A Escada - Bloco 06
E, andando, descera insensivelmente a Gloria.
Agora ia subindo como anos atras a rua
Scuvero. Nunca mais revira o sobradinho
marcado pela lembranca lancinante de Alma.
Iria para la numa peregrinacao timida, pois
que o acaso para la o conduzia.
Uma mulher de olhos bonitos, sob um
chapeu de larga copa, as maos enluvadas e
um expressivo rolar de ancas cheias, veio na
sua direcao e vendo-o parou num sorriso
Jorge D'Alvelos!
Ele apertava a mao oferecida sem saber.
- Nao me reconhece? Antonia, a modelo que recusou.. .
. Vagamente na memoria do escultor, falou uma lembranca de historia em que Lino
de Albuquerque, desencontrado de gestos,
varava pelo atelier do Palacio das Industrias
com uma mulher pela mao. Era ela.
Continua a ser modelo?
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Nao. Foi so para servir aquele
ingrato!
Tem noticias dele?
-- Nunca mais.
Jorge sentiu, conversando
na sombra
com a mulher facil, uma ligeira perturbacao
de macho.
Aonde vai?
A* farmacia, buscar um sabonete.
O sobradinho na distancia atemorizou-o.
Pensou que nao devia prosseguir ate la. Aquela mulher posta ali vedava-lhe a visita inconcientemente tentada. Voltou com ela até o
cotovelo rumoroso do Lavapes. Num portao,
um homem macerado tirava tres notas longas duma flauta rustica. Criancas cantavam
em rodas multicores.
Quer ir esperar-me em casa? fez a
mulher sorrindo. Dou-lhe a chave.
- Onde é.
A mulher deu o endereco. Morava na
mesma casa que Alma habitara.
Jorge disse:
A EsCADA VERMELHA
Passarei por la depois.
Despediu-se. Foi descendo mais pela arteria quebrada.
A* porta de uma casa amontoava-se gente. Dansava-se la dentro aos pulos. Festejavam um casamento.
Dobrou por uma rua deserta. Andou sob
arvores espacadas. Depois, ouviu uma corrida de passos sonoros atras dele. Voltou-se.
Uma preta adolescente, de trunfa, gritou-lhe
numa voz debochada:
-Ta com medo de mim?
Aproximava-se. Jorge fitou a eAquisita
aparicao e perguntou-lhe o que fazia.
Besteira!
De uma esquina saira um outro homem.
Na mesma corrida de passos sonoros, ela foi
perseguir o outro.
Era assim a vida, um jogo e uma masca-
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rada. Dir-se-ia que tudo tinha secretas correspondencias, dissimulados avisos, ligacoes
invisiveis mas perfeitas.
E o sentido disso? Haveria de fato uma
caixa de teatro no interior impalpavel da
existencia terrena e como contra-regra o inflexivel deus de todas as religioes?
Fechou-se de novo no atelier. Compot
um esboco de relevo monumental.
Ante a criacao ia comovendo-se.
As lagrimas subiam, inundavam-lhe os
concavos olhos.
Que opressao integral do ser emotivo,
que nervos abertos aos menores barulhos,
que sentidos sonoros!
Como o Cristo do Jardim das Oliveiras, o
artista carregava dentro de se toda a pena do
mundo,
A ESCADA VERMELHA
Ficara ate tarde na rua, perscrutando as
coisas terriveis que andavam noite. Viu um
casal moco e alegre brigar longamente numa
alea de parque; passou por ele com um magricela, comentando atletas de trapezio, um
anaozinho de circo; bebedos e mulheres desciam a esplanada do Municipal cantando.
Encaminhou-se por uma rua deserta e
silente entre arvores e subito ouviu como
uma musica cadenciada de dansa barbara,
um arrastar de chinelos rascantes e passos
caminhando para ele. Em sua frente, longe
ainda, desenharam-se dois bizarros peregrinos da cidade cosmopolita. Vieram. Cresceu o
arrastar regulado dos chinelos e o batuque
dos passos sob as arvores. Passaram. Um era
alto, moreno e trazia na cabeca um disforme
canudo, o outro, minguado e reteso, sobracava um grosso embrulho. Um guarda que
estacava ali, fe-los parar. Houve um silencio.
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O soldado examinava detidamente o embru
lho. Jorge aproximou-se.