A Escada - Bloco 12
Claro Dutra que se levantava na proa,
junto ao mastro, chamou-o. Ele nao pode
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ir. Uma emocao sentava-o. Depois ergueuse a custo, olhou o desdobrar escuro da costa.
Atravessaram a baia, sairam.
O mar largo anunciou-se numa fusao de
massas bronzeas. Rumaram para a ilha, onde
um buque de coqueiros ardia na tarde.
Contornaram os rochedos, procurando
desembarque. Uma menina de branco, virginal e agreste, esperava-os no ancoradouro de
pedras.
Como se chama? perguntou o exilado.
-Vitoria Agonia.
Tia Amelia apareceu numa risada sem
dentes. Foram ver o chale erguido cem anos
atras por um nauta flamengo.
Percorreram os picos amontanhados, o
reconcavo da enseada, as rochas longas.
Claro Dutra e Carlos Bairao iam regressar a Santos.
Abracaram-se. A Marina' trepidou de
novo. Ele ficara so, junto a menina selvatica.
Sentou-se a uma pedra. A"Marina' passava-lhe em frente, numa reta, levando-os.
A EsCADA VERMELHA
A gente da ilha o havia tratado compassivamente, deixando-o isolar-se no chale que
habitava ou na ponta alongada dos rochedos.
Claridades laminavam a distancia panoramica. Nos coqueiros agrestes e crestados, um
passaro cantava o recolher do dia.
Uma saudade de possiveis amores vinha depor-lhe na imaginacao sensualidades
calmas, refletidos crimes, nefandos atos
praticados concientemente.
Pressentira na chegada, no contacto mais
direto com a natureza, uma volta a Deus. Desiludia-se agora.
A divindade pairava naquele cenario
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murmurante de aguas. Mas envolvia-lhe o
coracao como o mar barulhento envolvia o
rochedo duro em que o tinham abandonado.
Andara sem rumo, pelo dia inedito, descobrindo itinerarios. Uma tristeza a pouco e
pouco surgiu, enegreceu tudo — de ficar ali
no chale roido e velho ou vendo na tarde as
velas alinhadas recolherem da pesca, pelo
mar inexpressivo.
E sentiu de repente que a prece nascera
num ocaso alaranjado de exilio sobre o mar.
A ‘Marina"reapareceu uma tarde, trazen-
A ESCADA VERMELHA
do Carlos Bairao, efusivo, gritante, absurdo
naquele silencio.
Tiveram uma noite boa e tranquila no
chale.
Carlos desde que o trouxera a Santos
nao tinha subido mais a Capital. Deixara-se
prender pela boemia elegante e praieira de
Claro Dutra. Tinham estado nun hotel do
Jose Menino, justamente em companhia de
Marcos Gurgel, o amigo de Nora, recem-.chegado da America.
O seu otimismo reluzia — decerto andava tudo bem em Sao Paulo, adivinhava na
cor do ceu e do mar. Uma cartomante predissera...
No quarto superior do chale, onde Jorge dormia isolado do pavilhao da familia,
conversaram ate horas altas, ouvindo no escuro o pipilar dos morcegos.
Na manha seguinte partiu, prometendo
se ficasse em Santos, trazer a ilha Marcos
Gurgel que o exilado queria conhecer.
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A familia do pescador era composta de
tia Amelia, Mariinha, minuscula, de preto,
Clarice de sete anos e a sobrinha de treze
Vitoria Agonia.