A Escada - Bloco 31
Sabia
que os pequeno-burgueses, orientados para o
marxismo como ele, por um acidente, so po-
A ESCADA VERMELHA
deriam seguir a reboque do proletariado como
antes tinham vivido nas aguas do capitalismo.
Faltava-lhe isto a perseguicao politica!
Preso como comunista na praca publica
emocional de um primeiro de Maio no Braz.
fora solto depois de passar duas noites agitadas e insones com dez camaradas num carcere
sordido.
Os amigos tinham interviydo. Mas a repressao continuava. A Ordem Social que permitia a subversao ativa feita pelos grupos burgueses, agucada na luta dos interesses imperialistas, que permitia as organizacoes conspirativas regionais e a existencia daninha dos
grupos anarcoides, era um castelo montado
contra o espectro de Marx e de Engels.
OSWALD DE ANDRADE
Um tir
sinistro, avinhado, com uma
bengala grossa na mao, procurara-o numa
reuniao dos Operarios Graficos.
Avisado, ele conseguira escapar pela escada, logo depois do homem sair. Queriam
atira-lo como agitador no presidio maritimo
de uma ilha ou no exilio hostil de qualquer
porto sul-americano.
Na noite rumorosa e comum de Sao Paulo, com radios, alto-falantes, ajuntamentos
e sorvetes, ele caminhava perseguido. Esperava a toda hora ser interpelado, preso.
Parecia-lhe que todos sabiam a sua historia.
Tomou na Praca Joao Mendes um bonde
amarelo que descia para Santo Amaro.
A ESCADA VERMELHA
O bonde sobre sapatos de aco atravessou
bairros adormecidos.
Havia chegado a vila, sem incidente. Seriam onze horas. Bilhares e bars abriam ainda
portas mortas para o largo provinciano da
Igreja. Automoveis alinhavam-se a um canto.
Jorge aproximou-se instintivamente.
Um “chauffeurbaixotinho, quase preto
sob o casquete de couro e a capa, aproximouse tambem.
Boa noite! Quer ir a Represa?
Nao. Quero fugir.
Aquela confissao, brotada do sub-conciente do artista, nao espantou o homem.
-Estou as suas ordens.
-E para onde voce me leva?
Para a minha casa. E' uma chacara.
Mas voce nao me conhece...
OSWALD DE ANDRADE
Que é que tem? Eu trabalho toda a
noite. O senhor pode dormir na minha cama.
Eu sou comunista...
Nao faz mal.
carro gasto, de molas guinchantes, a
capota rasgada, onde o vento da noite barulhava, rodou por uma estrada acesa e deserta. Depois tudo escureceu. Passaram aglomeracoes de casas silentes.
Jorge recusara a oferta generosa.
O homem mal sabia o que ele era, porque fugia.