A Escada - Bloco 18 A Trilogia do Exílio · Capítulo 73 de 87
Obra Menu

A Escada - Bloco 18

Depois de comer na toalha rude, servido

por Vitoria Agonia, ele rezava ao mar que lhe

mandava, pela janela carcomida, o sopro di

OSWALD DE ANDRADE

reto das procelas, desde o continente africano.

Nunca me deshabituei de ser pobre!

Nunca me deshabituei de ser bom!

O mar incutia-lhe de novo um deismo

agitado. Pensava em castigos, em perdao.

Numa impotencia de gestos, percebia o

irremediavel de sua s

situacao na distancia.

La em cima, em Sao Paulo, espoliavam-no

talvez, tiravam-lhe o que lhe restava, tripudiavam-lhe sobre a honra, o nome, a vida.

Nao podia voltar enquanto os tribyais

nao decidissem de sua sorte. Tornara-se um

instrumento tenso de mais. Estalaria corda

a corda se o levassem a prisao. Por isso aceitara nervosamente o alvitre apressado da

fuga.

Defendera a vida como quem defende

uma transfiguracao.

Vitoria Agonia, selvatica, de cabelos encordoados e a carne salgada das espumas,

sorria a tristeza ao seu silencio. Parecia conpreender as amarguras que evocava. Era Al-

A ESCADA VERMELHA

ma na infancia semi-nua do Amazonas naufragado.

passaro saudoso estridulava no

calor.

Ele saia do chale recostado a crianca

branca. Faziam a volta das pedras entre os

coqueiros, chegavam a ponta do rochedo.

Velas adejavam na brisa forte.

O mar rendado em cinza tinha um grande claro de sol no meio.

Um bentevi punha sarcasmos na floresta longinqua.

Uma grande onda de sono faquirizava o

litoral sem fim, onde a calacaria semi-nua

nem sequer ousava mendigar.

Um torpor suave e bom apoderava-se

dos membros inespertos de Jorge no chalé.

Ele acordava com Vitoria Agonia ao lado tra-

OsWALD DE ANDRADE

zendo-lhe uma chicarinha de café ou uma

calida rosa silvestre. O mar marulhava sempre. Ela contava-lhe historias de pesca, tinha

apanhado dois paratis barbudos, uma garopa.

O bentevi insistia, longe, numa cacoada feliz.

Sob a condenacao daquele sol, a preguica brasilica empilhava seculos de historia

vagia, entorpecidos de sexualidade, ensanguentados de feudalismo.

Uma amizade natural,

uma instintiva

uniao de defesa, estreitava mais e mais ao

novo habitante da ilha os restos da familia

de luto.

Uma opressao nervosa do peito prendera-o tres dias no quarto. E a gente do pavilhao revesava-se em visitas longas, queria

mandar terra, numa incrivel travessia,o

A ESCADA VERMELHA

bote minusculo do porto, afim de avisar Claro Dutra e trazer o medico.

A mudanca climaterica provocara uma

crise na sua saude estragada. Em Sao Paulo.

no tumulto das ruas ou no silencio do Clarim, ele sentia a vida penosa que lhe ia por

dentro. O coracao tantas vezes golpeado, obedecia mal ao funcionamento regular da maquina fisica.

Agora, a restituicao das cores e das forcas pelas primeiras semanas marinhas, sucedera um abatimento palido, uma teimosa

reacao malefica.

Melhorou lentamente. Ja ia a janela ver

as vozes do porto, quando a lancha chegava.

Passaros cortavam o calor aos gritos e

a agua estrondava sempre nas pedras. Pelas

noites negras, como um ser benfazejo, o cao

holandes da ilha ladrava vigilantemente. E

havia cicios de morcegos no chale.

OSWALD DE ANDRADE

Coincidiu a convalescenca com a chegada de Claro sob um grande chapeu praiano.

Ele mesmo conduzia a 'Marina' na tarde mansa.

1/1
Menu

Fazer anotação