A Escada - Bloco 12 A Trilogia do Exílio · Capítulo 67 de 87
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A Escada - Bloco 12

Claro Dutra que se levantava na proa,

junto ao mastro, chamou-o. Ele nao pode

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ir. Uma emocao sentava-o. Depois ergueuse a custo, olhou o desdobrar escuro da costa.

Atravessaram a baia, sairam.

O mar largo anunciou-se numa fusao de

massas bronzeas. Rumaram para a ilha, onde

um buque de coqueiros ardia na tarde.

Contornaram os rochedos, procurando

desembarque. Uma menina de branco, virginal e agreste, esperava-os no ancoradouro de

pedras.

Como se chama? perguntou o exilado.

-Vitoria Agonia.

Tia Amelia apareceu numa risada sem

dentes. Foram ver o chale erguido cem anos

atras por um nauta flamengo.

Percorreram os picos amontanhados, o

reconcavo da enseada, as rochas longas.

Claro Dutra e Carlos Bairao iam regressar a Santos.

Abracaram-se. A Marina' trepidou de

novo. Ele ficara so, junto a menina selvatica.

Sentou-se a uma pedra. A"Marina' passava-lhe em frente, numa reta, levando-os.

A EsCADA VERMELHA

A gente da ilha o havia tratado compassivamente, deixando-o isolar-se no chale que

habitava ou na ponta alongada dos rochedos.

Claridades laminavam a distancia panoramica. Nos coqueiros agrestes e crestados, um

passaro cantava o recolher do dia.

Uma saudade de possiveis amores vinha depor-lhe na imaginacao sensualidades

calmas, refletidos crimes, nefandos atos

praticados concientemente.

Pressentira na chegada, no contacto mais

direto com a natureza, uma volta a Deus. Desiludia-se agora.

A divindade pairava naquele cenario

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murmurante de aguas. Mas envolvia-lhe o

coracao como o mar barulhento envolvia o

rochedo duro em que o tinham abandonado.

Andara sem rumo, pelo dia inedito, descobrindo itinerarios. Uma tristeza a pouco e

pouco surgiu, enegreceu tudo — de ficar ali

no chale roido e velho ou vendo na tarde as

velas alinhadas recolherem da pesca, pelo

mar inexpressivo.

E sentiu de repente que a prece nascera

num ocaso alaranjado de exilio sobre o mar.

A ‘Marina"reapareceu uma tarde, trazen-

A ESCADA VERMELHA

do Carlos Bairao, efusivo, gritante, absurdo

naquele silencio.

Tiveram uma noite boa e tranquila no

chale.

Carlos desde que o trouxera a Santos

nao tinha subido mais a Capital. Deixara-se

prender pela boemia elegante e praieira de

Claro Dutra. Tinham estado nun hotel do

Jose Menino, justamente em companhia de

Marcos Gurgel, o amigo de Nora, recem-.chegado da America.

O seu otimismo reluzia — decerto andava tudo bem em Sao Paulo, adivinhava na

cor do ceu e do mar. Uma cartomante predissera...

No quarto superior do chale, onde Jorge dormia isolado do pavilhao da familia,

conversaram ate horas altas, ouvindo no escuro o pipilar dos morcegos.

Na manha seguinte partiu, prometendo

se ficasse em Santos, trazer a ilha Marcos

Gurgel que o exilado queria conhecer.

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A familia do pescador era composta de

tia Amelia, Mariinha, minuscula, de preto,

Clarice de sete anos e a sobrinha de treze

Vitoria Agonia.

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