A Escada - Bloco 18
Depois de comer na toalha rude, servido
por Vitoria Agonia, ele rezava ao mar que lhe
mandava, pela janela carcomida, o sopro di
OSWALD DE ANDRADE
reto das procelas, desde o continente africano.
Nunca me deshabituei de ser pobre!
Nunca me deshabituei de ser bom!
O mar incutia-lhe de novo um deismo
agitado. Pensava em castigos, em perdao.
Numa impotencia de gestos, percebia o
irremediavel de sua s
situacao na distancia.
La em cima, em Sao Paulo, espoliavam-no
talvez, tiravam-lhe o que lhe restava, tripudiavam-lhe sobre a honra, o nome, a vida.
Nao podia voltar enquanto os tribyais
nao decidissem de sua sorte. Tornara-se um
instrumento tenso de mais. Estalaria corda
a corda se o levassem a prisao. Por isso aceitara nervosamente o alvitre apressado da
fuga.
Defendera a vida como quem defende
uma transfiguracao.
Vitoria Agonia, selvatica, de cabelos encordoados e a carne salgada das espumas,
sorria a tristeza ao seu silencio. Parecia conpreender as amarguras que evocava. Era Al-
A ESCADA VERMELHA
ma na infancia semi-nua do Amazonas naufragado.
passaro saudoso estridulava no
calor.
Ele saia do chale recostado a crianca
branca. Faziam a volta das pedras entre os
coqueiros, chegavam a ponta do rochedo.
Velas adejavam na brisa forte.
O mar rendado em cinza tinha um grande claro de sol no meio.
Um bentevi punha sarcasmos na floresta longinqua.
Uma grande onda de sono faquirizava o
litoral sem fim, onde a calacaria semi-nua
nem sequer ousava mendigar.
Um torpor suave e bom apoderava-se
dos membros inespertos de Jorge no chalé.
Ele acordava com Vitoria Agonia ao lado tra-
OsWALD DE ANDRADE
zendo-lhe uma chicarinha de café ou uma
calida rosa silvestre. O mar marulhava sempre. Ela contava-lhe historias de pesca, tinha
apanhado dois paratis barbudos, uma garopa.
O bentevi insistia, longe, numa cacoada feliz.
Sob a condenacao daquele sol, a preguica brasilica empilhava seculos de historia
vagia, entorpecidos de sexualidade, ensanguentados de feudalismo.
Uma amizade natural,
uma instintiva
uniao de defesa, estreitava mais e mais ao
novo habitante da ilha os restos da familia
de luto.
Uma opressao nervosa do peito prendera-o tres dias no quarto. E a gente do pavilhao revesava-se em visitas longas, queria
mandar terra, numa incrivel travessia,o
A ESCADA VERMELHA
bote minusculo do porto, afim de avisar Claro Dutra e trazer o medico.
A mudanca climaterica provocara uma
crise na sua saude estragada. Em Sao Paulo.
no tumulto das ruas ou no silencio do Clarim, ele sentia a vida penosa que lhe ia por
dentro. O coracao tantas vezes golpeado, obedecia mal ao funcionamento regular da maquina fisica.
Agora, a restituicao das cores e das forcas pelas primeiras semanas marinhas, sucedera um abatimento palido, uma teimosa
reacao malefica.
Melhorou lentamente. Ja ia a janela ver
as vozes do porto, quando a lancha chegava.
Passaros cortavam o calor aos gritos e
a agua estrondava sempre nas pedras. Pelas
noites negras, como um ser benfazejo, o cao
holandes da ilha ladrava vigilantemente. E
havia cicios de morcegos no chale.
OSWALD DE ANDRADE
Coincidiu a convalescenca com a chegada de Claro sob um grande chapeu praiano.
Ele mesmo conduzia a 'Marina' na tarde mansa.