuntamentos

e sorvetes, ele caminhava perseguido. Esperava a toda hora ser interpelado, preso.

Parecia-lhe que todos sabiam a sua historia.

Tomou na Praca Joao Mendes um bonde

amarelo que descia para Santo Amaro.

A ESCADA VERMELHA

O bonde sobre sapatos de aco atravessou

bairros adormecidos.

Havia chegado a vila, sem incidente. Seriam onze horas. Bilhares e bars abriam ainda

portas mortas para o largo provinciano da

Igreja. Automoveis alinhavam-se a um canto.

Jorge aproximou-se instintivamente.

Um “chauffeurbaixotinho, quase preto

sob o casquete de couro e a capa, aproximouse tambem.

Boa noite! Quer ir a Represa?

Nao. Quero fugir.

Aquela confissao, brotada do sub-conciente do artista, nao espantou o homem.

-Estou as suas ordens.

-E para onde voce me leva?

Para a minha casa. E' uma chacara.

Mas voce nao me conhece...

OSWALD DE ANDRADE

Que é que tem? Eu trabalho toda a

noite. O senhor pode dormir na minha cama.

Eu sou comunista...

Nao faz mal.

carro gasto, de molas guinchantes, a

capota rasgada, onde o vento da noite barulhava, rodou por uma estrada acesa e deserta. Depois tudo escureceu. Passaram aglomeracoes de casas silentes.

Jorge recusara a oferta generosa.

O homem mal sabia o que ele era, porque fugia.

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