A Escada - Bloco 06 A Trilogia do Exílio · Capítulo 61 de 87
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A Escada - Bloco 06

E, andando, descera insensivelmente a Gloria.

Agora ia subindo como anos atras a rua

Scuvero. Nunca mais revira o sobradinho

marcado pela lembranca lancinante de Alma.

Iria para la numa peregrinacao timida, pois

que o acaso para la o conduzia.

Uma mulher de olhos bonitos, sob um

chapeu de larga copa, as maos enluvadas e

um expressivo rolar de ancas cheias, veio na

sua direcao e vendo-o parou num sorriso

Jorge D'Alvelos!

Ele apertava a mao oferecida sem saber.

- Nao me reconhece? Antonia, a modelo que recusou.. .

. Vagamente na memoria do escultor, falou uma lembranca de historia em que Lino

de Albuquerque, desencontrado de gestos,

varava pelo atelier do Palacio das Industrias

com uma mulher pela mao. Era ela.

Continua a ser modelo?

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Nao. Foi so para servir aquele

ingrato!

Tem noticias dele?

-- Nunca mais.

Jorge sentiu, conversando

na sombra

com a mulher facil, uma ligeira perturbacao

de macho.

Aonde vai?

A* farmacia, buscar um sabonete.

O sobradinho na distancia atemorizou-o.

Pensou que nao devia prosseguir ate la. Aquela mulher posta ali vedava-lhe a visita inconcientemente tentada. Voltou com ela até o

cotovelo rumoroso do Lavapes. Num portao,

um homem macerado tirava tres notas longas duma flauta rustica. Criancas cantavam

em rodas multicores.

Quer ir esperar-me em casa? fez a

mulher sorrindo. Dou-lhe a chave.

- Onde é.

A mulher deu o endereco. Morava na

mesma casa que Alma habitara.

Jorge disse:

A EsCADA VERMELHA

Passarei por la depois.

Despediu-se. Foi descendo mais pela arteria quebrada.

A* porta de uma casa amontoava-se gente. Dansava-se la dentro aos pulos. Festejavam um casamento.

Dobrou por uma rua deserta. Andou sob

arvores espacadas. Depois, ouviu uma corrida de passos sonoros atras dele. Voltou-se.

Uma preta adolescente, de trunfa, gritou-lhe

numa voz debochada:

-Ta com medo de mim?

Aproximava-se. Jorge fitou a eAquisita

aparicao e perguntou-lhe o que fazia.

Besteira!

De uma esquina saira um outro homem.

Na mesma corrida de passos sonoros, ela foi

perseguir o outro.

Era assim a vida, um jogo e uma masca-

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rada. Dir-se-ia que tudo tinha secretas correspondencias, dissimulados avisos, ligacoes

invisiveis mas perfeitas.

E o sentido disso? Haveria de fato uma

caixa de teatro no interior impalpavel da

existencia terrena e como contra-regra o inflexivel deus de todas as religioes?

Fechou-se de novo no atelier. Compot

um esboco de relevo monumental.

Ante a criacao ia comovendo-se.

As lagrimas subiam, inundavam-lhe os

concavos olhos.

Que opressao integral do ser emotivo,

que nervos abertos aos menores barulhos,

que sentidos sonoros!

Como o Cristo do Jardim das Oliveiras, o

artista carregava dentro de se toda a pena do

mundo,

A ESCADA VERMELHA

Ficara ate tarde na rua, perscrutando as

coisas terriveis que andavam noite. Viu um

casal moco e alegre brigar longamente numa

alea de parque; passou por ele com um magricela, comentando atletas de trapezio, um

anaozinho de circo; bebedos e mulheres desciam a esplanada do Municipal cantando.

Encaminhou-se por uma rua deserta e

silente entre arvores e subito ouviu como

uma musica cadenciada de dansa barbara,

um arrastar de chinelos rascantes e passos

caminhando para ele. Em sua frente, longe

ainda, desenharam-se dois bizarros peregrinos da cidade cosmopolita. Vieram. Cresceu o

arrastar regulado dos chinelos e o batuque

dos passos sob as arvores. Passaram. Um era

alto, moreno e trazia na cabeca um disforme

canudo, o outro, minguado e reteso, sobracava um grosso embrulho. Um guarda que

estacava ali, fe-los parar. Houve um silencio.

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O soldado examinava detidamente o embru

lho. Jorge aproximou-se.

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